Iracema/XX

XX

A lua cresceu.

Três sóes havia que Martim e Iracema estavão nas terras dos Pytiguaras, senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os estrangeiros tinhão sua rêde na vasta cabana de Jacaúna. O valente chefe guardou para si a alegria de hospedar o guerreiro branco.

Poty abandonou sua taba para acompanhar seu irmão de guerra na cabana de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavão do amor de Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar.

A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate.

— A tristeza mora na alma de Iracema!

— A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixão, as lagrimas enchem os seus.

— Por que chora a filha dos Tabajaras?

— Esta é a taba dos Pytiguaras, ennemigos de meu povo. A vista de Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já tocou as armas tintas do sangue de seus paes.

A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao peito delle:

— Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; quando a machucão, azeda. Tua esposa não quer que seu amor azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel.

— Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a taba dos ennemigos de seu povo.

O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua fronte guerreira. Martim dissera:

— O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe.

— Alguma coisa te faltou na taba de Jacaúna?

— Nada faltou á teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração o chama a outros sitios.

— Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle festeje tua boa vinda.

Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, fallou:

— Teu irmão te acompanha.

— Os guerreiros de Poty precisão de seu chefe.

— Si tu não queres que eles vão com Poty, Jacaúna os conduzirá à victoria.

— A cabana de Poty ficará deserta e triste.

— Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.

O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha. Passarão além da fértil montanha, onde a abundancia dos fructos creava grande quantidade de mosca, de que lhe veio o nome de Meruoca.

Atravessão os corregos que levão suas aguas ao rio das garças, e avistão longe no horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra vôa das bandas do mar: são os urubús que pastão nas praias a carniça que o oceano arroja, e com a noite tornão ao ninho.

Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o Sol voltou, chegarão ás margens do rio, que nasce da quebrada da serra e desce a planicie enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganão a cada passo o pirigrino, que vae seguindo o tortuoso curso; por isso foi chamado Mundahú.

Perlongando as frescas margens, vio Martim no seguinte sol os verdes mares e alvas praias onde as ondas murmurosas, às vezes solução e outras raivão de furia, rebentando em frocos de espuma.

Os olhos do guerreiro branco se dilatarão pela vasta immensidade; seu peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi, seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas saudades della.

Iracema sentio chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de seu guerreiro o acalentasse.

Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a refeição.

NotasEditar

Pap. 92.—Meruoca.—De meru, mosca, e oca, casa. Serra junto de Sobral fertil em mantimentos.


 

Pag. 93.—I. Uruburetama— Pátria ou ninho de urubus: serra bastante alta.

II. Mundahu—rio muito tortuoso que nasce na serra de Uruburetama. Mundé, cilada, e hu rio.

III. Potengi—rio que rega a cidade de Natal, donde era filho Soares Moreno.