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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/LVI

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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
Embayxada que aqui em Castello Branc o veo a el-rey d' el-rey e da raynha de Castella


Aqui em Castelo Branco vieram a el-rey por embaixadores d' el-rey e da raynha de Castella, o bispo de Cordova pessoa de grande autoridade, e Gaspar Fabra valenciano homem muy honrrado. E ao que principalmente vinham, era requererem restituyçam dos filhos do duque de Bragança que andavam em Castella em casa da raynha, e porque ao tempo da partida dos ditos embayxadores, os reys nam sabiam da morte do duque de Viseu. El-rey temporizou com elles acerca de seus requerimentos e deyxou sua determinada reposta com a outra sua embayxada que sobre ysso e sobre outras cousas enviou despois por Fernam da Silveira, e com elle Estevam Vaz. Com escusas boas e de receber pera os requerimentos passados e pera sobre ysso nam deverem mays fallar lhes lembrava que a socessam destes reynos se esperava viir a seus filhos dambos antre quem o casamento era ja concertado a que semelhante restituyçam muyto perjudicaria.

E em Castelo Branco adoeceo el-rey, e pollo perigo supito em que esteve, teve maginaçam que fora de peçonha; e de Castelo Branco ainda doente se veo aas Cortiçadas e dahi pollo Tejo a fundo atee Almeirim, onde depois de são se foy a Montemoor-o-Novo com toda sua corte em que esteve atee o Janeiro do anno de oytenta e cinco.

E em Montemoor-o-Novo fez el-rey novamente conde de Borba Dom Vasco Coutinho pollo leal e assinado serviço que lhe fez em lhe descubrir o caso do duque de Viseu, estando dele despedido como atras fica dito. E deu-lhe a dita villa e condado de juro e d' erdade pera quantos delle decendessem; e mais lhe deu o castello e reguengos d' Estremoz com outras rendas e seu honrrado assentamento, e sempre lhe fez muita honrra, favor e merce, como ele o merecia que foy homem muy honrrado, muito nobre e muito bom cavaleyro e outras muito boas partes.

E de Montemoor por começarem de morrer nelle de peste que neste tempo era no reyno geral, el-rey se foy a Viana d' Alvito e dahi a Beja.

E neste tempo em que el-rey tinha tanto escandalo e odio aas cousas do duque de Bragança e do duque de Viseu, nam avendo no reino outro parente chegado senam Dom Afonso filho do marquês de Valença, e primo com yrmão da infanta Dona Breatiz e do duque de Bragança, sendo Dom Afonso bem mancebo lhe deu o bispado d' Evora livremente sem pensam nem deixar cousa algũa que tevesse; ho qual bispo foy pessoa singular de muitas letras e autoridade e gram senhor. E delle ficarão dous filhos e hũa filha: o primeyro he Dom Francisco de Portugal conde do Vimioso e senhor d' Aguiar, veador da Fazenda d' el-rey e camareiro-moor do principe, homem de muito preço e grande estima, de muito credito e autoridade, muy sesudo, e prudente, e de muito bom conselho, casado com hũa filha do senhor Dom Alvoro muy virtuosa e honrrada senhora; e o segundo Dom Martinho de Portugal que ora he arcebispo do Funchal e primas das Indias muy magnifica pessoa; e a filha se chama Dona Breatiz de Portugal a quem o pay deu cincuenta mil cruzados pera seu casamento e sendo molher moça nam quis casar e fez tudo em hum morgado e o deixou e trespassou em Dom Afonso de Portugal seu sobrinho filho do dito conde seu yrmão. E este bispo Dom Afonso começou em Evora hum grande e honrrado collegio com muita renda e obra muy vertuosa e em no começando se finou. E na See fez muitas e reaes obras e deu muy riquissimos ornamentos.

E sentindo-se el-rey tanto de Fernam da Silveyra, que dentro em França o mandou depois matar com grandes dadivas a quem o matou, porque Fernam da Silveyra era homem de muito preço e valia e de muito boas calidades, disse hum dia perante muytos aa mesa que Fernam da Silveyra era tal, que nam yria a parte algũa onde lhe nam fezessem muita honrra.

E do bispo Dom Garcia disse el-rey muitas vezes bem dizendo que era muito bom cavaleyro e grande leterado e tinha outras boas partes e eu lho ouvi per vezes; e assi disse tambem a algũas pessoas que quisera antes perder muito que ter mandado matar Dom Fernando de Meneses posto que per justiça fosse julgado. E por Dom Alvoro d' Atayde disse quando foy a sua grande entrada de Lisboa, yndo debayxo do paleo: “Nam se pode negar que sem Dom Alvoro Lisboa nam presta pera nada”, porque isto dizia, Dom Alvoro por ser muy principal sempre nos taes dias levava os reys pollas redeas, e era tam sabedor, cortesão, e gracioso que elle per si fazia festa. E era el-rey tam vertuoso, tam justo, tam verdadeyro, que aynda que quisesse mal a alguem nam lhe tirava sua honrra se a tinha nem deyxava de dizer algũas boas partes se as nelle avia; e ysto por sua grandeza d' animo e muy real condiçam.