Poesias (Bernardo Guimarães, 1865)/Notas

Poesias (Bernardo Guimarães, 1865) por Bernardo Guimarães
Notas
NOTAS

Poucas das poesias que compoem a presente collecção precisão de notas, explicações ou commentarios para serem comprehendidas. Mesmo essas poucas notas serião inteiramente dispensaveis para os leitores brasileiros, conhecedores das nossas cousas, de nossos usos, costumes e linguagem. Mas como o autor aspira a ser lido pelo maior numero possivel de leitores, quer estrangeiros, quer nacionaes, por isso julga que será de algum auxilio para a boa intelligencia de suas producções o pequeno numero de notas e explicações que se seguem.

CANTOS DA SOLIDÃO.

1 Piagé, Pagé, ou Piága. Sacerdotes, prophetas e medicos entre as tribus selvagens. A palavra parece que significa sabio ou adivinho. Vivião em cavernas solitarias, erão tidos em grande veneração, e tinhão grande influencia nos negocios da paz e da guerra.

2 Tacape. Maça ou clava de madeira, arma de que usavão os indigenas do Brasil.

3 Taba. Cabana dos indigenas.

4 Ocára. Especie de acampamento fortificado, cidadellas, ou fortificações dos mesmos.

5 Arasoia. Cinto ou saiote ornado de plumas.

6 Kanitar. Cocar de plumas.


POESIAS DIVERSAS.

7 Quebranzol. Caudal e formoso rio, affluente do Parnahyba, e que banha as ferteis e risonhas campinas do municipio do Araxá, na provincia de Minas-Geraes.

8 Chapadões. Chamão-se assim os plateaux ou lugares elevados, a que tambem se dá o nome de espigões, cobertos de pingues pastagens.

9 Itamonte. E’ o nome com que o illustre poeta Claudio Manoel da Costa crismou o Itacolumy, pico alteroso das montanhas do Ouro-Preto.

10 O celebrado lazarento de mestre Tolentino. Não ha quem não conheça o celebre soneto que o faceto Nicoláo Tolentino fez a um cavallo lançado á margem. Todavia julgo que os leitores estimaráõ encontral-o aqui reproduzido. Eil-o:


Vai, misero cavallo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, emquanto te consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sella, teu unico ornamento,
Para signal de meu amor vehemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inutil do inconstante vento.

Morre em paz, que em havendo algum dinheiro
Hei de mandar em honra de teu nome
Lavrar em negra pedra este lettreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rapido sendeiro,
Que fôra eterno a não morrer de fome.»


11 Girdo. É uma palavra brasileira, que significa um leito grosseiro de páo, armado entre os ramos das arvores.

12 Pipócas. Grãos de milho torrados ao borralho.

13 Taturana. Especie de lagarta felpuda; ha de diversas côres e figuras; se nos passa pelo corpo deixa na pelle uma irritação caustica assaz incommoda, mas que se desvanece em pouco tempo. E’ um verme vulgarmente conhecido pelo nome de bicho cabelludo.

14 Getirana, ou Getiranaboia. Insecto raríssimo, que se encontra nos sertões do Brasil. Sua fórma é singularissima, e só um desenho poderia dar d’ella uma idea precisa. E’ uma grande mosca de uma até duas pollegadas de comprimento. Tem azas como as da cigarra, porém excedendo muito ao tamanho do corpo, que é oblongo como o da borboleta. Sua cabeça, que é quasi um terço do total do corpo, tem a fórma da cabeça de uma serpente. Tem um ferrão ou tromba que se dobra por baixo do ventre, como um canivete no cabo. Dizem que é cego, e quando desprende o vôo, parte direito como uma setta com o terrível aguilhão estendido como uma baioneta calada, e desgraçado do ente vivo em que toca!... Cahe immediatamente fulminado.

Este lindo e quasi fabuloso insecto existe portanto. Sómente ignora-se se é mesmo destruidor e venenoso como dizem os sertanejos, ou se é apenas uma bella e innocente borboleta, sendo aquella tromba, que tanto pavor espalha, apenas destinada a sugar o alimento necessario, como pretendem outros. Não sei se algum entomologista já terá feito um exame acurado sobre algum individuo d’essa curiosissima especie.

15 Combuca. Cabaça ôca.

16 Mutuca. Grande mosca do matto, que incommoda o gado com suas mordeduras.

17 Macuco. Grande ave das florestas, que pia de noite.

18 Bandurra. Viola pequena.

19 Capetinha. Synonymo de diabretes ou demonios.

20 Marimbáo. Pequeno instrumento de ferro, que collocado entre os dentes produz certas vibrações monotonas; é mais um brinquedo de crianças do que verdadeiro instrumento musical.

21 Catereté, batuque. Dansas populares do interior do Brasil.

22 Rebenque. Chicote, guasca, latego.

23 Copaíba. Uma das mais bellas e mais uteis arvores de nossas florestas, que dá o oleo do mesmo nome. Também se chama páo de oleo.

24 Burityraes; burity. Especie de altos e donosos coqueiros, bellos em si mesmos, porém ainda mais bellos pelas longas e alinhadas filas que formão pelos brejaes das vertentes ao longo dos chapadões.

Quanto ás outras poesias d’esta collecção, as palavras ahi empregadas são conhecidas e encontrão-se nos diccionarios.



FIM DAS NOTAS.