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Uma Família Ingleza por Júlio Dinis
Capítulo XIV


IMMINENCIAS DE CRISE

Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o serão d'aquella noite, andava Carlos procurando com anciedade, por todos os salões de mascaras, a sua desconhecida da vespera.

Jenny notára a impaciencia, com que o irmão tinha aguardado a noite e, ao vel-o sair, disse-lhe com modo particular:

—Adeus, Charles; quer-me parecer que te não recolherás d'esta vez pelas quatro horas da manhã.

—Quem sabe, Jenny?

—Adivinho-o.

Effectivamente não eram ainda duas horas, quando Carlos Whitestone, cansado de procurar em vão, em cada dóminó e sob cada mascara de seda, a incognita do ultimo baile, voltou a casa em pouco agradavel disposição do espirito.

Jenny, que o sentiu chegar, sorriu de novo e disse comsigo mesma:

—Inda bem, que terminou o carnaval. Charles, dentro em dois dias, já pensará em outra cousa.

Acabára de facto o carnaval. Expirára essa época votada á folia e á loucura sem rebuços e abria-se agora a da penitencia e dos sermões.

Em qual das duas ha mais verdades, mascaradas sob falsas apparencias, deixo aos moralistas decidir. Ia principiar o reinado dos véos, durante o qual a piedade e a moda levam ás sextas-feiras a multidão para a igreja de S. João Novo, e ao domingo despejam meia cidade nos arrabaldes proximos, para assistir á procissão dos Passos e ao respectivo sermão do encontro.

Quasi toda a manhã de quarta-feira de Cinza passou-a Carlos em casa.

Contra o que era de esperar do caracter d'elle, dominava-o ainda a lembrança da mysteriosa mascara; o despeito de a ter deixado escapar, sem que lhe ficassem vestigios, pelos quaes podesse um dia vir a saber quem ella fosse, concorria para o não deixar tranquillo agora. Estava dando tratos á imaginação, para se lembrar de qualquer meio conducente á solução d'aquelle problema de carnaval. Mas nenhum alvitre lhe offerecia a imaginação atormentada.

Saíu emfim, sem saber para quê, nem para onde; em vez de procurar os centros de reunião mais concorridos, e onde, de ordinario, se fazia ver e ouvir, mudou de rumo, deixou-se ir ao acaso e, passado tempo, caminhava por entre os pinhaes, que orlam a parte ainda não edificada da rua da Boa Vista.

Nos seus habitos de vida, essencialmente urbana, eram tão raras as occasiões de se ver assim entre arvores e fóra do povoado, principalmente áquellas horas do dia, que o facto estava-lhe causando uma impressão singular.

Parecia-lhe um mundo novo; e alli, a dois passos de casa!

Internou-se por pinhaes e campos, até perder de vista a estrada. Parou emfim. N'um estado moral, como o de Carlos n'aquella manhã, não são necessarios os grandes espectaculos da natureza para incitarem o pensamento a uma d'essas divagações, a que anda tão sujeito o dos poetas.

A vastidão do mar, o horizonte amplissimo, que se descobre do alto das montanhas, o fragor da cataracta, que se despenha no valle, subjugam e obrigam a meditar até os menos propensos a contemplações abstractas.

Haja porém um fermento de poesia no espirito de qualquer homem, ou tenha-se apoderado d'elle a melancolia, que é uma poesia tambem, e menores causas bastarão para se produzirem effeitos ainda maiores.

O caminhar do insecto ou o rastejar do verme por entre as folhas sêccas do chão, a lande, desprendida do ramo e arrebatada na corrente, o raio do sol, que vae colorir a maravilhosa teia que a aranha teceu nas tojeiras, nas praias o movimento de expansão das actinias, ou rosas do mar, esses verdadeiros forcados das fragas, e outros iguaes phenomenos, sem importancia para quem os vê com animo distrahido, são já alimento bastante para phantasias mais apuradas.

Carlos tinha a imaginação predisposta para estas impressões subtis, e, como raras vezes se sujeitava a ellas, recebia-as agora com duplicada intensidade.

Era pelas tres horas da tarde de um dos mais formosos dias, que nos póde conceder fevereiro. Havia no campo aquella frescura, aquelle renascer de vida que, após longos dias de chuva, traz um dia de sol claro. O céo não tinha uma nuvem, nem lhe empanava o azul o véo transparente de nebrinas. Os pinhaes estavam silenciosos, como se, julgando-se já na primavera, se tivessem calado para escutar as aves; o vento, de debil que era, mal podia agitar as folhas movediças das arvores que o inverno respeita. Era tal a serenidade da tarde, que o fumo das casas rusticas subia ao ar lentamente, em columnas direitas, sem que uma viração as quebrasse, e só muito alto se dissipava na atmosphera.

Do logar onde parára, Carlos ouvia distinctamente a voz das raparigas do campo, chamando o gado, rindo ou cantando.

Era de longe que partiam aquellas vozes, mas a amenidade da hora e o silencio deixavam-as chegar até alli sonoras e perceptiveis.

Carlos sentiu-se enlevado por tudo aquillo.

—É uma singular loucura—pensou elle—julgar que se aproveitam os dias da juventude da maneira por que eu vou passando os meus. Do homem, que teve a minha vida, emquanto novo, costuma dizer-se que soube gosar d'ella em tempo. E como é que eu d'ella gosei? Na atmosphera asphyxiante de um café; na plateia de um theatro, onde se falla e pensa em tudo menos na belleza da arte; nas assembleias semsabores; nas esquinas das praças, ou em lojas á moda. Na verdade, que delicioso viver! E o espirito, que parece sentir-se palpitar, agitar-se em nós, quando assoma a mocidade, acaba por embotar-se, por adormecer; torna-se incapaz de nos proporcionar certa ordem de gosos, para os quaes temos faculdades creadas. E diz-se então que soube gosar da vida o que voluntariamente se privou das mais gratas impressões, que podem sentir-se n'ella!

Isto dizia, ou antes, pensava Carlos, ao entranhar-se cada vez mais no pinheiral, e respirando a pleno peito a atmosphera balsamica do logar.

—Nem eu sei—proseguia elle—como ainda experimento prazer, ao achar-me aqui só. Nos habitos de vida, que fiz meus, perde-se até a faculdade de saber sentir assim, a sós; quando é talvez d'esta maneira que a imaginação mais subtil se mostra...

Vejam os leitores até onde iam já arrastando Carlos os attractivos d'aquella solidão suburbana!

Operou-se porém uma transformação nas suas ideias, que parecia vogarem, e á vela cheia, seduzidas pelas doçuras da vida de anachoreta. Um pensamento, menos misanthropo, mais social, fel-as mudar de rumo.

—Mas não—reconsiderou elle—não basta sentir; é necessario transmittir as expressões dos nossos sentimentos, e os troncos das arvores, a final de contas, não são os confidentes mais proprios. Tudo precisa de reflectir-se, para não perder na immensidade; a luz, n'um espaço vasto, dissipa-se; o som esmorece; o sentimento parece tambem enfraquecer, se outra oração, reflectindo-o, o não reforça. É porisso que a presença de um amigo... Mas que amigos tenho eu?

Tremo devéras pelos chamados amigos de Carlos, ao vel-o disposto a responder a esta pergunta, que fez a si proprio.

—F...,—continuou elle—cuja amizade não resistirá á primeira falta de senso que lhe notar n'um folhetim; C..., que romperá commigo, se eu tiver a franqueza de lhe apontar o menor defeito de equitação; L..., que abandonaria o amigo, logo que o visse seguir um terreno, onde elle corresse o perigo de enlamear as botas de polimento..., e todos os mais da mesma força. Vão lá escolher um d'esses homens para companheiro n'estas viagens sentimentaes.

Aqui interrompeu-se para observar um pequeno e agil lacerto, que fugiu espavorido ao sentil-o aproximar, e do buraco, onde se occultára, continuava espiando-lhe os movimentos com os olhos vivos e como scintillantes. Carlos achava curiosissimo este espectaculo vulgar. Depois seguiu caminho, distrahido ainda, e pensava:

—Ahi está; se eu dissesse a qualquer que me entreteve esse pequeno reptil, correndo por entre os fetos e por sobre as pedras musgosas d'aquelle muro, zombaria da minha candura; chamar-lhe-hia pieguice... Ha certas vibrações de sensibilidade, que não se póde communicar... a não ser... a não ser a um coração de mulher... Ellas sim, teem certas puerilidades sublimes, que... Ora adeus! Temos outra como a dos amigos. Se me recordar de algumas mulheres que tenho amado, que vejo eu? A S..., mulher nervosa, que teria um deliquio só ao ver aquella sardonisca—sensibilidade de toucador; a C..., essa então, mulher forte, que só um terremoto como o de Lisboa seria capaz de commover; a E..., belleza de salão, que se levanta ao meio dia, admira a natureza... nos jardins, e lamenta que a solidão não tenha gente que veja como ella a sabe apreciar...; e as outras regulam por isto. Verdade é que eu tambem com isto me satisfazia; quem sabe se procurando de outra maneira...

N'este ponto tomaram as suas meditações outro caracter. Alguns passos mais adiante, já elle meditava:

—Á força de me rir, em sociedade do amor sincero, desinteressado, dos casamentos de paixão, da vida de familia, quasi me deixei persuadir de que me ria convencido. E comtudo, se me sondar devéras... se aproveitar estes momentos raros, em que sou franco e expansivo commigo mesmo...

O leitor sabe de certo até onde podem chegar as excursões do pensamento, quando no terreno que o de Carlos ia seguindo agora; muito mais se, como elle, se está em pleno bosque e longe do rumor da cidade; se o sabe, não estranhará que, momentos depois, já assim estivesse pensando Carlos:

—Um amor bem verdadeiro, uma vida bem intima com uma mulher, a quem se queira como amante, que se estime como irmã, que se venere como mãe, que se proteja como filha..., é evidentemente o destino mais natural ao homem; o complemento da sua missão na terra...

Quando Carlos Whitestone chegára a formular, no pensamento, esta profissão de fé, que, uma ou outra vez, concebeu toda a cabeça de vinte annos, ainda das mais azadas para desvairamentos, attingia a borda do pinheiral opposta áquella, por onde havia entrado.

D'alli por diante o terreno, mais desimpedido de arvores, era occupado por campos em cultura, vinhedos, quintas, e por as casas respectivas; umas juntas, outras dispersas, e mais ou menos graciosas todas.

Carlos sentou-se no pequeno muro de demarcação do pinhal. O horizonte que tinha diante de si, era vasto, e o olhar foi, quasi ao extremo d'elle, fixar-se em uma das mais distantes d'aquellas casas, ainda que o espirito não tomasse a menor parte n'aquella apparente contemplação.

Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda, que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realçar a alvura.

Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como estava ainda na sequencia de meditações sobre os destinos do homem n'esta vida.

Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o laço de união entre o objecto das contemplações dos olhos e o das do espirito, que, desde então, se associou áquelles, no exame da modesta vivenda, em cujas vidraças o sol simulava a apparencia de um vasto incendio.

O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. Não era para estranhar que a imaginação de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.

Viera examinar a roupa, que estava a córar ao sol; tirava uma e substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava para fóra, pondo a mão por cima dos olhos, como a abrigal-os da intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia fallar a alguém de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.

Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma criada.

Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que lhe estavam a appetecer.

—Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios domesticos...—pensava elle—Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim inteiramente á nossa felicidade...

Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny. Lembrou-se, é verdade; mas a imaginação sorriu affectuosamente áquella doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu coração não satisfazia só o sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feições da irmã. A seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.

A tarde adiantava-se, e Carlos não se desviava d'alli; prendia-lhe as attenções aquella casa e a sympathica visão da varanda.

A final fecharam-se as janellas. Pouco faltava para o sol se esconder de todo no mar. Carlos reparou então que era tempo de voltar a casa.

Olhou mais outra vez ainda, e com saudade quasi, para a varanda. Os seus poucos e imperfeitos conhecimentos da topographia d'aquella parte da cidade não lhe permittiram conjecturar sequer qual fosse a rua a que pertencia a habitação.

A nossa costumada discrição impede-nos de compensar este defeito.

Seguindo outra vez o caminho, por onde viera, Carlos voltou a casa, mas a passos mais apressados.

Já proximo da porta, sentiu uma mão, que se lhe pousava no hombro. Voltou-se; reconheceu um de seus amigos.

—Que fazes tu, homem?

—Recolho-me.

—D'onde vens?

—Do campo.

—Ah! cultivas a bucolica? a poesia pastoril?

—Ás vezes.

—Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos inoffensivos. A proposito, já te mostrei o meu folhetim de critica, a respeito do volume do Serrão?

—Ainda não.

—Apparece então no Guichard esta noite. O livro é um pretexto; o que eu procuro é caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que é o meu systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelações? É o que faço d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na Berenice; outra de Victor Hugo, no Ruy Blas. São as palavras finaes de uma e de outra tragedia. Antiochus vê partir Berenice e exclama: Helas! Ruy Blas morre nos braços da rainha e murmura: Merci! Basta-me isto.—Helas!—é o grito de dor, é o desespêro, é a falta de coragem no infortunio; é a ultima palavra de uma litteratura, que não tem confiança no futuro, de uma litteratura, que vive só do passado. Merci!—é, pelo contrario, a resignação, a esperança, o apuramento do padecer até á essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a confundir-se com o prazer... é pois a phrase digna de uma litteratura viva, inspirada do futuro...

A prelecção continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a estava escutando, a nenhuma disposição que tinha para apreciar n'aquella noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que pôde.

—Não serei eu que vá ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade a Jenny. Ficarei em casa—disse elle, logo que conseguiu despedir-se.

E entrou justamente quando já a campainha chamava para o jantar.

Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou comsigo:

—Ainda é cêdo para o restabelecimento. Esperemos.