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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XLIV

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De como foy ha prisam do duque de Bragança


E logo aho outro dia sesta-feira vinte e nove dias do mes de Mayo do dito ãno de mil e quatrocentos e oitenta e tres, o duque por sua vontade sem ser chamado d' el-rey, se foy aa tarde ao paço com tenção de se despedir delle e se hir embora pera suas terras, e achou el-rey em despacho de petições com os desembargadores do paço. E em o duque chegando com a honrra acostumada lhe mandou dar hũa cadeira e fez assentar junto consigo, e perante elle esteve despachando algũas cousas; e acabado fez de todo despejar a casa em que estava que era hum sotão e ficou soo com o duque, que logo falou a el-rey algũas cousas que trazia pera lhe dizer, antre as quaes lhe tocou nas sospeitas que delle contra seu serviço lhe faziam ter, pedindo-lhe muito por merce que as nam cresse e ouvesse por certo o que ja em Almeirim sobre tal caso lhe dissera, que era morrer por sua honrra e estado e serviço quando comprisse; e que pois ysto assi era que às pessoas que tamanhos erros contra elle assacavam falsamente devia dar o castigo que por tal caso mereciam; e que por nam parecer a sua alteza que elle por receo dalgũas suas culpas se acautelava, lhe pedia por merce que se quisesse bem enformar da verdade, e do que achasse fizesse o que fosse rezam e justiça.

El-rey lhe respondeo logo ao que primeiro lhe falou, a cada cousa per si, e antes de responder a esta lhe disse que por quanto era tarde e a casa estava ja escura, que se sobisem acima a hũa sua guarda-roupa. E depois de sobidos estando el-rey em pee lhe disse que quanto aas cousas que apontara que lhe delle deziam, e pedia que se enformasse da verdade, que seu requerimento era tal e tão justo que se devia de conceder, e que elle assi determinava de o fazer, e que pera ysso por se escusarem alguns ynconvinientes, e se fazer com mayor seguridade, era necessario que elle duque estevesse alli retraydo, e que fosse certo e seguro, que sua honrra com sua defesa e justiça lhe seria ynteiramente guardada. E como el-rey ysto disse deixou o duque na guarda-roupa em poder d' Aires da Silva camareiro-moor e d' Antam de Faria camareiro, os quaes com muito acatamento guardando-lhe muy inteiramente sua honrra o guardaram como entam cumpria. E vendo Ayres da Silva o duque muito triste e agastado o quis confortar dizendo-lhe, que nam tomasse sua senhoria paixam nem se agastasse que prazeria a Nosso Senhor que seria por mays sua honrra e acrecentamento de seu estado; e o duque lhe respondeo: “Senhor Ayres da Silva, o homem tal como eu nam se prende pera soltar”.

El-rey se sobio a outra camara onde logo mandou vir alguns fidalgos e cavaleiros a que encomendou a guarda e serviço do duque; e assi mandou chamar os senhores e pessoas principais d' autoridade que na cidade estavam pera conselho que logo sobre o caso teve; os quaes vieram logo com tam grande pressa e espanto como ha novidade do caso o requeria.

E como a nova foy polla cidade sabida, porque tocava en deslealdade contra el-rey, foy tam estranha e contrayra nos ouvidos e corações de todos, que toda a gente da cidade acudio na mesma ora a el-rey, nam soomente os que pera seu serviço eram necessarios, mas ainda os velhos e moços; e eram tantos que nam cabiam nos terreiros e ruas, todos pollo grande amor que lhe tinham com grande yra bradando por crua vingança sem nenhũa piadade lhe lembrar, somente o estado e vida d' el-rey como a propria de cada hum; e faziam tamanha oniam, ruydo, e estrondo, que era cousa de grande terror e espanto e mais por ser de noite.

E estando ja muitos do conselho e assi alguns letrados com el-rey, elle com muita temperança como muy justo e virtuoso rey, mostrou a todos por causa e fundamento da prisam do duque as cartas e estruções de que atras faz mençam, e com todos tomou o assento de todo o que pera tal caso e necessidade cumpria. Primeiramente que se segurasse bem a pessoa do duque e que seus castellos, villas, e fortalezas se cobrassem logo; e assi se notificasse logo ho caso aos reys de Castella e nam como a sabedores da causa delle, e assi ao prior do Prado embaixador, por se atalharem e empedirem requerimentos e alvoroços daquelles reynos pera estes.

E mandou logo el-rey a todalas fortalezas que o duque tinha em todo ho reyno que eram muytas e muy boas, fidalgos principaes e cavalleyros de sua casa, delles que na corte estavam e outros que eram ausentes, pera com suas cartas e provisões, e com outras do duque que tambem levavam as averem ou combaterem logo nam se querendo entregar, repartindo logo apontadamente as comarcas, villas, e fortallezas a que cada hum com melhor desposiçam avia de hir. Os quaes todos como bons e leaes servidores oulhando ho tempo e ymportancia do caso, com grande amor e deligencia compriram em tudo hos mandados d' el-rey. Porque como chegarão logo sem alvoroço, perigo, nem contradiçam, as ouveram todas aa mão, em que poseram alcaydes e pessoas que sobre suas menajens as tevessem sempre fielmente a serviço d' el-rey. Cousa certo de muyto louvor e espanto, entregarem-se assi levemente e tam sem duvida vinte e cinco villas e fortalezas do duque só por mandado d' el-rey sem vista de sua pessoa nem resistencia algũa dos alcaydes, que he muito de louvar sua muyta obediencia e grande lealdade a el-rey, e que parece cousa de misterio de Deos.

Ho marquês de Montemor estava nas Alcaçovas, e ho conde de Faram n' Odemira, e pollo aviso que loguo ouveram da prisam do duque sem mays esperar na mesma hora e ponto que ho souberam fogiram e se poseram em salvo e acolheram a Castella. E ho marquês veo por Portel e se quisera lançar na fortalleza de que era alcayde do duque Nuno Pereyra, que por ser jaa do caso avisado o não quis ahi recolher; e ho marquês se foy logo a Terra de Campos em Castella, e depois recolheo a marquesa sua molher em Sevilha.

E o conde de Faram se passou a Andaluzia onde dahi a pouco tempo com mayor tristeza e sentimento do que nestes casos tinha de culpa, se finou e acabou sua vida. Do que a el-rey nam aprouve antes lhe pesou muyto, porque se o conde se tornara pera ho reyno como loguo lho mandou dizer, teve tençam de se aver com elle nobre e virtuosamente porque el-rey tinha sabido o conde não ser culpado.

E com o senhor Dom Alvoro yrmão do duque assentou el-rey que por entam se fosse fora de Portugal e nam ficasse em Castella nem estevesse em Roma ysto atee sua merce, e que em todolos outros reynos e terras podesse estar, e aver lá todalas rendas que neste reyno tinha atee el-rey aver por bem de o mandar vir; e elle se foy com tençam de o comprir e preposito de yr a Jerusalem o que nam cumprio, porque chegando à corte de Castela foy d' el-rey e da raynha tam favorecido que nam passou adiante e ficou em seus reynos e corte a que recolheo ha senhora Dona Felipa sua molher e filhos. E lhe foy dado por el-rey e a raynha a governança da justiça em sua corte, e com elles teve grande credito e autoridade por ser pessoa de grande siso, saber e conselho. E lá em Castela faleceo depois de ser a estes reynos de Portugal tornado e restituydo a todo o seu per el-rey Dom Manoel que sancta gloria aja. E porém quando se assi foy do reyno ficou cá en Portugal hũa sua filha a que el-rey fazia muyto honrrada criaçam em casa da raynha sua molher e a trazia com muita honrra e abastança, ha qual ora he duquesa de Coimbra e molher do mestre de Santiago e d' Avis filho natural d' el-rey. E ficaram do senhor Dom Alvoro dous filhos e quatro filhas, s.: ho mayor que he marquês de Ferreira e conde de Tentuguel erdeyro de sua casa e de muyta renda, pessoa muy principal e de muita estima e gram valia; e Dom Jorge de Portugal que vive em Castella com muyta renda e conde e alcayde-mor do alcacer de Sevilha; e ha dita duquesa de Coymbra; e outra casada em Castella com ho conde de Benalcacer; e duas outras casadas nestes reinos hũa com o conde do Vimioso e outra com o conde de Portalegre. Todas pessoas muy principaes e de muito grandes virtudes.

E assi os filhos do conde de Faram tambem foram tornados a estes reynos por el-rey Dom Manoel e dado ao mayor suas rendas com o titolo de conde d' Odemira; e en Castella ficou hum que ora he arcebispo de Çaragoça e viso-rey em Aragam homem de grande valia; e assi casaram lá duas filhas suas, hũa com o infante Fortuna neto d' el-rey d' Aragam, e a outra com ho duque de Medina Celi; e outro filho mais moço que ora he mordomo-mor da raynha nossa senhora.

A senhora duquesa Dona Isabel molher do duque de Bragança ao tempo da prisam do duque estava en Villa Viçosa, e tanto que do caso foy avisada, mandou logo tres filhos seus a Castella e com elles fidalgos de sua casa, s.: Dom Felipe o mayor que sendo moço lá faleceo; e Dom Gemes o segundo que ora he duque de Bragança e de Guimarães e o moor senhor d' Espanha de sangue, terras, e vassallos e pessoa singular, que tomou a cidade d' Azamor aos mouros depois de tornado a estes reynos por el-rey Dom Manoel seu tio que sancta gloria aja; e Dom Denis o terceiro que em Castella casou com hũa filha do conde de Lemos herdeira da casa. E com ha senhora duquesa ficou hũa filha menina que avia nome Dona Margarida que nestes reynos dahi a poucos annos faleceo. E ha raynha de Castella como muy nobre e virtuosa princesa recolheo hos filhos do duque que eram seus sobrinhos a sua casa e os tratou e honrrou sempre como era rezam que fosse e fizesse a sobrinhos tam chegados a ella que eram filhos de sua prima com yrmaã e netos do infante Dom Fernando e da infanta Dona Breatiz que era yrmaã da raynha de Castella sua mãy. E do marquês de Montemor nam ficou filho algum.

Ho duque não sahio mais da guarda-roupa em que ho el-rey deyxou, onde estava sem ferros nem outra algũa prisam em seu corpo, porém era de bons fidalgos e cavalleiros bem guardado, e em tudo muy acatado e servido como a seu estado cumpria sendo em sua liberdade. Assi no serviço da mesa com suas salvas devidas e costumadas, como nos officios divinos e pratica e visitações de seu confessor, e tambem nos avisos de seus precuradores, que nunca lhe foram defesos quando ho elle desejava e algũa necessidade ho requeria. E sendo el-rey aconselhado dalgũas pessoas, que per dereyto podia mandar fazer justiça do duque pois do crime era certificado, elle o nam quis fazer. Antes no primeiro conselho que sobre este caso teve, ho viram chorar muytas lagrimas e dizer pallavras de compayxam e sentimento, mostrando que desejara muyto achar ao duque boa desculpa como homem mais cheo de piedade que de yra nem rigor, acusando a Deos seus pecados propios, reportando estas cousas a elles como virtuoso e catholico principe que era; e tomou por concrusam que o caso se visse e determinasse por justiça.