Os Retirantes/III/XV

Os Retirantes por José do Patrocínio
Terceira parte: a capital, Capítulo XV


De volta da excursão precipitada, Eulália trazia, de mistura com o desespero, a recaída da moléstia de que, havia alguns dias, fora atacada.

O sol influía-lhe no organismo com a energia de um veneno. Batiam-lhe as têmporas violenta e dolorosamente como o latejar de um tumor; tinha os lábios empergaminhados, ressaibando travor bilioso. Um relaxamento geral dos músculos dificultava-lhe os movimentos.

Quando a jangada varou na praia cuspindo-a de espumarada alvadia, o patrão, indo tomar Eulália nos braços para desembarcá-la, viu-lhe os pés completamente molhados, e, como a fitasse para pedir-lhe desculpa, exclamou assustado:

— Vossa Mercê está muito desfigurada; o mar fez-lhe mal.

Eulália não respondeu; levou silenciosamente a mão ao bolso para tirar o dinheiro e pagar. O patrão fitou de novo o seu semblante, em que as pálpebras entrecerradas punham um tom de tristeza indefinível.

— Vá com Deus, moça - disse o velho homem do mar -, guarde o seu dinheiro; mais perdeu Vossa Mercê. Não paga nada.

Eulália olhou admirada para o velho patrão, significou-lhe o seu agradecimento por um estreito aperto de mão e pôs-se a caminho pelo areal a fora, sob o ardor inclemente do sol.

Chegando à casa, pensou que ia morrer. As conversas, o arrastar dos chinelos das suas companheiras, o menor ruído, enfim, tomava nos seus ouvidos um volume descomunal, que a alucinava. Tinha desejos brutais de se atirar de encontro às paredes, de rolar pelo chão, gritar e dilacerar as roupas. Sentia sob as pálpebras arder-lhe uma forja inextinguível, que irradiava uma temperatura incômoda. Pôs-se a beber água com a demasia de um dromedário, e depois, desvairada, deitou-se numa rede a cantar.

— Foi forte o mar de ontem, Eulália; - exclamaram as companheiras; - a ressaca de hoje é forte.

E ela ria, sem ouvir, automaticamente, por uma ação reflexa, acompanhando a gargalhada alvar das outras.

Mas, em breve, a moléstia avassalou-a; tomou-a nas garras e imobilizou-a. Vieram-lhe bruscos calafrios, que a faziam tiritar, e a sua garrulice de doida extinguiu-se, dando lugar a um silêncio profundo, só perturbado pelo resfolegar arquejado.

Passou assim horas. As companheiras de casa, sentadas à janela, tirando de cigarros e cachimbos longas e fartas baforadas, não se impressionaram; esqueceram-na para ali com um frase vil:

— Está cozinhando.

À noite, porém, ela continuou no mesmo resfolegar de enferma, no mesmo bruto letargo; e uma das mulheres, aproximando-se da rede, teve um sobressalto.

— Credo! Parece que a Eulália aprontou-se de mais; venham vê-la.

A desgraçada ardia numa febre violenta, que a escaldava e tolhia-lhe os movimentos do corpo e da razão. Ao chamarem por ela, respondeu inconscientemente:

— Vim pedir minhas irmãs, não quero que elas partam para morrer; o navio vai ao fundo.

As outras olharam-se perplexas. A salda do navio carregado de retirantes e as palavras de Eulália explicavam a causa da moléstia. Aquelas palavras denunciavam também sentimentos que eram uma justificação do procedimento de Eulália. Embora se entregasse, como as outras, e emparceirasse com elas na prática das mais aviltantes baixezas, Eulália, durante certas horas, ficava intratável, fechava-se no seu cubículo e daí apenas saía nas horas do ganho, e então um círculo roxo marcava-lhe nas pálpebras o vestígio das lágrimas.

— Isto vai ser um inferno - disse uma das perdidas; - ela não se levanta daí tão cedo.

— É botica e dieta - ponderou outra.

— E o trato, e tudo de que um doente precisa - acrescentou a terceira; - nós não podemos com eles.

Houve um largo silêncio, durante o qual as três mulheres se olhavam como se cada uma tentasse ver na fisionomia da outra a resolução que todos hesitavam em manifestar:

— Acho melhor esperarmos até amanhã, talvez ela espaireça.

— Talvez.

— Mas pode piorar.

De novo a dificuldade de resolver surgiu diante das três mulheres, cada uma das quais como que temia revelar à outra a perversidade de que todas eram capazes.

— Eu por mim deixava-a ficar aqui; sempre é nossa companheira e nenhuma de nós está livre de uma igual.

— Este é que é o bom caminho; mas você bem sabe que há morrer e viver.

— Mas não se morre assim como um cão, sem mais nem menos.

Faltava decididamente coragem a todas para dizer qual a medida que deviam tomar, medida que logo apareceu ao juízo comum. As pausas explicavam-no suficientemente; é que nenhuma queria parecer aos olhos da outra a mais desnaturada, para que, em caso semelhante, não fosse o seu conselho de agora um argumento imperioso.

— A morte não marca tempo - disse uma delas; - vem e leva aquele cuja hora é chegada.

— E se ela morrer aqui...

— Sem médico...

— É um incômodo para a gente; fala-se tanto.

— Mas por isso não havemos de pôr na rua uma companheira que arde em febre.

Esta última reflexão fez com que as outras duas perdidas abaixassem os olhos, como se lhe tivessem surpreendido para refutar de chofre uma resolução prestes a ser emitida.

— Se ela morrer aqui - disse uma delas -, nós temos de mudar-nos; ninguém mais entrará em nossa casa; é como se fosse amaldiçoada.

— E para fazer a mudança é preciso achar quem nos queira alugar casa - disse a outra.

— Se ela morrer aqui, por causa de uma, podemos contar que vamos as três para a rua. Não havendo dinheiro, não há casa.

Este último argumento decidiu a sorte de Eulália. Ficou vencido que a infeliz enferma não podia continuar na casa. Somente faltava a cada uma das companheiras a coragem de ser a primeira em segurar em Eulália para deitá-la à rua.

Um incidente demorou por mais algum tempo o alvitre. Um grupo de homens havia parado à porta e dirigia daí frases obscenas às perdidas, e estas, correspondendo ao apelo, distraíram-se algum tempo.

Quando, porém, ficaram de novo sós, voltaram ao projeto. Eulália estava cada vez mais grave; tinha no semblante a máscara da morte e a febre parecia ter-lhe estagnado o sangue numa pasta incandescente que lhe avermelhava extraordinariamente o rosto.

— É preciso decidir - disse uma das mulheres - este despotismo de febre mata-a por força.

Olharam-se as três hesitantes, mas de repente, como se temessem arrepender-se da ação que iam praticar, exclamaram ao mesmo tempo:

— Vamos deixá-la à porta da Misericórdia.

As três mulheres começaram logo a pôr em prática a sua resolução. Duas delas, trançando os braços em cadeirinha, colocaram sobre eles a enferma, envolvida em um lençol enxovalhado e sustentada pela terceira, que a segurava pelas costas.

Puseram-se a caminho; deram um grande avanço, mas a distância a vencer era considerável e o peso que carregavam, enorme para aqueles organismos depauperados pela fome e pelas noitadas lascivas. Demais disso, o corpo de Eulália escaldava, e como o incômodo da posição e fizesse debater-se, era preciso grande esforço para contê-la.

Não obstante, as mulheres caminhavam sempre, e só paravam para revezar e descansar. Vindo de perto do largo dos Voluntários, haviam atravessado já metade da praça da Assembléia, e aí pararam um pouco, sob um lampião, a tomar fôlego.

— Tenho os braços mortos - disse uma delas.

— Eu tenho os meus que parecem uma sopa, de tão moles - disse outra.

— Mau, mau - exclamou a terceira; - se querem dar parte de fracas, não chegaremos lá.

— Não, havemos de chegar, nem que seja de madrugada.

— Descansemos bem.

Sentaram-se as três e puseram-se a fumar.

A praça rumorejava o farfalho das suas enormes árvores, lembrando um grande ajuntamento a cochichar. Era o único ruído que quebrava o silêncio profundo da cidade, mergulhada em sono. A luz dos lampiões projetava uma claridade mortiça na extensão do largo, onde aqui e ali, junto dos velhos troncos, viam-se grandes manchas negras ou amareladas. Eram retirantes que dormiam ou que, paralisados pela fome, esperavam ali a hora do perpétuo descanso.

As três mulheres continuavam a fumar indiferentes ao quadro que tinham diante dos olhos. Estavam acostumadas a ele como figuras que dele se haviam destacado e que mais tarde deviam volver a ele, como que buscavam evitá-lo.

Uma delas, porém, dirigiu o olhar para o centro do largo, fitou-o por largo tempo e depois de levar a mão aos supercílios e dobrar de atenção no observar, disse para as companheiras:

— Vamos talvez ter alhada, olhem para acolá.

As duas mulheres, depois de repararem atentamente, murmuraram com uma expressão de assombro indefinível:

— É a patrulha, não?

— Parece-me - respondeu a primeira -, e não seria mau que nos fôssemos escapando.

As três levantaram-se, mas, antes que tivessem tempo para dar um passo, a patrulha saía do largo e caminhava sobre elas.

— Nem mais um passo - disse uma das mulheres -, sangue-frio.

Os três rondantes pararam junto delas e o comandante informou-se miudamente do que faziam. Depois verificou se era exata a causa dada e, pondo a mão sobre a testa de Eulália, disse para os companheiros:

— Esta lá está arranjada, é uma brasa. Enquanto falava, o chefe trocava com os dois companheiros de patrulha olhares significativos e cada um deles fazia minucioso exame da fisionomia das perdidas.

Afastando-se delas, perguntou o chefe:

— Que me dizem das três? Bonitinhas, não acham?

— Uma delas é quera.

— Mas nós estamos em serviço, ponderou o chefe hesitando...

— Maldito serviço.

Deram mais alguns passos e as mulheres começaram a aprontar-se para seguir.

Um ruído de saias veio desafiar o respeito à disciplina manifestado pela patrulha, que sem querer estacou.

O chefe tirou a barretina e coçou a cabeça brutalmente; depois levou as mãos às ilhargas e, olhando para os outros, que sorriam, resmungou:

— Vocês vêm o que é um precipício? E assim que se perde a divisa de anspeçada.

— Quando se é visto - ponderou um dos camaradas.

— E a esta hora.

— Sim, a esta hora não é costume passar ninguém por aqui, mas por infelicidade...

— Eu não tinha medo, aqui é impossível darem por isto.

— Deveras?

— O meio do largo é escuro e, se formos para lá, veremos um gato que passe por aqui e daqui ninguém nos distinguirá lá. Vêem vocês quem está deitado sob aquela árvore? Descobre-se um vulto e nada mais.

— Coração à larga e marchar - sorriu o chefe. Voltaram a ter com as três mulheres, que já havendo endireitado Eulália sobre os braços, principiavam a caminhar. O quadro infundiu respeito à patrulha, que acompanhou-as por algum tempo silenciosa, mas afinal a animalidade dos três instrumentos do arbítrio venceu a momentânea piedade.

— Oh! lá, vocês erraram de caminho, toca para a outra banda.

— Nós vamos para a Misericórdia...

— Qual Misericórdia, nem o diabo! vocês vão é deixar essa mulher ali sob uma árvore e provar que nada fizeram.

As três a um tempo começaram a defender-se submissamente, apelando para o exame que o chefe tinha acabado de fazer. Havia nas suas vozes o eco do temor que lhes causava a prisão e do respeito de toda a província à autoridade.

O chefe lançou uma olhadela de inteligência aos camaradas, para assegurar-lhes a vitória.

— Não sei lá dessas coisas; os doutores é que, à vista da doente, poderão dizer se vocês fizeram-lhe ou não alguma coisa.

— Mas o que é que nós havíamos de fazer-lhe?

— Diante do delegado vocês provarão que nada lhe fizeram, ou se verá o que vocês fizeram. Eu o que não quero é réplicas; caminhem para acolá! - exclamou, apontando o largo.

As perdidas não ousaram arriscar a mais leve desculpa e, dando vaivéns no corpo dormente de Eulália, atravessaram a rua e penetraram na parte ensombrada da praça.

— Bem - disse o chefe -, depois que elas se desembaraçaram da carga, acompanhem-nos.

Penetraram mais no escuro do largo e aí o chefe renovou as suas perguntas, porém, com uma acentuação tão diferente, que não passou desapercebida nem ao temor das perdidas.

A ameaça tremenda para as mulheres mudou-se em uma cordialidade extrema e daí a pouco, em vez da autoridade que julgava necessário o inquérito e as suspeitas das que lhe deviam responder, no meio do crepúsculo da praça conversavam vozes amigas e condescendentes.

— E nós que não tínhamos dado pela astúcia.

— Caluda, que pode vir alguém.

Correu assim mais de uma hora; afinal as mulheres quiseram retirar-se para seguir.

— Ora, adeus - observou o chefe da patrulha; - tanto faz que ela passe a noite aqui como na porta da Santa Casa. Amanhã hão de dar-lhe alguma volta.

— É verdade - disseram os camaradas; - deixem-na estar Se ela não tiver de morrer, levanta-se fina amanhã; o ar é bom remédio.

As perdidas concordaram, e, acendendo os cigarros, despediram-se familiarmente dos soldados, dizendo-lhes a casa em que moravam.

Quanto a Eulália, ainda ao amanhecer, ardia com a febre intensa que a prostrava, no mesmo lugar em que as companheiras a haviam deixado. Estava de bruços e os vestidos, arregaçados em parte pelos movimentos bruscos, deixavam-lhe ver as meias enxovalhadas e as botinas já fortemente cambadas.

A praça, desde madrugada, enchendo-se de vozes de homens, começou a espalhar sobre a desventurada o sussurro de um mosqueiro esfaimado. Dezenas, centenas de homens passaram junto dela; alguns pararam, formaram roda e comentaram:

— Isto caiu de fome; é dessas que vivem ao deus dará - disse um.

Um mercador de café e bolachas, o qual trazia sobre a cabeça o tabuleiro e na mão direita uma lanterna apagada, parou, e, por temor de que lhe pedissem alguma coisa, contestou a causa.

— Qual fome! Gente desta tem sempre o que comer, nem que seja ração de soldado...

— Enquanto prestam.

— Mas quando já não prestam, não vestem assim; vendem os luxos às conhecidas da mesma roda. Cá para mim, isto é mona grossa.

— Também pode ser - concordou o interlocutor.

O grupo dissolveu-se, sem que ao menos um dos indivíduos se houvesse abaixado para observar as feições da infeliz.

Pelas oito horas da manhã apareceram no largo uma dezena de guardas dos abarracamentos, que, por entre baforadas de cigarro, perguntavam se não havia algum morto na praça.

A mó de retirantes indicava friamente de um e de outro lado, e os urubus como os chamavam, lá iam amarrar nos compridos paus os sórdidos cadáveres.

Dois dos urubus pararam junto a Eulália e desenlearam as cordas com que deviam amarrá-la, mas, ao tocarem-na, sentiram-na quente e repararam então que ela respirava.

— Esta ainda está aprontando o mocó; demos tempo.

Os circunstantes intervieram logo, pensando que os urubus queriam conduzir a desgraçada.

— Deixem-na, esta apenas apanhou um pifão.

— Cozinhe à vontade - disseram os urubus, que se afastaram.

Desde então Eulália ficou completamente abandonada; os transeuntes não se demoravam junto dela mais do que junto de um cão, que se debatesse envenenado.

Toda a gente que enchia o largo ficara convencida de que ali estava uma bêbada e riam do sono pesado e da imobilidade da mísera enferma.

Pelas nove horas da manhã, passando uma banda de música pela rua lateral, o povo que enchia o largo correu tumultuariamente para ver o que era. Diversas pessoas tropeçaram no corpo inerte e um retirante, dando-lhe um pontapé nas coxas, exclamou enraivecido:

— Leve-te o diabo, besta! cais aqui para atrapalhar a gente?

A banda de música passou tocando uma polca de compassos alegres. Após ela ia um pequeno caixão, dentro do qual estava um corpo de criança, um anjo, vestido de branco, com grandes laços azuis; a cabeça cingida por uma capela de flores artificiais. Acompanhando uma porção de homens e meninos de calças brancas, velas de cera acesas e os rostos dilatados de alegria.

O povo que havia corrido, embasbacado ainda diante do esplendor do saimento, comentava-o com frases piedosas:

— Vai em muito boa idade; não sofre mais.

— Não passará o que temos passado.

E outros acrescentavam ingenuamente:

— Morre tanta gente, só os comissários não.

— Estão embalsamados em carne velha e farinha podre.

A onda de povo separou-se em duas alas e todos começaram a descobrir-se respeitosamente. As mulheres e as crianças saindo das alas, vinham para a clareira sofregamente e beijavam a mão de dois sacerdotes que passavam conversando e que nem se demoravam em olhar para elas, enquanto desses lábios de fiéis partiam súplicas em coro:

— Peça a Deus por nós nas suas missas, santo padre; peça inverno nas suas orações.

Os homens, aplaudindo a prova de respeito, davam as razões.

Aqueles dois padres eram os que confessavam os moribundos; um deles, o mais moço, era mesmo um santo. Passava horas e horas na Sé e quando era preciso não se enfadava de ir até os abarracamentos, coisa que nenhum outro fazia.

— Santo homem - exclamavam em uníssono -, não há de durar muito.

Os padres caminhavam sempre, sem se deterem.

Ao dobrar a esquina, quando já o povo não os estreitava tanto, um deles perguntou ao outro:

— Então, Paula, tens-te dado mal com os meus conselhos?

— Você é mestre.

— Olha que nem o bispo é capaz de ter assim tão espontâneas saudações. Estás sendo tido por santo.

— E, nessa fama sem proveito, eu como o osso da caridade e vocês a carne da fé.

— Não sejas sôfrego; eu já te disse que te arranjava a vigararia para a cidade de... Espera mais alguns dias e continua na tua obra. Aquilo dá uns 300, livres de despesa.

— Mas a sua porcentagem?

— Afora esta, talvez; a coisa é saber levar os bichos; não olham depois a preço.

Sumiram-se, enquanto o povo, por sua vez, recolhia-se ao largo alvoroçadamente, fitando os tabuleiros gulosamente e regateavam com os mercadores as custosas migalhas.