Anais da Ilha Terceira/I/X

Anais da Ilha TerceiraTomo I por Francisco Ferreira Drummond
'Segunda Época' - Capítulo IV — Álvaro Martins Homem, e João Vaz Corte Real entram no governo de suas capitanias. Procedimento destes donatários.

Dividida a ilha e terminadas as questões entre os dois donatários, se transportou à sua capitania da Praia Álvaro Martins Homem com sua mulher Inês Martins Cardosa, que era filha de Martim Anes Cardoso, fidalgo da casa dos Infantes, e seus filhos Antão Martins Homem, Luiz Martins, que faleceu solteiro, e Inês Martins, a qual casou com João de Galegos, que alguns afirmam ser o primeiro contador da fazenda em Angra, no tempo de João Vaz. E ali estabelecidos, como à porfia, rivalizarem no melhoramento e cultura das terras e dos estabelecimentos públicos da capitania, não só em oposição a João Vaz, que ostentava de mais rico, senão ainda para suavizarem a mágoa de serem transferidos para esta parte, que lhes não oferecia tantas comodidades como a de Angra.

O governo deste donatário na parte da Praia forma uma perfeita lacuna histórica. O Doutor Gaspar Frutuoso, no Livro 6.º, Capítulo 8.º, alegado pelo padre Cordeiro, conta uma grande falta de embarcações de Portugal, em tempo deste capitão, e por mais de 8 anos; dizendo que fora muito sentida especialmente no vestir, porque de comer já havia bastante na ilha. Porém, segundo as combinações que temos feito, concluímos que isto não é exacto quanto ao tempo. Eram tão fortes os pleitos naquela época, e tão poderosas as partes, que não deixariam do ter embarcação disposta ao seguimento dos recursos; e vemos que neste tempo mandou a Infanta uma carta para se fazer povoação em forma, e defensável, na terra de Sancho Rodrigues, como consta do auto de protesto (— Documento G —) datado de 6 de Setembro de 1482, em execução o daquela carta precisamente de data mais antiga: por consequência, no espaço que vai de 1475, em que governava Diogo de Teive, como se vê da demanda de João Leonardes, ao de 1480, em que já governava João Vaz, nem decorreu esse espaço de 8 anos, nem deixou de se receber embarcação de Portugal, visto ser por este mesmo tempo que veio o dito João Vaz governar a sua capitania, e andar em acção a importante demanda a respeito da Serra de S. Tiago, de que necessariamente haveriam recursos para a corte, demanda que pessoalmente solicitava Duarte Paim, existente na ilha naquele ano de 1482 em que lhe foi intimado o protesto. E porque, finalmente, neste mesmo ano faleceu o donatário Álvaro Martins, é manifesto o equívoco de Frutuoso, contando este sucesso como acontecido em tempo que ele era donatário da Praia; parecendo antes que essa interrupção tivera lugar na dezena de 1460 a 1475, quando ele ainda habitava em Angra, e se representa a ilha, como já dissemos no Capítulo II, em estado de perfeito abandono.

Também não parece exacto o que se conta relativamente ao desembarque dos castelhanos na baía da Praia, logo em princípio da povoação, como refere o mesmo Frutuoso, dizendo que eles, andando no saque, foram espantados do reboliço de uma árvore de onde caíra um português, e cuidando ser todo o sertão que sobre eles vinha, largaram as armas e trouxas para se embarcarem, e com elas foram mortos sem excepção alguma. A nosso ver este facto é inverosímil e fabuloso. Muitos eram os portugueses que neste lugar havia; mais depressa pegaram nas armas do inimigo; mui a salvo ganharam os batéis, e matariam a todos os castelhanos! Mas onde estaria essa armada a que estes pertenciam, que não apareceu a saber dos seus? Isto é o que se não conta nem se diz como tal afronta foi vingada. Ora de bom grado convimos que se fizesse por ali algum desembarque, bem próximo aos anos de 1482, e por isso a Infanta mandaria acautelar a povoação num ponto defensável; mas nunca esse desembarque seria tão hostil como se figura, pois que já se deveriam tomar outras providências; e na dita carta se apontaria o lugar do sucesso, e mais circunstâncias, que se não encontram no referido protesta de 6 de Setembro de 1482 (Documento G).

Continuando Álvaro Martins Homem a doar as terras aos muitos que nestes anos concorriam à capitania com a fama da sua grande produção, quase toda ela em poucos anos foi povoada, e se fizeram algumas igrejas paroquiais[1] nesta capitania, com os mantimentos constantes do alvará (Documento I), que lhes foram depois assinados; e falecendo no ano de 1482, lhe sucedeu seu filho Antão Martins Homem, que foi confirmado na posse da capitania em 26 de Março de 1483, como se vê do Documento H. Sabe-se que sua mulher Inês Martins Cardosa, lhe sobrevivera; porém ignora-se quando faleceu.

Uma grande personagem se transportou à Praia no tempo de Álvaro Martins Homem, e, segundo alguns escritores, para servir de seu lugar-tenente, e ouvidor, a qual foi Afonso Gonçalves de Antona Baldaia, já mencionado. Era este natural da vila de Almada, e fidalgo da casa dos Infantes, assim como sua mulher Inês Gonçalves, dama do paço. Tomou duas datas de terras, uma entre a Ribeira dos Pães e a Ribeira da Areia, até à ponta da Serra do Paul, a qual deu a seu filho Pedro Afonso, que nela fez assento: outra desde a Praia, pela Cruz do Marco, e Ribeira de Santo Antão, linha recta a dar ao cimo da mesma Serra, e pertenceu aos mais herdeiras. Mui vasta descendência houve de tão distinto português, de forma que bem poucas famílias antigas haverão na ilha que dele se não prezem de trazer a sua origem.

Havendo cedido as suas casas nobres e sítio que tinha em Angra para os religiosos Franciscanos melhor se estabelecerem, também na Praia ofereceu ao nobre frei Simão de Novais o campo, onde ele no ano de 1480 fundou o convento velho, ao Poço do Milhafre, e junto de suas moradas, com o número de 15 frades. Então a matrona Catarina Franca, mulher de Sebastião Cardoso Homem, o qual ainda no ano de 1533 servia de juiz dos órfãos, instituiu a capela-mor[2].

Por tão amplas e religiosas liberalidades para com os Franciscanos, apelidaram dali por diante o dito Baldaia — o Velho de S. Francisco — e assim é reconhecido nos autos públicos. Pouco tempo viveu na Praia: e, em razão de sua vida exemplar e religiosa, faleceu com opinião de santidade[3]. Jaz em Angra na casa do capítulo dos Franciscanos, onde eram depositadas as pessoas de maior qualidade, para gozarem dos privilégios concedidos a semelhantes casas. Sucedeu-lhe na ouvidoria o fidalgo Álvaro Lopes da Fonseca.

Quanto ao capitão João Vaz da Costa Corte Real, ficou regendo a capitania da parte de Angra, estabelecido aí com sua mulher Maria de Abarca, e filhos Vasco Anes, Miguel, e Gaspar Corte Real; e com as filhas D. Joana, que depois casou com Guilherme Moniz, D. Iria que foi morta por seu marido Pedro de Góis da Silva, D. Isabel que casou com Joz de Utra, capitão do Faial. A sua grande representação, e a de seu colega, o dito Álvaro Martins Homem, atraíram à ilha muitas pessoas nobres, que se transportaram do Reino, ilha da Madeira, e ainda de países estrangeiros.

A estes se deram terras de sesmaria, e foi tal o progresso da agricultura, e aumento da povoação, que admirou. Em consequência do que logo foram habitados todos os lugares de beira-mar e fundadas a maior parte das igrejas paroquiais.

Viveu João Vaz Corte Real em Angra com grande estado, aplicando-se ao comércio, e às grandes obras que em seu tempo se começaram, como foram o completo encanamento da ribeira que atravessa a cidade; o Castelo dos Moinhos, que hoje se chama Praça de D. Pedro IV, mandado edificar conforme o plano do provedor das fortificações Pedro Anes Rebelo[4], como se verá adiante no Capítulo VI; as muralhas, a casa de alfândega; a capela-mor do mosteiro de São Francisco, cujo padroeiro foi ele mesmo João Vaz Corte Real; o hospital de Santo Espírito, criado por alvará de 15 de Março de 1492, e outras obras que em seu tempo se fizeram.

O Duque D. Diogo o confirmou[5] na capitania em 3 de Maio de 1483; e depois dele o Duque D. Manuel, a 6 de Abril de 1488. E não se havendo concluído o referido castelo, pelos anos de 1490, o mesmo Duque D. Manuel lhe fez mercê da alcaidaria-mor dele, e da ilha de São Jorge[6], por alvará de 19 de Maio de 1495, como se manifesta da cópia constante do Documento L, de cuja mercê tanto se prezou João Vaz Corte Real, que lhe pôs uma pessoa de respeito com soldo e título de tenente, obrigando-a a nele residir; e foi o último, pelos anos de 1620, D. António Laranjo, ou Naranjo, pai do respeitável Mestre frei Fernando Naranjo, reedificador do mosteiro de São Francisco.

Os ouvidores, que com João Vaz serviram, segundo consta da demanda de João Leonardes, foram Vasco Afonso e Afonso de Matos.

Sem embargo de tão úteis e edificantes ocupações, os mui largos poderes de que gozava lhe fizeram aberrar dos caminhos da justiça e da equidade; do que são provas a maneira com que se ingeriu na posse das terras dadas em tempo de seu antecessor Jácome de Bruges, e seus adjuntos, doando-as a quem lhe parecia.

Tal foi a injustiça que praticou com João Leonardes, o Velho, privando-o da grande propriedade chamada das Contendas, que no ano de 1475 lhe dera de sesmaria Diogo de Teive, e que João Vaz Corte Real escandalosamente, no ano de 1480, doou a seu filho Gaspar Corte Real, como atrás fica dito.

Por igual motivo disputou à mão armada, ele e seus criados e filhos, com o valente companheiro do capitão Bruges, Gonçalo Anes da Fonseca, pretendendo estender os marcos da sua capitania à Ribeira Seca, onde este havia tomado sua data e habitava; e foram tão decididos e terminantes os resultados, por várias vezes, que o esbulhado Gonçalo Anes da Fonseca foi preso, recolhido no Castelo dos Moinhos, única segura prisão da ilha, e nele esteve recluso 8 anos, até que, por solicitação de João Rodrigues de Badilho, chegou uma provisão ordenando aos juízes ordinários da vila da Praia que fossem com as varas nas mãos ao lugar onde se achava, e o restituíssem a sua casa. Em reconhecimento do que o mesmo Gonçalo Anes em seu testamento recomendou a seus filhos que, em lembrança daquele estremado serviço, conservassem sempre estreita amizade com a família do seu benfeitor, o dito João Rodrigues de Badilho[7].

O mesmo procedimento praticou injusta e desumanamente contra João Coelho, outro companheiro do capitão Bruges, que havendo tomado uma grande data de terras em que se compreendia o Pico de D. Joana, lha tomou depois de arroteada, dispondo dela à sua vontade[8]. Do que tanto se deu por ofendido João Coelho que, alguns anos depois, preparando um navio com gente à sua custa, saiu em descobrimento de novas terras, imitando seus irmãos Nicolau Coelho, Egas Coelho, e Duarte Coelho: e suposto que lograsse o intento da empresa, dando com terras desertas na parte do sul, naufragou naquelas costas, perecendo com ele todos os seus, excepto dois marinheiros, que à ilha voltaram com a triste nova deste sucesso[9].

Apesar de tamanha usurpação, ainda a viúva de João Coelho, Catarina Rodrigues da Costa, prestando inventário, nele descreveu 32 moios de terra; e suposto que muito velha casou com João Álvares da Silva, juiz dos órfãos, vindo a falecer no ano de 1521, e deixando muitos filhos do dito seu primeiro marido. Para sustentar posses tão injustas, e litígios de tanta importância, não haviam justiças na ilha que despachassem contra João Vaz; tudo eram suspeições, tudo agravos, não só em sua vida senão ainda no tempo da viúva Maria de Abarca, e filhos do doado Gaspar Corte Real.

Faleceu o donatário João Vaz da Costa Corte Real no ano de 1496, e jaz sepultado na capela-mor do referido mosteiro de São Francisco, com sua mulher D. Maria de Abarca, que lhe deixou o legado de 10$000 réis por seu falecimento, já depois do ano de 1510. Sucedeu-lhe seu filho Vasco Anes Corte Real, de quem falaremos no Capítulo seguinte.

NotasEditar

  1. Adiante diremos quais as igrejas que supomos que ele fez.
  2. Não achei no livro do tombo deste convento, declaração alguma pela qual conste que Afonso Gonçalves de Antona cedesse a ermida de Nossa Senhora da Conceição para nela se encabeçar a igreja deste convento; antes acho ser Catarina Franca, mulher de Sebastião Cardoso Homem, a instituidora da capela-mor, e nesta qualidade por sua alma se celebrarem certos legados. Assim também consta do manuscrito do Mestre frei Diogo das Chagas. Mas o campo onde se formou o convento novo em 1600 foi doado por Diogo Paim da Câmara, o segundo do nome, e a cerca por D. Catarina de Sousa.
  3. O citado M. frei Diogo das Chagas assim o relata, mas não se sabe em que ano faleceu este venerando velho.
  4. O genealogista António Correia da Fonseca de Ávila diz que este Pedro Anes fora mandado pelos Infantes prover nas fortificações, e casara com Isabel Dias Vieira, filha de Diogo Álvares Vieira, primo co-irmão de Maria de Abarca, mulher do capitão João Vaz em cujo tempo veio à ilha: que fizera o castelo dos Moinhos, e fora o primeiro governador dele, ainda antes que João Vaz obtivesse mercê dele pela carta constante do Documento L.
  5. No 1.º Livro da Câmara de Angra, de fl. 312 verso usque fl. 319, acham-se copiadas estas cartas a requerimento de Manuel Corte Real.
  6. Dito Livro, a fl. 321.
  7. Consta de um manuscrito em poder do excelentíssimo visconde de Bruges, e parece ser letra do Mestre frei Diogo das Chagas.
  8. Dizem que a doou a Guilherme Moniz para casar com sua filha D. Joana, de onde o pico tomou o nome.
  9. O autor do Espelho Cristalino, o dito Mestre Frei Diogo das Chagas.