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Ela não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de parati e um resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por’mor da pequena que estava dormindo.

Entraram em ponta de pés, a falar surdamente. Piedade deu mais luz ao candeeiro.

— Olha agora! Vamos ficar às escuras! Acabou-se o gás!

O Pataca saiu, para ir a casa buscar uma vela, e de volta trouxe também um pedaço de queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da lavadeira, sem dizer nada. Piedade, aos bordos, desocupou a mesa do engomado e serviu dois pratos. O outro reclamou vinagre e pimenta e perguntou se havia pão.

— Pão há. O vinho é que é pouco!

— Não faz mal! Vai mesmo com a caninha!

E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silêncio da noite, cães que ladravam lá fora na rua, tristemente. Piedade começou a queixar-se da vida; veio-lhe uma crise de lágrimas e soluços. Quando pôde falar contou o que lhe sucedera essa tarde, narrou os pormenores da sua ida com a filha à procura do marido, o jantar em comum com a peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá enxovalhada e corrida.

Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jerônimo, mas com o dela.

Rebaixar-se àquele ponto! com efeito!... Ir procurar o homem lá na casa da outra!... Oh!

— Ele tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que não sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés!