Urupês (5ª edição)/Meu conto de Maupassant


"Meu conto de Maupassant"



ONVERSAVAM no trem dois sujeitos. Approximei-me e ouvi:

— "Anda a vida cheia de contos de Maupassant; infelizmente ha poucos Guys...

— "Porque Maupassant e não Kipling, por exemplo?

— "Porque a vida é amor e morte e a arte de Maupassant é simplesmente um enquadramento engenhoso do amor e da morte.

Mudam-se os scenarios, variam os actores mas a substancia persiste — o amor sob a unica face impressionante, a que culmina n'uma posse violenta de fauno incendido de luxuria, e a morte, o estertor da vida em transe o quinto acto, o epilogo physiologico. A morte, meu caro, e o amor são os dois unicos momentos em que a jogralice da vida arranca a mascara e freme num delirio tragico.

— "?

— "Não te rias. Não componho phrases. Justifico-me. Na vida. só deixamos de ser uns palhaços inconscientes a macaquear-nos uns aos outros, a copiar gestos de civilizações e a mentir á natureza, quando esta, reagindo, põe a nu' o instincto hirsuto, ou acena o "basta" final da morte, recolhendo o ruim actor ao pó.

Só ha grandeza, em summa, e "seriedade", quando cessa de agir o pobre jogral que é o homem feito, guiado e dirigido pelas religiões, codigos, moraes, modas e mais postiços de sua invenção, e entra em scena a natureza bruta.

— "A proposito de que tanta filosofia, com este calor de Janeiro?...

O comboio corria entre S. João e Quiririm. Região arrozeira em plena faina do córte. Os campos em séga tinham o aspecto de cabellos louros tosados á escovinha. Pura paizagem europea, de trigaes. A espaços feriam nossos olhos quadros de Millet, em fuga lenta, se longe, rapida, se perto. Vultos de mulheres de cesta á cabeça, que paravam a ver passar o trem. Vultos de homens amontoando feixes de espigas, para a malhação do dia seguinte. Carroções, tirados a bois, recolhendo o cereal ensaccado. E como cahia a tarde, e a Mantiqueira era já uma pincelada opaca de indigo a barrar a imprimadura evanescente do azul, vimos, em certo trecho, o original do "Angelus"...

— "Já te digo a proposito de quê vem minha filosofia.

E enfiando os olhos pela janella, calou-se. Houve uma pausa de minutos. Subito, apontando um velho saguaragi, avultado á margem da linha e logo sumido para traz, disse:

— "A proposito desta arvore. Ella foi comparsa no "meu conto de Maupassant".

— "Conta lá, se é curto.

O primeiro sujeito não se ageitou no banco, nem limpou o pigarro, como é de estylo. Sem transição, foi logo narrando:

— "Havia um italiano morador destas bandas, com vendola na estrada. Typo mal encarado e ruim. Bebia, jogava, e por varias vezes andou ás voltas com as autoridades. Certo dia — eu era delegado de policia — vieram uns piraquáras annunciar que em tal parte estava o "corpo morto" de uma velha, picado a foice.

Organisei diligencia e acompanhei-os. "É lá, naquelle saraguagi", disseram, ao approximarmo-nos da arvore que passou.

Espectaculo repellente! Ainda tenho na pelle o arrepio de horror que me correu pelo corpo ao dar uma topada balofa num corpo molle. Era a cabeça da velha, semi-occulta sob folhas seccas. Porque o malvado a decepára do tronco, lançando-a a alguns metros de distancia.

Como por systema desconfiasse do italiano, prendi-o. Havia indicios vagos. Viram-no sair com a foice, a lenhar, na tarde do crime.

Entretanto, por falta de provas, foi restituido á liberdde mal grado meu, pois cada vez mais me capacitava da sua culpabilidade. Eu presentia naquelle sordido typo — e negue-se valor ao presentimento! — o miseravel matador da pobre velhinha.

— "Que interesse tinha elle no crime?

— "Nenhum. Era o que allegava. Era como argumentava a logicasinha trivial de toda gente. Não obstante, eu o trazia d'olho, certo de que era o criminoso.

O patife, não demorou muito, traspassou o negocio e sumiu-se. Eu, do meu lado, deixei a policia e, breve, do crime só me restava, nitida, a sensação da topada molle na cabeça da velha.

Annos depois o caso resuscitou. A policia colheu indicios vehementes contra o italiano, que andava por S. Paulo n'um gran extremo de decadencia moral, pensionista do xadrez por furtos e bebedices. Prenderam-n'o e remetteram-n'o para cá onde o jury iria decidir da sua sorte.

— "Os teus presentimentos...

O sujeito riu-se com malicia velhaca, e continuou:

— "Não resistiu, não reagiu, não protestou. Tomou o trem no Braz e veiu de cabeça baixa, sem proferir palavra, até S. José; d'ahi para diante (quem o conta é um soldado da escolta) mettia amiude os olhos pela janella, preoccupado em descobrir qualquer cousa na paizagem, até que defrontou o saguaragi. Nesse ponto armou um pincho de gato, e despejou-se pela janella afóra. Apanharam-n'o morto, de craneo rachado, a escorrer a couve-flôr dos miolos, perto da arvore fatal.

— "O remorso!

— "Está aqui o "meu conto de Maupassant". Tive a impressão delle nas palavras do soldado da escolta: "veiu de cabeça baixa até S. José, d'ahi para diante enfiou os olhos pela janella até enxergar a arvore e pinchou-se". No progresso ingenuo da narrativa li toda a tragedia intima daquelle cerebro, senti tudo um drama psychologico que nunca será escripto...

— "E' curioso! — commentou o outro, pensativamente.

— "O curioso, concluiu o primeiro sujeito com pausada lentidão, é que, mais tarde, um dos piraquáras denunciadores do crime, e filho da velha, preso por um horrivel assassinato a foiçadas, "confessou-se tambem o assassino da velhinha, sua mãe..."

— "?

— “Meu caro, aquelle pobre Oscar Wilde disse muita coisa, quando disse que a vida sabe melhor imitar a arte do que a arte sabe imitar a vida...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1929 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.