Marános/Canto 11

XI


MARÁNOS, A SAUDADE E DOM QUIXOTE




E já chovia em bátegas pesadas;
E o vento forte em turbilhões de som
Galgava outeiros, montes e quebradas,
Possesso do Clamor e do Murmurio...


E Marános mais triste e pensativo
(Porque o pensar é triste mesmo quando
É alegre o pensamento) ouviu lá fóra
Uma voz que era humana, praguejando...
Vaga palavra errante, sem sentido,
Arrastada nos doidos borborinhos!
Verbo que andava tragico e perdido
No labyrintho esphingico da Noite...
E a Saudade, pegando na candeia,
Anciosa e medrosa, abriu a porta;
E logo deu de cara com o triste
E palido perfil da noite morta!
E em voz alta, exclamou: «Quem anda ahi,
Perdido pela Serra?»


 E de repente,
D'entre as trevas surgiu ante os seus olhos
Um Vulto que lhe disse, tristemente:
«Surprehendeu-me a noite na Montanha,
E n'ela me perdi! Julguei morrer
De frio ou devorado pelos lobos.»


E a Saudade: «Por Deus, vinde aquecer
Esse corpo engerido e gotejante;
No lar ha fogo acêso; sem demora,
Sentae-vos n'este canto, ao pé do lume...
Que vento de gelar vem lá de fóra!»


E uma rajada subita apagou
A trémula candeia; e o zimbro frio
No rosto da Saudade foi bater!
E então, aquele magro Vulto esguio,
Pálido, desgrenhado e sem temor,
Sentou-se na velhinha preguiceira...
E Marános, olhando-o com amôr,
Lhe perguntou quem era e d'onde vinha...
E ele, inclinando a fronte sobre o fogo
E volvendo a Marános longamente
Seus êrmos olhos vagos e profundos
Lhe disse:


 «Eu sou aquele que anda ausente
De sua Patria amada ... o Peregrino
Que anda no mundo tragico e imperfeito...
Eu fui meu proprio sêr desesperado,
De lança em riste e escudo sobre o peito!»


Fez-se um curto silencio; e ao lado d'ele,
A mistica Saudade que é tristeza,
A sua alegre sombra derramava...
E poz-lhe pão e leite sobre a meza...


Lá fóra, ouve-se o vento declamando
Sua tragedia aérea ... E Dom Quixote
Na Saudade seus olhos descançando,
E com sombras na voz, continuou:


«Perdida a minha lança e o meu escudo,
Não por fraqueza vil, mas por traição
De encantados gigantes, vejo em tudo
Minha humildade escura de vencido!
Vejo em tudo a Tristeza, porque, emfim,
Seu amôr me pertence, de tal sorte,
Que eu sou mais da Tristeza e da Aventura,
Bem mais! bem mais! do que da propria Morte!
Esta Triste Figura, quem m'a deu?
Foi um ventre materno? Foi esta alma
Que subindo-me ao rosto, o escureceu,
N'ele espalhando a noite sempiterna!...
Ah! meus olhos perderam a visão
Da Alegria chimerica! e meus pés
Que fôram altas azas na amplidão,
Ei-los crucificados sobre a terra!...»


Ia ouvindo Marános; e a Saudade
Silenciosa ouvia; e nos seus olhos
Um alto e doce luar de piedade
Sorria ao Cavaleiro em sua noite...


E Marános lhe disse: «Conheci
Teu nome glorioso em todo o mundo!
E em verdade eu afirmo: ainda não vi
Um Ser mais belo e nobre do que tu!
És a Figura humana, heroica e doce,
Das paginas d'um livro alevantada,
Mais viva, mais perfeita que se fosse
Concebida n'um ventre de Mulher!»


E eis que diz a Saudade: «É com tristeza
Que vos vejo sofrer, embora eu saiba
Que não sois da sagrada redondeza
De terras, onde vi a luz do dia.
Pareceis estrangeiro ... pela fala...
Mas eu conheço apenas a paisagem
Onde meu sêr chimerico se exhala
Das almas e das árvores, de tudo!...
Pois ninguem como eu tenho, ainda teve
O amor dos pinheiraes, dos sítios êrmos
E dos sêrros tão altos, onde a neve
Sorri perpetuamente á luz do Sol!
Meu coração, em extase, estremece
Ante a mysteriosa simpatia
D'essa vossa figura que parece
Esculpida n'um mármore de sombra.


«Haverá do teu sangue em minhas veias?
E as lagrimas saudosas que procuram
Em meu olhar o dia que as fecunda,
Por acaso, scintilam e murmuram
Na tua face triste, embora calma,
Que eu avisto tão palida e remota,
Como a longinqua imagem da minh'alma?...
Mas não ... a simpatia que vos tenho
Nasce apenas do vosso sofrimento...
Sois estrangeiro e cavaleiro ... andaes
Errante pelo mundo...»


 E a voz do Vento
Era o proprio Silencio a falar alto...


E os olhos da Saudade se encontraram
Com os olhos do triste Cavaleiro...
Os d'ela: luz da lua e luz do sol;
Os d'ele: magua, sombra e nevoeiro.


E Marános lhe disse, de repente:


«O teu mal é o amor que te persegue!
Pobre de ti, que fôste amor sómente;
E por isso a tua alma te despreza!
Sê homem e animal, o que é também
Uma grande alegria; com ternura
Adora a Divindade que se beija,
Presente e viva, em carne e formosura.
Tu sabes que um deserto, seja de oiro,
Seja de amôr, é a mesma solidão...
Vem para a terra mater e fecunda,
Criadora das arvores e do pão!
Vem para a luz do sol, para a alegria
Da verdadeira vida que resulta
Do perfeito equilíbrio e da harmonia
Entre a Alma mortal e o Corpo eterno...»


E o pobre Cavaleiro entristecido:


«Com estranheza ouvi o que disseste...
Meu coração, no mundo incompreendido,
Foi um incendio trágico de amôr!
Eu fui sómente espirito, e jámais
Dei pela vida mísera do corpo...
Pedras e nuvens, plantas e animaes
São fumarada leve d'um incendio
Espiritual, eterno, universal,
Que a cinza fria e morta reduziu
Meu sêr tão belo, outrora, e virginal
Que florescia a terra que trilhava.
Hoje sou terra morta, sem florir...
Desencantada Imagem que perdeu
O divino segredo de vestir
As cousas com a sua comoção...»


E Marános, mais triste e pensativo,
Continuou a falar, dizendo assim:
(Arde em chamas o fogo alegre e vivo;
Geme, lá fóra, o vento e a chuva cae...)


«O espirito criado que abandona
A carne criadora, é egual ao côrvo
Que Noé soltou no ar, quando o Diluvio
Tumultuoso baixava, imenso e tôrvo...
E ao vêrmos nosso espirito perdido
No chimerico ceu a que aspiramos,
Sentimos com tristeza e dôr amarga,
A solidão gelada em que ficamos!
E o nosso corpo exclama, como Christo:
—Meu Pae! meu Pae! porque me abandonaste!?
Eu sei da tua dôr, ó Cavaleiro!
A dôr da Perfeição que tu sonhaste!
Eu vejo a tua dôr, a tua sombra!
Phantasma que, na vida, te acompanha;
Espectro que é teu sangue e tua carne!
Como ele é grande e belo na Montanha,
Nas alturas de fraga e de silencio!
Quem sofre em ti é o corpo derrotado,
O Mal vencido e morto aos pés do Bem!
Pois o esplendor do Bem santificado,
Nasce do Mal que morre, amando a vida...
E toda a morte é dolorosa e triste.
Quando algum sêr se extingue, ou anjo ou féra,
Paira um soluço em tudo quanto existe!
O que ha de mau em nós, perante a morte,
Geme, grita e soluça! Jesus Christo,
No Horto, ao vêr a sua negra sorte,
Sua negra e final expiação,
Sentiu acordar n'ele, de repente,
O vago orangotango primitivo
Que chorou longamente e amargamente,
Com o terrível calix de amargura
Nas longas mãos peludas e selvagens,
Emquanto junto d'ele, alevantado
Na tristeza da tarde e do olival,
Estava o Anjo mystico e enviado...


«Assim teu corpo ao vêr-se no abandono
Do espirito divino que criou...
Assim o pae ao vêr o filho morto
E a terra ao vêr a flôr que se murchou.


«Sim: é preciso amar o próprio Mal...»


De vez emquando, o vento emudecia...
E um silencio profundo se espraiava...
E era um silencio apenas que se ouvia...


E Marános, olhando com ternura
Aquela face magra, aquela fronte
Em que morria um beijo de candura
Sob a neve imortal dos seus cabelos:


«Eu sei a tua Historia heroica e triste;
Tuas grandes façanhas e combates...
E esse infinito amôr que tu sentiste
Por tua propria Alma del Toboso...
Pois era a tua alma ... embora tu
Não o quizesses crêr ... eu comprehendo...
Por ela n'outra serra andaste nú
Exposto a peor inverno que este inverno!
Por ela só, puzeste na cabeça
A comica Bacia do Barbeiro,
Irmã da Cana Verde ... e arremeteste
Contra o Mal, como nobre Cavaleiro
Que sempre fôste, sim...»


 E o Fugitivo
Respondeu tristemente: «Já meus olhos
Viram o que dizeis ... Se acaso vivo
É porque a Morte (ai d'ela!) me tem medo!»


E n'uma voz incerta, esvoaçante:


«Se ela fôsse, na terra, o que eu sonhei?
Se um ventre a houvesse dado á luz do dia?
Mas não ... fingida Sombra é que eu amei!»


E a nitida e real visão das cousas,
Em seus olhos ardia, irradiando
Mais noite do que luz! E o doido vento,
Pelos soturnos píncaros miando,
Era outra alma penada ... E o Cavaleiro,
Ainda d'essa Sombra enamorado:


«Quando a vida nos foge, pelo menos,
Que sintamos a morte ao nosso lado!
Para sentir-se a morte é necessário
Ter-se vivido, sim; isto que sou,
Esta pedra e terreno de Calvario,
Sustenta ainda a cruz do meu Espirito...
Mas vós, quem sois? Dizei! É bem estranha
A vida que levaes! ... Eu comprehendo
Que a vida só é bela na Montanha,
Ou então sobre o Mar ou no Deserto!»


E falando depois para a Saudade:


«É muito raro vêr em sitio ermo
Donzela como vós, de tal piedade
E tão subidas formas femininas!
Meu olhar adivinha em vosso rosto,
Signaes de Divindade ... Por ventura
Sereis alguma Deusa que um desgosto
Trouxe do céu ao mundo? ... Érma Donzela,
Ao vêr-vos, eu invoco o meu Passado!
Minhas luctas heroicas, meu retiro
N'um monte, como este, alevantado
Em nuvens, fragaredos e relampagos!
Invoco essa Princeza que meu peito
Abrazou de paixão, e aquele dia
Em que eu saí, alegre e satisfeito,
A correr Aventuras pelo mundo!...
Vejo meu sonho antigo de Beleza!
A noite em que velei as minhas armas
Ao Amôr consagradas e á defesa
Da Mulher, da Creança e dos Humildes!


«Ó poder de invocar! Suprema Força
Que ergue os mortos das campas, mal lhes toca!
E o proprio mar, em altas nuvens, corre
Para a sêde da terra que o invoca...
Ó poder de invocar! Suprema Força!
Humana divindade!...»


 E o Cavaleiro,
Mais triste emudecêra, como um vulto
Que se vae afundando em nevoeiro...


E Marános então: «Eu sou aquele
Que abre os olhos, orando, á luz dos céus...
Creatura das árvores, eu vivo
Creando o Sêr espiritual de Deus!
Tenho no coração toda a Paisagem
Que d'estes altos montes se descobre...
Reára em mim: Não vês a minha imagem
Moldada em terra e névoa e sombras de árvores?...
Já vivi na cidade em outros tempos.
E se fugi dos homens para a Serra,
É porque eles (ai d'eles!) se afastáram
Da vida natural da sua terra!
Nem podia entendê-los, tão distante
Da alma imortal, da essencia original
Da sua Raça vivem! ... E esta Virgem,
Graça de Deus, encanto espiritual,
É a minha doce amiga e companheira.
Anda atraz dos meus passos e acompanha
Meu coração em todo o seu trabalho...
Ela é a Virgem do Vale e da Montanha.


«Ó grande Cavaleiro que partiste
A lança contra Sombras batalhando!
E fugitivo e pobre, rôto e triste,
Entre chufas, escarneos e sarcasmos,
Fôste a pé pelo mundo que não soube
Consagrar teu Valor e Lealdade!
O sonho que sonhaste, eu vejo-o agora,
Qual phantasma de morta claridade,
Por estranha vingança, a perseguir-te!
Pois sem a luz divina da Loucura,
Que vês de ti? Apenas o esqueleto!
E na terra que vês? Só pedra dura!
Tu és um pobre Deus arrependido,
Amaldiçoando a propria Creação,
N'um hirto e frio gesto resequido
Que chama pelas aguas do Diluvio...
E eu não sou como tu, porque descendo
Do ventre da Mulher e da Paisagem.
Sou creatura humana, mas entendo
O desespero tragico d'um Deus!...»


Fez-se um curto silencio ... E então Marános,
Extatico e saudoso, continua:
(A sua voz tornára-se mais baixa,
Como quem fala só, á luz da Lua)


«O meu fim é velar por esta Virgem,
Santificado Corpo, onde germina
A gloria do meu Povo e o seu Futuro;
Vida nova mais alta e mais divina,
Até que chegue o instante prometido
Do Novo Nascimento...»


 Mas em breve,
O triste Cavaleiro, por encanto,
Tornou-se mais remoto ... e sombra leve,
Distante é já seu vulto que, nas trevas,
Dificilmente apenas se adivinha...
Passára o vento; mas, lá fóra, a chuva
Ainda cae, n'um sussurro, meudinha...
E no grande Silencio que se fez,
Perdeu-se o heroico e triste Cavaleiro...
Na solidão da Noite se perdeu,
Nos braços o levára o Nevoeiro...