OS MAIAS
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O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral?...

— ­Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. É intimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongea o marido. Está na logica cá da terra... Você verá que successo isto vae ter... E lá que o artigo está lindo, isso está!

Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir côr de rosa de madame Cohen: «respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle côr de rosa exhalasse de si o aroma que a rosa tem»!

— ­Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!...

— ­Nada d’isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que seja uma extraordinaria falta de senso moral.

— ­Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto d’um sophá, para deixar cahir ás syilabas esta pesada opinião.

O marquez investiu com elle.

— ­Que entende você d’isso, seu maestro? O artigo é sublime! E saiba mais: é de finorio!

O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao outro canto do sophá.

E então o marquez, de pé e bracejando, appellou para Carlos, e quiz saber o que é que Craft em principio entendia por senso moral.