Mistério do Natal/V

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo V: A Nuvem


Sob a irradiação do sol a terra seca abrasava, exalando um bafio de rescaldo.

Triste, flagelada Samária pagã!

Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a temperar a fé, de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre rochas úmidas.

Ermo o sagrado monte, esquecido o santuário antigo, as lavouras mirravam e um sol mais árdego crestou as ervas, sorveu as águas outrora copiosas.

Nem as torrentes ligeiras, conseguiram, fugindo, escapar à inclemência e os leitos dos córregos, em lodo seco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas.

Um fio d’água rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.

Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias tórridas onde víboras esfuziavam, entaliscando-se.

De ponto em ponto uma cisterna funda oferecia ao caminhante a sua água salobra.

Às vezes o terebinto forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno.

Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia cantar um pássaro – só o gipaeto atravessava o espaço fulgurante ou grandes águias hostis, pousadas nos cabeços das penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.

Maria ofegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o sol abrasava-lhe a cabeça.

Caminhavam como através de chamas, sem que os olhos avistassem um colmado, a grata ramagem duma árvore.

Ó terras férteis da Galiléias! Vales alfombrados e frescos de tanta beleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiéia.



Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivais.

Seria melhor esperarem a tarde, prosseguirem com a brandura do crepúsculo, mas a pressa que levavam não lhes permitia demora.

José mais robusto e afeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava a sentir-se atordoava: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.

- Chega-te à sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarca. Ela obedeceu. Mas o sol zombava da misericórdia do amor e Maria continha as lágrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o esposo sofresse com o seu sofrimento.

O sol subia, aumentava o calor e o ânimo da Virgem desfalecia quando uma nuvem cresceu acima do monte Ebal.

Era escura como os nimbos e apressava-se como impelida por um grande vento.

arulho surdo anunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de verão.

A terra entenebrecia à passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal.

O ruído aumentava tornando-se como o escachôo das catadupas.

Detiveram-se de dois pálidos, tolhidos de espanto.

Súbito Maria sorriu:

- São pombas, disse. Eram, efetivamente, milhares de pombas azuis que, muito juntas, formavam as nuvem escura. Pairavam, ficavam adejando sobre eles, com rumoroso arrulho e o sol quebrava-se-lhes nas asas estendidas.

José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que ele, em êxtase, adorava-a.

Então prosseguiram à sombra do imenso pálio azul e fora da nuvem viva a terra, quente e rútila, ardia e faiscava ao sol.