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FANTINA

— E' muito ouro, Daniel ! — disse o Zé de Deus limpando a bocca na manga da camisa. O melhor era vossê deixar disso. A rapariga não tem nada ; a senhora nada lhe dará — vossê também não tem . . . . Agora si vossê gosta mesmo muito della, porque não arranja um meio de vê-la todas as noites ?

— Seu Zé de Deus, eu gosto muito della ; fomos creados junctos. Ella é bôa, muito bem procedida, e me estima de uma maneira, que só Deus sabe. E deixava ver duas grossas lagrimas apontando nos olhos.— E' uma perdição uma coisa assim. Ha quatro annos que ajunto dinheiro : vendo uma egoinha, uns carros de milho, e tudo ponho em suas mãos. O sr. bem sabe.

— Vossê tem feito muito sacrificio, Daniel ; mas ella nada tem, e o dinheiro.... e hoje o dinheiro.... Primeiro isto— e esfregando o polegar no indicador, concluía que depois Christo. E' com quem me arranjo ; todos vem aqui á porta do Zé de Deus . . . E dava uma risada feliz, onde o amor da avareza tinha um timbre argentino. Chamam-me miseravel, porco ; porque não encho a barriga delles, e ando com um paletot que veio de Portugal commigo, e no qual o Chico da Libania poz dez botões,o anno passado.Custou-me tres mil réis fortes, bem me lembro. Levantou-se, desceu