Mistério do Natal/XXVI

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo XXVI: Epifania


Pastores, que faziam a vigília no campo, contemplavam embevecidamente a estrela maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.

Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, à luz de archotes, cujo clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.

Os animais pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho era o fulgor que irradiavam nos cabelos árdegos em que vinham.

Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e três dromedários enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas por cavaleiros robustos.



Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o ritmo da marcha. Vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que tresmalhavam metendo-se pelos matos.

Os cães de guarda, atentos, d’orelhas fitas, conservavam-se silenciosas como se reconhecessem os chegadiços.

Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos archotes, a caravana aproximava-se.

Na planície, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.

Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos, fincaram cepos e, em pouco, tendas retesaram-se.

Os animais, aliviados da carga, deixaram-se na erva fresca, espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavaleiros cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrelas.

Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para ver de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.

Um deles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia às costas, suspenso duma corrente, um dardo de ferro.

Sem tempo de fugir caiu em poder do vigia que logo o conduziu à tenda mais suntuosa, toda alfaiada de seda e púrpura e nublada de aromatas .

Lampadários de ouro iluminavam-na. A erva desaparecia sob tapetes altos, escudos lampejavam e, como o, negro o impelisse, viu-se o pastor na presença de três homens, ricamente paramentados com fotas na cabeça rutilantes de gemas.

Eram magos das terras remotas.

Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito cintilante de pedrarias; outro da cor amarelada dos filhos das extremas da Ásia; o terceiro, negro, com imensas camândulas de ouro em volta do pescoço, braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por um mastro, um diamante que coruscava.

O pastor ajoelhou-se e, medroso, espera ouvir palavras severas, quando um dos homens tranqüilizadoramente perguntou:

- Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O rústico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, imaginando-se vítima de uma zombaria. Lembrou-se, porém, dos anjos e de todos os prodígios da noite messiânica, respondeu vagamente:

- Perto daqui nasceu – e os céus festejaram o seu natal – um menino, filho de pobres, vindos de terras longínquas. Ainda lá está no mesmo tugúrio, ao colo da mãe, que é uma linda moça, sob a guarda de um ancião venerável. É bem perto daqui, na caverna do outeiro sobre a qual paira e brilha a estrela alada que apareceu no céu.

Levantaram-se os três homens – o pastor saiu da tenda e, estendendo o braço na direção do outeiro, disse:

- É ali, sob a estrela.

- Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silêncio, contemplando adorativamente a estrela que resplandecia.