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O Momento Literário por João do Rio
XXXII: Sousa Bandeira


O ilustre Dr. Sousa Bandeira escreve-nos esta carta longa e brilhante:

É muito difícil, seja qual for o gênero literário, indicar com exatidão os autores que mais concorreram para a formação de alguém, e ainda mais difícil é a própria pessoa responder isso de si mesma. Há sempre a equação individual, com que se deve contar, perturbando qualquer dosagem proveniente de leituras, e que impede o próprio indivíduo de ser a um tempo sujeito e objeto de observação. Esta resposta para ser sincera (o que me parece a condição essencial do inquérito) não pode deixar de ser vagamente aproximada.

Para responder, pois, com a possível segurança, julgo necessário remontar à época que mediou entre 1880 e 1884, onde se formou a geração a que Sílvio Romero chamou a "Escola do Recife" e de onde saíram Clóvis Beviláqua, Martins Júnior, Graça Aranha, Artur Orlando, Virgílio Brígido, Anísio de Abreu e tantos outros.

Com a bagagem fartamente literária e tenuemente científica que tínhamos os que então procurávamos o estudo do Direito, trazíamos da adolescência o espírito cheio do romantismo puro de Hugo, Musset e Byron, canalizado para o Brasil por Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Castro Alves. Como base à retórica rançosa do tempo, algum conhecimento dos clássicos latinos, desconhecimento completo dos clássicos portugueses, que as seletas de então nos faziam odiar, e um estudo um tanto superficial de história, à moda do tempo. Como síntese, o deísmo vago que se deduzia do ecletismo de Cousin, o qual então constituía a filosofia oficial. Como aspiração, uma indômita curiosidade de saber e um anelo quase angustioso pela liberdade de pensamento e pela emancipação do espírito no terreno social, literário e filosófico. Acrescente-se a isto um republicanismo sentimental e palavroso, aprendido em Castellar e Esquiros, e eis descrito o mais fielmente possível o estado de alma da maior parte dos rapazes do meu tempo na época a que me refiro.

Nesta ocasião, porém, começava no Brasil, especialmente em Pernambuco, a propaganda da filosofia experimental e da arte naturalista. Ávidos de novidade, recebemos as doutrinas revolucionárias como a sonhada Boa-Nova, e cada um tornou a orientação mais quadrante às suas aptidões pessoais. Grande parte apaixonou-se pelo positivismo, vulgarizado por Littré de um modo tão sedutor.

Quanto a mim, apesar de toda a admiração que ainda tenho por Augusto Comte, nunca fui positivista. Desde o início me entusiasmei pelo evolucionismo conciliador e progressista de Spencer, para depois adotar a concepção monástica do mundo explicada por Haeckel e Hartmann e completada mais tarde pela síntese criticista de Kant e Schopenhauer.

Nesta época, Tobias Barreto, o grande mestre, eletrizava a mocidade com os estos de sua palavra fulgurante e imprimia nos que tivemos a fortuna de ouvi-lo o profundo sulco que se faz sentir em todos nós, muito depois de desaparecido o prestígio da sua empolgante personalidade.

Taine e Renan coroaram esta intuição, — o primeiro com a aplicação dos processos experimentais à crítica histórica, filosófica e artística, o segundo com o sorriso confortante do seu sadio cepticismo e da sua fina ironia. E foram estas as leituras básicas da intuição filosófica a que venho obedecendo há uns vinte anos.

Literalmente, como todos do meu tempo, devorei a série Rougon-Macquart, tomando ao pé da letra o romance experimental e estudando as árvores genealógicas organizadas por Zola com o confronto dos livros de psicologia de Ribot. Daudet, os Goncourt, Maupassant e sobre todos o imortal Flaubert foram com Zola os autores que mais fundamente me calaram no espírito e me fizeram considerar o naturalismo como a aplicação à literatura do espírito novo que então havia invadido a filosofia.

Posteriormente, as idéias, e principalmente os sentimentos sugeridos pela capitosa literatura do norte, me fizeram ler Ibsen e Tolstoi, Turgueniev e Dostoiévski, considerando assim alargado para a grande obra da regeneração social o plano relativamente estreito do romance experimental, como a princípio entendia Zola, o qual, aliás, nos seus últimos livros (Fécondité, Verité, Travail) seguiu esta orientação.

Como cultura geral, além de Dante e Shakespeare, sempre tive por escritores favoritos, entre os alemães, Goethe, Schiller, Heine; entre os franceses, Montaigne, Rabelais e Molière. Dos contemporâneos só Anatole France me desperta as impressões que ainda guardo das leituras de Renan.

Ultimamente volto as minhas vistas para os antigos, o que afinal é hoje o meio de saber alguma cousa de novo. Leio dos latinos Horácio, Virgílio, Juvenal, Plauto, e Lucrécio, e dos gregos (infelizmente através de traduções) Homero, Aristófanes, Sófocles e Ésquilo.

Finalmente, para recuperar o tempo em que desdenhava os clássicos e achava elegante escrever em português afrancesado, dedico algum tempo por dia em ler: dos antigos Camões, Vieira, Bernardes e frei Luís de Sousa; dos modernos Herculano, Garrett, Camilo e Eça de Queirós, este último, já se vê, não como clássico mas como a organização artística mais completa de todos os que modernamente escreveram em português. São estes os autores que mais tenho lido. Terão eles concorrido para a formação do meu espírito? Não sei...

Os meus trabalhos? Pobre de mim! Andam esparsos por quanto jornal tem sido vítima da minha mania de escrever. De muitos já me esquece, de outros hoje me envergonho e dos que poderiam ter mais interesse formei um volume que a casa Garnier (sem reclamo) teve a bondade de editar.

Como tantos outros no meu caso, tenho na cabeça um ou dois romances, outros tantos livros de crítica, talvez um livro de história. Terei algum dia tempo e lazer para escrevê-los?

Considerando o momento atual, ninguém pode dizer que atravessamos um período estacionário. A freqüente produção de livros, embora em sua maioria pertencentes ao que José Veríssimo chama literatura apressada, o aparecimento de jovens e ardentes aptidões literárias, a publicação de novas revistas (nada menos de três que prometem não ser efêmeras, só no Rio de Janeiro), tudo demonstra haver um certo renascimento na nossa vida intelectual. Se tal movimento será durável e prolífico, se a nossa geração não desmentirá para o futuro as atuais promessas, é o que por ora não se pode saber.

Quanto às escolas a que se refere o questionário, é difícil acentuá-las.

Há tendências de espírito correspondentes às correntes que hoje dominam o mundo intelectual, há as diferenças provenientes da idiossincrasia de cada escritor.

Aliás, no estado presente da evolução intelectual, é isso o que se dá por toda a parte. Cedendo ao irresistível espírito da época, que se faz sentir em todos os aspectos da vida humana, desde a religião até a política, a literatura e a arte têm hoje um cunho acentuadamente social. Os puros estetas, insulados na torre ebúrnea de uma arte impessoal e impassível, não correspondem ao momento atual, e seja qual for a pompa de que revistam o seu estilo, ficarão, como D'Annunzio, fora do seu tempo.

Se esta é a tendência geral, bem acentuada nos demais países cultos, ela também é verdadeira para o nosso meio cultural. Os nossos escritores, dos que hoje estão nos casos de imprimir um movimento literário, todos mais ou menos se ressentem desta influência. Vindos do romantismo ideologista que lhes animou a adolescência, influenciados pelo advento da filosofia moderna (positivismo francês, agnosticismo inglês, monismo alemão ou mesmo cepticismo renaniano) e arrastados pela irreprimível tendência de regeneração social, eles trazem para os seus livros os resultados desta tríplice influência, a que o cunho individual, a forma especial do talento, a diversidade de estilo, a variedade de leituras, dão como resultante a maneira especial de cada um.

Na poesia cabe falar, em primeiro lugar, de Machado de Assis, o mestre superior e impecável. Saindo do puro romantismo na época em que este florescia tiranicamente, nunca se deixou escravizar por ele; passou pelo indianismo sem os exageros a que não resistiram espíritos cultos como Gonçalves Dias e José de Alencar; pagou o seu tributo ao simbolismo sem a forma enigmática dos epígonos, atravessou enfim todas as escolas e todas as épocas sem perder a originalidade, por assim dizer casta, do seu espírito e chegou até nós com toda a força de um pujante individualidade, servido por uma linguagem simples sem trivialidade, lídima sem gramatiquices, a qual faz dele um verdadeiro escritor clássico.

Depois, os três grandes poetas da nossa geração: Raimundo Correia, Bilac e Alberto de Oliveira. Todos três saídos do romantismo, todos três penetrados do espírito moderno, todos três angustiados pelos problemas que perturbam a sociedade atual. As diferenças que neles se notam não fazem mais que acentuar a individualidade literária de cada um, mas não fornecem base para separá-los em escolas.

Em Alberto de Oliveira, o culto extremado da forma, a pureza do ritmo, "os versos marmóreos e espaçosos" como os desejava Sully Prudhomme. Em Bilac, o lirismo sensual, o deslumbramento pela plástica, o apaixonado anelo da beleza imortal. Em Raimundo Correia, o pessimismo delicado e doentio, a preocupação moral, a piedade sistemática pelo sofrimento. Em todos três, o verdadeiro espírito poético independente das efêmeras escolas, superior às ridículas subdivisões dos pretensos departamentos literários, que os fará sempre compreendidos e admirados seja qual for a época em que se os leia.

Ao lado deles temos uma boa porção de estimáveis poetas e um número infinito de fazedores de versos. Em todos domina o lirismo, essencial aos poetas brasileiros, oriundo da raça, bebido com o leite, difundido pelo quente sangue ibérico, no sensualismo ardente das duas raças inferiores com que ele se caldeou e enervado pela constante sugestão do nosso meio tropical.

Eis porque a poesia brasileira foi sempre lírica nos mais salientes representantes passados. Eis porque ainda hoje tem uma forte base de lirismo que se trai através de todas as várias maneiras dos poetas contemporâneos, no idealismo sugestionante de Luís Delfino, nas metáforas de Luís Murat, no equilibrado entusiasmo pela natureza em Augusto de Lima, na desenvolta sensualidade de Guimarães Passos, na malograda poesia científica do malogrado Martins Júnior, até nas duquesas de B. Lopes.

Formando um tipo à parte, pela apurada procura do elemento clássico, pela distinção elegante no escrever, pelo conhecimento da técnica do verso, pelas felizes tentativas de modificação na metrificação corrente, não se pode deixar de notar Magalhães de Azeredo.

Quanto ao romance, é mais fácil acentuar as diferenças, se não de escolas, ao menos de tendências literárias e de aptidões individuais.

Machado de Assis em primeiro lugar. Como romancista ainda mais do que como poeta lhe cabem as observações que fiz acima. A maliciosa ironia do seu humorismo sob a forma aparente de uma plácida vulgaridade, o apuro da sua prosa fluente e castigada, os finos conceitos de que estão recheados os seus livros, a firmeza com que em quatro traços desenha o lado moral dos seus personagens, suprem generosamente a despreocupação do meio físico, em que se desenvolve a ação dos romances, e a falta do que se chama enredo. A leitura dos seus livros deixa uma impressão parecida com a que desperta o enigmático sorriso da Gioconda de Leonardo da Vinci. Um escritor como Machado de Assis é forçosamente um escritor individual. Nem pertence à escola alguma, nem pode formar escola sua.

Outro prosador individual é Coelho Neto, cujo estilo rebuscado até o ponto de se tornar às vezes arestoso, ao serviço de uma imaginação tropical, abrange várias formas, desde o simbolismo literário adaptado das lendas estrangeiras até o estudo da vida rude dos nossos sertões. A sua preocupação essencial é o lado trágico da natureza e da sociedade, preocupação que influi poderosamente na sua maneira impressionista de escrever. A escola de Coelho Neto não sei qual seja.

Aluísio Azevedo apresentou-se em campo como o porta-bandeira do naturalismo e os seus primeiros romances justificaram brilhantemente o seu intento. Posteriormente, nO Livro de uma sogra, parece inclinar para o psicologismo, sem perder todavia a maneira antiga. É muito de desejar que este romancista interrompa finalmente o longo silêncio a que se tem obrigado. Não lhe falta nem observação nem colorido, e basta comparar o seu último livro com os do início para ver como melhorou a sua linguagem.

O romance de costumes é representado, e brilhantemente, por Júlia Lopes de Almeida, escritora fina e conscienciosa; por Domingos Olímpio, admirável na cor local e no desenho dos caracteres, e Emanuel Guimarães, cujos romances bem observados, bem pensados, bem delineados, só têm o defeito (facilmente corrigível, dado o talento do autor) de uma linguagem como que propositalmente incorreta.

A preocupação social tem dois representantes: Curvelo de Mendonça com Regeneração, verdadeiro tipo do romance de tese, e Graça Aranha no seu formoso Canaã, cheio de admiração panteísta pela nossa natureza, magnífico de observação da vida do interior, repassado de um alto e filosófico simbolismo e prenhe dos mais momentosos problemas sobre a luta das raças no continente americano.

Esta feição de concorrer para os problemas que torturam a humanidade, de discutir (com ou sem forma de tese) as questões de que depende o bem-estar da sociedade, me parece a que tende a predominar no nosso meio literário, como aliás em todos os outros aos quais nós imitamos.

No conto, gênero que tem sido entre nós cultivado em demasia, além de Machado de Assis e Coelho Neto, ocupam lugar saliente Afonso Arinos, estudando com deliciosa exatidão a vida sertaneja; Domício da Gama, em quem predomina um psicologismo como que irônico; Lúcio de Mendonça, escritor de apurada linguagem; Medeiros e Albuquerque, Garcia Redondo, Afonso Celso e Artur Azevedo. J'en passe...

O gênero é por demais efêmero para que se lhe possam descobrir tendências.

Não creio que o desenvolvimento dos centros literários dos Estados tenda a formar literaturas à parte.

É verdade que atualmente se nota nos centros cultos dos Estados um movimento que já começa a ser pronunciado e que em muitos deles se prende a longínquos antecedentes. No Pará, no Ceará, em Pernambuco, no Rio Grande do Sul, até em Goiás fundam-se Academias, havendo mesmo no último destes Estados senhoras imortais. Isto, porém, constituirá uma tendência para formar literaturas exclusivistas, ou pelo contrario será uma manifestação do mimetismo literário?

No Brasil, o número dos que lêem é insignificante e, apesar de tudo, ainda é o Rio de Janeiro onde mais se lê. Os pequenos, corajosos e simpáticos grupos que nos Estados trabalham pelas letras lutam com dificuldades de todo o tamanho, desde a falta de editores até a escassez dos leitores. O Rio de Janeiro é sempre o grande centro para onde converge a vida social, política e cultural do país. Sem a sua consagração, dificilmente se podem formar reputações literárias. Sem a sua animação, dificilmente estas reputações podem produzir os resultados que procura todo homem de letras.

Não justifico nem exagero o fato. Verifico-o apenas, tanto mais quanto ele não é novo. Já nos tempos que mediavam entre a Regência e o Segundo Reinado, os poetas provincianos glosavam este mote:


Sem grande corte na Corte

Não se pode melhorar.

O corte é que nos faz bem

A corte é quem nos faz mal.

E agora, sob o regime da federação, as cousas não mudaram. Eis por que todos procuram viver no Rio, visitá-lo com freqüência ou estar em comunicação com os centros cariocas para conseguirem as mesquinhas vantagens que no Brasil se oferecem aos que exercem a pouco invejável profissão de homem de letras.

Nestas condições, como supor que nos Estados se formem literaturas à parte?

Além disso, na essência das cousas, não existe fundamento para estabelecer diferenças radicais entre as literaturas regionais do Brasil. Salvo insignificantes particularidades, os costumes, o folclore, as crenças, as aspirações, os desânimos, até a preguiça, são os mesmos em todo o Brasil, e, servidos pela mesma língua, impressionam da mesma forma os cérebros conformados segundo as leis de evolução da mesma raça.

Finalmente, a maioria dos escritores que florescem na Capital Federal são filhos das províncias, que, depois de haverem passado nelas a adolescência ou a mocidade (precisamente as épocas em que as impressões estéticas calam mais fundo), vêm para aqui despender o capital intelectual que lá entesouraram. O substrato da cultura é o que veio do torrão natal. A vida do Rio de Janeiro nada mais fez que limar as arestas e encher os claros. As produções de todos os poetas e romancistas dos Estados, aqui aclimados (e estes se chamam legião), comprovam inteiramente o meu asserto.

E pelos Estados existem atualmente numerosas aptidões literárias que aspiram pelo momento em que a seu turno possam se exercer no Rio de Janeiro com os materiais que hoje estão acumulando.

A pergunta relativa ao jornalismo exige um distinguo e um sub-distinguo.

Se se trata do jornalismo puramente industrial, destinado a servir ao público um determinado gênero de consumo sem outra preocupação além de obter maior lucro com menor despesa ou vender muito para vender barato, acho que ele é um fato tão importante para a literatura como o comércio de roupas feitas ou o negócio de carnes verdes.

Se porém se trata de fazer um jornalismo literário ou ao menos de introduzir nele uma pequena dose de literatura, é bem de ver que com ser efêmero ele constitui um gênero apreciável. Ao lado dos telegramas, do noticiário, das taxas de câmbio, das publicações a pedido, os jornais costumam permitir que assuntos literários ocupem algumas colunas, sobre as quais os burgueses não desdenham passar um olhar distraído, quando a viagem do bonde lhes dá tempo. É-me grato lembrar que esta salutar inovação é devida à Gazeta de Noticias, graças àquele completo jornalista, forrado de um finíssimo homem de letras, que se chamou Ferreira de Araújo.

Assim considerado, o jornalismo não pode deixar de ser um bom fator para a arte literária, pois que lhe serve de veículo, sem falar nas preciosas vantagens do reclamo indispensável para tudo, até para as letras.