Abrir menu principal

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/LIII

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De como foy a morte do duque de Viseu


E foy primeiramente el-rey avisado deste caso per Diogo Tinoco homem fidalgo a quem o bispo d' Evora por ter por manceba hũa Margarida Tinoca sua irmaã a que queria muito grande bem e por confiar muito nelle lhe deu disso parte. E Diogo Tinoco o mandou logo descubrir a el-rey per Antam de Faria, e depois o disse per si meudamente a el-rey no Moesteiro de Sam Francisco de Setuvel vestido em habito de frade por mayor dissimulaçam. A quem el-rey com palavras e obras muito o agradeceo e satisfez como tam leal e proveitoso aviso merecia. E lhe deu logo juntamente cinco mil cruzados em ouro e seiscentos mil reaes de renda em beneficios loguo nomeados, polos quaes logo mandou despedir as letras; mas nam ouveram efeito porque antes de despedidas o dito Diogo Tinoco faleceo.

E depoys foy el-rey de tudo avisado por Dom Vasco Coutinho filho do marichal e yrmão do dito Dom Goterre, o qual Dom Vasco por descontentamentos que tinha d' el-rey estava a este tempo despedido delle pera se yr fora do reyno. E Dom Goterre pesando-lhe da hida do yrmão, e avendo por cousa certa a morte d' el-rey com que sua yda seria escusada, lhe mandou muyto pedir que antes de se partir se visse com ele em Cezimbra, onde se viram e Dom Goterre por lhe nam descubrir a causa principal de seu fundamento lhe disse, que o mandara chamar sentindo muyto seu despedimento e partida, e lhe pedio muito que estivesse alli alguns dias, nos quaes trabalharia remedear com el-rey seus agravos com que sua yda se escusasse. E porque Dom Vasco o nam quis fazer parecendo-lhe que eram delongas, Dom Goterre pollo segurar lhe descubrio inteiramente todo o caso e Dom Vasco lhe disse entam que ficaria e seria com elle nisso. E tanto que o soube, lembrando-lhe sua lealdade e fidalguia, e a longa criaçam que d' el-rey recebera, e nam os agravos e pouca mercee que dezia que delle tinha recebida por onde era delle despedido, determinou logo como bom, verdadeyro e leal vassalo descubrir tudo a el-rey. E muy secretamente per meo d' Antam de Faria se vio com el-rey a quem meudamente tudo descubrio; e que o que tinham determinado era matarem-no a ferro, e recolherem o principe per mar a Cezimbra, e que per logo com elle sossegarem o reino o levantariam por rey, e que o seria enquanto o duque quisesse o que ficaria en sua mão e vontade.

E sabendo el-rey tudo ysto tam meudamente por taes duas pessoas, o dissimulou de maneira que nunca foy sentido por esperar mais inteira prova; e porém andava mui a recado armado mui secretamente e sempre com espada e punhal e a cavallo e nunca em mula; porém tudo feito com tanta prudencia e dissimulaçam, que nunca sentiram o que elle sentia. E quando Dom Goterre disse ao duque e aos que com ele eram como Dom Vasco seu yrmão se nam hia e era metido no caso e que tinha jurado de ele ser o primeiro que lhe posesse o ferro, disse o bispo Dom Garcia: “Muito me doe o cabello de Dom Vasco”. E andavam buscando tempo desposto em que o melhor podessem fazer; e dizem que hũa vez ho quiseram matar andando no Trouno passeando a cavallo, e que el-rey o sentio e se pôs com as costas na Ygreja de Nossa Senhora d' Anunciada confiando que por diante ninguem ousaria de o cometer, e assi esteve atee que o capitam chegou com os da guarda; e que outra vez o quiseram fazer e cometer decendo por hũa escada de noyte pera casa da raynha e nam se acabaram de determinar. E dahi a pouco foy el-rey a Alcacer do Sal, e sabendo o duque e os da conjuraçam que avia de tornar per maar em hũa barca com poucos, determinaram esperá-lo na praya, e ao sahir dos batees o matarem. Do qual concerto e perigo ordenado, el-rey foy logo avisado per Dom Vasco que com elles era nisso. Pollo qual el-rey mudou a vinda por mar e se veo por terra polla Landeira muy bem acompanhado da boa gente da sua guarda que pera isso sem algum alvoroço fingindo outra cousa mandou aperceber. Porque depois da morte do duque de Bragança, sempre el-rey trouxe guarda da camara e dos ginetes, de que era capitam Fernam Martinz Mazcarenhas, que nestes feytos em que a vida d' el-rey e bem dos reynos pendiam, sempre servio continuadamente muito bem e lealmente, e pessoa de que el-rey muito confiava.

Chegou el-rey a Setuvel sesta-feira vinte dous dias do mes d' Agosto de mil e quatrocentos e oitenta e quatro. E o duque sabendo que el-rey vinha por terra nam no esperou em Setuvel e foy-se a Palmella onde estava apousentado elle e a senhora infanta sua mãy. E ao outro dia sabado mandou el-rey chamar o duque a Palmella, o qual dizem que veyo com muito pejo; e em se cerrando a noyte el-rey o chamou a sua guarda-roupa, que era nas casas que foram de Nuno da Cunha em que entam el-rey pousava, onde o duque entrou soo sem algũa pessoa entrar com elle; e sem se passarem muitas palavras el-rey per si o matou aas punhaladas, sendo a tudo presentes e pera isso escolheitos Dom Pedro d' Eça alcayde-mor de Moura, e Diogo d' Azambuja e Lopo Mendes do Rio. E esteve assi morto secretamente sem se ouvir rumor nem cousa algũa até que el-rey mandou cerrar as portas da villa e poer nellas grandes guardas e mandar muita gente por fora da villa guardar os caminhos e mandar em Setuvel preguoar grandes e temerosos preguões e fazer muytas e grandes deligencias pera se averem os outros todos da conjuraçam; que foy hũa noyte de muito grande terror e espanto e sobre tudo muyto grande tristeza, porque casi a todo Portugal tocava a desaventura daquelles que nisso eram culpados, por serem pessoas tam principaes. Foy o corpo do duque assi vestido como estava levado ante menham aa igreja principal da villa; em hum cadafalso cuberto de panos de doo jouve no meo da igreja descuberto aa vista de todo o povo até a tarde que o soterraram.

E de sua morte foy logo feito hum auto por o doutor Nuno Gonçalvez como juiz, e por Gil Fernandez escrivam da camara d' el-rey, em que el-rey verbalmente disse as cousas e rezões que tevera pera matar o duque, que logo foram escritas e per ellas logo perguntadas por testemunhas o dito Dom Vasco e Diogo Tinoco que com seus ditos approvaram e justificaram a morte do duque.