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toldo para fora de duas das sacadas, e umas toalhitas brancas, postas na outra a enxugar, tinha a impudência clássica do bordel tolerado e regulamentado na lei; o segundo andar, todo corrido de uma varanda, andava por conta do barão.

Tinha à frente dois aposentos. Uma saleta esguia, nua de mobília: e uma pequena sala, com duas portas sobre a sacada, de stores brancos descidos; esteira; um toucador-cómoda de espelho, com bacia e jarro, escovas, pentes, sabonetes; canapé e cadeiras italianas; divã de base de mogno e repes verde; uma mesinha de pé-de-galo; na escaiola cinzenta da parede duas «anatomias», a óleo, de adolescentes, colhidas em baixo no bric-à-brac, sobre uma mísula floreteada um frasco com água fénica; e — detalhe curioso —, a um canto, contra a luz, um estrado de pinho com um bastidor cinzento ao alto. Abria-se nesta sala um arremedo de alcova, que mais parecia um armário, escaiolada a cor-de-rosa e mal comportando uma cama larga de mogno, à francesa, irrepreensivelmente feita, convidativa, luzente. Um corredor conduzia à sala de jantar, do outro lado, sem um único móvel, toda alagartada em paisagens de um grotesco inverosímil, e com duas janelas dominando um trecho do Bairro de Jesus e apanhando ainda ao longe a curva elegante do zimbório da Estrela, sobre um anfiteatro loução de casaria. A par ficava a cozinha, com a chaminé virgem de fumo, e com porta para uma outra alcova, onde havia uma tina, um lavatório de ferro, um bidé e uma esponja num prego.

Um ar bafiento e frio ensopava todo este