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de fria ternura de amigo, são meigos reconhecimentos da minha paternidade feliz.

Donde vem, pois, esta estranha coisa, esta incompreensível anomalia, de que eu ame cada vez mais minha mulher e menos a deseje amorosamente? Por quê?

Não sei, não atino com a verdadeira causa; e a convicção do fato, que no meu espírito de marido leal e virtuoso atinge as proporções de feia monstruosidade, começa a torturar-me seriamente.

Sim, sim, a certeza de que a felicidade moral de Olímpia subsiste em prejuízo da sua felicidade de mulher, atormenta-me de modo atroz. E percebo ainda, com o coração envergonhado e a consciência em revolta, que a grande dor saída dessa convicção não é determinada pelo mal que ela porventura cause à minha pobre esposa, mas pela ameaça do mesmo mal prometendo cair mais tarde sobre a cabeça de minha filha. Sim, porque minha filha há de também um dia ser esposa e ser mãe, e terá nesse caso de sofrer as mesmas injustiças que eu faço hoje à minha mulher, e que agora lhe entristecem a vida e lhe dão ao bondoso semblante aquele doloroso ar de resignação.