Abrir menu principal
Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De como se começou o caso em que o duque de Viseu foy contra el-rey


Aqui em Santarem se começou a praticar e tratar a segunda deslealdade contra el-rey, donde se seguio a triste e rebatada morte do mal logrado duque de Viseu. A qual naceo mais de crer perversos e errados conselheiros, que de sua condiçam porque d' el-rey nunca recebeo escandallo nem agravos pera que com rezam lhe devesse de querer mal; mas a maa incrinaçam e o odio dos que o nisso metiam, mais por seus proprios odios a el-rey, que por desejarem de ele reinar como lhe faziam crer, com hũa vaã esperança e desordenado desejo o cegaram de maneira, que lhe fizeram esquecer que el-rey era seu natural rey e senhor, e que o criara como filho e honrara como irmão e que era seu primo com yrmão e yrmão da rainha sua molher e filho do infante Dom Fernando seu tio. Pollas quaes cousas elle mays que outra nenhũa pesoa tinha rezam de com verdadeira lealdade, amor e obediencia servir e acatar el-rey em tudo o que a sua vida, sua honrra e seu estado real e bem de seus reynos comprisse. E nam lhe lembravam que o fizeram meter na conjuraçam dos primeiros que a desobediencia e destruyçam d' el-rey tratavam e que sendo elle nella comprendido e posto em seu poder, el-rey por suas muyto grandes virtudes, movido mais de piadade e misericordia que de yra nem rigor, e avendo tambem respeito a sua pouca ydade e pollo da raynha, nam quis olhar suas culpas por saber que entam nam naciam delle, e quis mais perdoar-lhe como pay que castigá-lo como rey; que se entam quisera seguir inteiramente a ordem de justiça, por ventura o podera bem fazer. E nam somente levou entam contentamento de lhe tudo perdoar como atras fica dito, mas por sua grandeza d' animo e muy real condiçam levava el-rey gosto em o aconselhar com amor e honrrar muito e favorescer; mas tanto bem nam aproveitou ao mal que se seguio. Porque o mal afortunado do duque por sua má costellaçam ou algum secreto juyzo nam pôde aqui em Santarem fugir a outros danados e piores conselheiros, que fazendo elle crer que andava preso e fora de sua liberdade com hũa esperança de sem rezam e sem causa o fazerem rey, o fizeram inclinar e consentir a contra Deos e toda rezam quererem matar el-rey seu verdadeiro senhor; e nam lhe lembravam nem elle se queria lembrar que devia a el-rey a vida que Deos lhe dera, o que em sua memoria devera d' andar pera sempre com verdadeiro amor e lealdade, e nam devera estimar tam pouco aquelle tam real, tam grande e piadoso perdão que com puro amor e sem necessidade algũa lhe tinha feito em Evora; mas os grandes peccados de seus diabolicos conselheiros o traziam enleado com tanta indignaçam, que este tamanho bem lhe faziam crer que era mal. E nam lhes lembrando Deos nem a obediencia, amor, e lealdade que a el-rey deviam ter, pois era seu rey natural e filho d' el-rey Dom Afonso que a muitos deles tinha feito grandes senhores e grandes merces e assi as grandes virtudes e perfeições d' el-rey e as muitas e grandes merces que a muitos delles tinha feytas; e esquecidos de si mesmos, de suas honrras e vidas e da nobreza de seus sangues, e assi do grande perigo em que se metiam, tratavam em matar el-rey a ferro ou com peçonha, e seus reinos tirá-los ao principe seu filho a quem de dereito vinham pera os ter quem contra justiça e toda rezam os queria tomar. Mas Nosso Senhor Deos por sua grande misericordia, e polla ynocencia e grande devaçam d' el-rey tornou tudo isto ao contrario do que elles tinham ordenado, e guardou sempre a vida d' el-rey por quam bem elle guardava a justiça e verdade e seus mandamentos e por quam verdadeira fee tinha; que verdadeiramente ver quam soo el-rey era, e eles tantos e tam principaes pessoas, e tam chegados a elle, e tantas vezes o cometerem fora e em casa e elle sempre escapar, nam he de crer senam que foy per mysterio de Deos, a quem el-rey sempre primeiro que tudo sua vida e suas cousas encomendava. E o triste, desastrado e mal afortunado caso foy nesta maneira que se segue.

O duque de Viseu pousava fora da cerca de Santarem nas casas do arcebispo de Lisboa que sam junto com o Moesteiro de Sam Domingos das Donas. E o bispo d' Evora Dom Garcia de Meneses, dino de muito grande culpa, pois tanta cavallaria, tantas letras, fidalguia, e rendas, e outras muytas e boas partes tam mal soube aproveytar, pousava nas casas de hum Afonso Caldeira junto com o postigo de Santo Estevam, donde secretamente sahio a falar com o duque e com elle Dom Fernando de Meneses seu yrmão. E assi foram Fernão da Silveira escrivam da poridade d' el-rey e filho do baram d' Alvito e Dom Goterre Coutinho filho do marichal a quem el-rey tinha dado, avia bem pouco a comenda de Cezimbra, e Dom Alvoro d' Ataide yrmão do conde d' Atouguia e do prior do Crato, e seu filho Dom Pedro d' Atayde e o conde de Penamocor Dom Lopo d' Albuquerque, e Pero d' Albuquerque seu yrmão alcaide-moor do Sabugal. Os quaes todos foram os sabedores e consentidores desta amor deslealdade e trayçam. Ainda que muito claro se provou que Dom Fernando de Meneses somente quando polo duque com quem vivia, e pollo bispo seu yrmão lhe foy descuberto, lhe pesou muito de o saber; e com palavras de lealdade e muyta prudencia, sempre como bom portugues e fiel vassallo d' el-rey, o estranhou muito e contradisse gravemente, porém nam no descubrio por ser criado do duque. E depois da Pascoa pasados alguns dias, el-rey com a raynha e o principe com sua corte, se partio pera Setuvel e foy polas leziras a montes e caças com muitos banquetes, prazeres, e festas, e todos estes com elle e outra nobre gente.