Anais da Ilha Terceira/I/XXXIII

Anais da Ilha TerceiraTomo I por Francisco Ferreira Drummond
'Quarta Época' - Capítulo XIII — Chega o marquês de Santa Cruz com a última armada à ilha Terceira, oferecendo-lhe amnistia geral. Rejeitam seus defensores aceitá-la, e defendem-se vigorosamente. Desbaratados em fim, entreguem a ilha à discrição do vencedor. Esforços inúteis do conde Manuel da Silva para se evadir da ilha

Saiu de Lisboa a armada católica a 26 de Junho de 1583; constava de 12 galeras, dois galeões, e mais de 31 naus grossas, barcos e baixeis de menor grandeza, fretados a diferentes nações. Embarcaram-se nesta poderosa armada 10 000 soldados velhos espanhóis, 1 600 alemães, duas companhias de italianos, e uma de portugueses. Serviam de mestres de campo D. Lopo de Figueiroa, D. Francisco de Bobadilla, e D. João de Sandoval, irmão do marquês de Denia. Ao regimento dos alemães comandava o conde Jerónimo de Londrom, aos italianos Luiz Pignatelli e Ludovico Afflicto, aos portugueses D. Félix de Aragão; e era general de mar e terra o marquês de Santa Cruz, D. Álvaro de Bazán.

A 3 de Julho descobriram a ilha de S. Miguel, e por serem os ventos mais escassos, como a esquadra se não podia aproximar da terra, e não queria demorar-se, enviou o marquês um barco com ordem ao mestre de campo Agostinho Ignigues, para que este com os 2 000 espanhóis que no ano antecedente haviam ficado naquela ilha, se embarcasse nas galeras ancoradas no porto de Ponta Delgada. Porém fazendo o marquês força de vela, a 19 de Julho entrou em Vila Franca, a tomar artilharia, bestas, munições de guerra, e outras coisas, passando logo depois àquele porto da cidade onde uma parte da armada tinha fundeado. Mandou igualmente para bordo os 5 soldadas que tinham ido da Terceira àquela ilha saber notícias, os quais ele muito folgou achar no intento de os remeter com embaixada ao conde. Dispostas ali do melhor modo as coisas, com tão poderosa armada e tanta gente de guerra, se animou o marquês a voltar sobre ilha Terceira, para a qual, em razão do vento noroeste, não pode navegar antes do dia 22 de Julho[1].

No dia 24 de Julho aproximou-se da ilha e foi visto pela parte do norte, de forma que às 9 horas do mesmo dia se achavam as galés sobre a praia da vila de S. Sebastião, onde se diz o Porto Novo[2].

Tocou-se logo na vila da Praia a rebate, pondo-se em ordem de guerra toda a milícia; e o mesmo se fez em S. Sebastião e na cidade, em cuja praça mandou o conde ajuntar os carros de artilharia e a gente de cavalo, comandada pelo esforçado Gaspar de Goão. Assim também passou revista à infantaria de toda aquela vasta capitania, e a seus comandantes, estando presentes os cirurgiões e capelães do exército. E outrossim mandou para ali as munições, bagagens e os necessários mantimentos para vários dias; o que tudo andava prevenido há muito tempo. Em toda a costa mandou o conde pôr vigias. Contudo já a pequena guarnição que se achava nos fortes[3] de S. Sebastião, Pesqueiro e S. Francisco tinha logo feito sinal, batendo com muita e mui grossa artilharia as galés, quando se aproximaram daquele porto.

Chegando o marquês defronte de Angra, achou no seu porto ancorada a frota em que tinha vindo o comendador de Chaste, e bem assim outros navios de mercadores; e indo dar fundo na enseada que chamam das Mós[4], começou a reconhecer a ilha; em consequência do que achou não estar ela menos fortificada do que lhe tinham informado. Em todo aquele dia 24 de Julho, durante a noite, e no dia imediato, que era o do Apóstolo S. Tiago, se entendeu em reconhecer a situação e estado da mesma ilha.

Os mestres de campo D. Francisco de Bobadilla, Agostinho Ignigues e outras capitães, cada um de per si, e algumas vezes juntos, se ocuparam deste exercício. O mesmo marquês, com D. Cristóvão de Eraso, guiados por Aleixo Pacheco de Lima, Melchior Veloso, Diogo Gonçalves Ferreira e Domingos Álvares, pessoas da governança da referida vila de S. Sebastião, andou de noite sondando a baía e observando onde havia menos morrões acesos, lugares e pedras mais convenientes ao desembarque do exército[5]. E apesar dos diferentes pareceres a este respeito, achou ser melhor porto o denominado das Mós, abaixo da vila de S. Sebastião, distante duas léguas de Angra e uma da vila da Praia. Mandou portanto o marquês bloquear o porto de Angra por quatro galeras a fim de que os navios não saíssem a perturbá-lo.

Começando no reconhecimento da ilha, logo guarnição dos fortes lhe havia atirado muitas descargas de artilharia, que lhe não fizeram dano algum; motivo por que ele disso não fez caso, antes mandou que a armada não tomasse vingança alguma do insulto que se lhe fazia: e querendo intentar todos os meios de pacificação, enviou um trombeta a terra, convidando os seus moradores para aceitarem perdão de vidas e fazendas, navios para os estrangeiros se embarcarem e saírem com suas armas, bandeiras e tambores; porém cruelmente o fizeram retroceder, disparando-lhe muitos tiros de artilharia.

Esta resposta assaz dura muito magoou o coração do marquês, pois estava persuadido de que à vista de poder tão formidável as defensores da Terceira abandonariam o projecto de a defender. Mas para que do perdão constasse em toda a ilha, e não tivesse ele de que arrepender-se, furtivamente, de noite, lançou em terra dois daqueles soldados que tomara na ilha de S. Miguel e que desta ilha tinham ido saber a notícias, entregando-lhes cartas para o conde e mais pessoas da governança, com a cópia da amnistia geral, prometendo-lhe ainda por esta vez outros partidos bem vantajosos a todos eles. No entretanto os galeões e galés de armada tinham amanhecido entranhados na mencionada Baía das Mós, esperando a resposta das cartas; e as outras embarcações estavam aproximadas à pedra em diferentes partes da costa do sul, tornando incerto o desembarque do inimigo.

Achava-se o conde neste dia ao portão de S. Bento, extra-muros de Angra, com a gente de cavalo, pois havia destacado a maior força na Praia; e chegando ali os dois emissários, lhe entregaram a ele próprio, como lhes era determinado, as cartas do marquês, as quais ele aceitou, abriu, e leu em silêncio. Acabando porém de as ler, voltou-se para a gente de guerra, nobres e magistradas da cidade, e lhes disse que naquela a apenas vinham 7 000 homens, força que os não devia intimidar: e dirigindo-se aos portadores das cartas acrescentou que fossem dizer ao marquês que ele, confiada em Deus, esperava repelir as forças castelhanas, e ver antes de um ano restaurado Portugal.

Com esta altiva e terminantíssima resposta despediu os dois enviados, que logo se recolheram à armada onde os esperava o marquês, o qual vendo assim desprezada a sua proposta, assentou tentar o desembarque por ali no dia seguinte, que era o da gloriosa Santa Ana, 26 de Julho de 1583, considerado, por muitas razões que bem o convenceram[6], ser mais conveniente pelejar contra a dificuldade da natureza do que contra os reparos de arte.

Determinou, portanto, que, sem perder tempo, as galeras, caravelas, e outros navios pequenos, em diversas partes da costa do sul, acometessem a ilha com ataques falsos, inquietando e dividindo os inimigos, especialmente a Praia, onde era de supor o desembarque, com o fim de que, marchando a defendê-la o conde, deixasse franca entrada ao exército na sobredita enseada das Mós, como efectivamente aconteceu, porque achando-se ali cinco companhias, uma de franceses e quatro de portugueses, duas destas fez o conde marchar para o forte de Santa Catarina do Cabo da Praia, deixando as três, que não eram guarnição suficiente para este ponto.

Perseverava o conde Manuel da Silva em defender a ilha, repartindo a gente em seus postos, e contudo Mr. de Chaste não se agradava do plano estabelecido para a defesa. Parecia-lhe que havia pouca gente para defender tantos fortes retirados uns dos outros, de forma que o primeiro não podia socorrer o último, nem ainda o do meio, pela grande distância e aspereza dos caminhos. Propôs se formasse um esquadrão volante, para acudir aonde conviesse; mas não havia gente para isso, pelo muito que havia a defender[7]. Assim para remediar de alguma forma aquela falta, e se darem prontamente os avisos, puseram sobre as montanhas alguns sinos para neles tocarem a rebate.

Todavia, ainda que o conde estava deliberado a defender-se, tinha mandado fazer no Porto de Pipas, de Angra, uma caravela mui ligeira, dizendo que era para os avisos; o que deu lugar a suspeitar-se e falar-se mal dele em público[8], pelo empenho que mostrou na construção dela, assistindo quase efectivamente no porto até ser de todo acabada.

Certo o marquês de Santa Cruz de que não havia mais que esperar, depois de tentar vários acometimentos em diferentes postos da ilha para distrair os defensores, na noite de 25 para 26 de Julho destacou 4 000 homens escolhidos, entre os quais se contavam alguns alemães, italianos e portugueses, entregando esta força aos mestres de campo D. Francisco de Bobadilla e Agostinho Ignigues, que logo com ela e com o mesmo marquês se embarcaram nas galés, batéis e outros navios pequenos, remando em direitura ao Porto das Mós, onde chegaram ao romper de alva, sem de terra serem vistos, deixando ordem para que os seguisse o resto do exército. Estava o mar em grande bonança, e em diversas partes se tocava a rebate porque, como fica dito, alguns navios fingiam querer lançar gente na ilha. Achou ali o marquês três fortes[9] cercados de grossa muralha, tudo em melhor estado do que se lhe afigurava ao longe.

Ao aproximar das embarcações dispararam toda a sua artilharia, com o fim de efectuarem o desembarque mais a seu salvo ao abrigo da fumaça; o que sem causar dano algum aos defensores daqueles fortes, os advertiu de que o inimigo intentava efectivamente desembarcar naquele ponto; em consequência do que acorreram logo à defesa. De todas as partes começou um fogo violentíssimo, e a Baía das Mós tornou-se um teatro de horrores.

Achava-se naquele posto uma companhia de franceses, da qual era comandante Mr. Burgunham, e duas de portugueses, a saber, a dos Biscoitos, de que era capitão António Álvares Rafael[10], e a da vila de S. Sebastião, comandada pelo capitão Domingos de Toledo, que também era comandante do forte de S. Sebastião no posto daquela vila[11]; e em todas estas companhias não havia mais do que 200 homens.

Apesar de ser esta guarnição tão diminuta para defender os três fortes que ali havia, enquanto os soldados castelhanos e estrangeiros, com nobre emulação entre si, lançavam as pranchas, e lutando com o perigo da água, com a dificuldade da subida e com os inimigos, procuravam ganhar a frente, os defensores do forte[12] descarregavam sobre eles um chuveiro de balas e de metralha, com morte de muitos de seus inimigos. E sem embarga de que o assalto se dava desordenadamente, por não o permitir melhor o lugar, os mestres-de-campo referidos, Bobadilla e Ignigues, à testa dos soldados animosamente porfiavam escalar o forte.

Aqui se distinguiu mui singularmente, e perdeu a vida, o capitão Rosado, valente espanhol, que já na batalha naval de S. Miguel assinalara o seu nome por acções de grande militar. Também ganharam fama de valorosos guerreiros os capitães Manuel da Veiga, Agostinho de Herrera, D. António de Passos, D. João de Luna, e outros nobres espanhóis e soldados conhecidos das diferentes nações que seguiram esta empresa, não sendo os portugueses os últimos[13].

Quanto aos defensores do forte, procedeu com tanta bizarria o comandante dos franceses, o dito Mr. Burgunham, que ferido de muitas balas, e próximo já a morrer, até de joelhos pelejou. Com igual valor se houve o capitão dos Biscoitos, António Álvares Rafael, e a não ser tão grande a força que sobre a sua companhia veio, nunca arredaria pé do campo. Da mesma forma procedeu o dito capitão Domingos de Toledo, que só ficou prisioneiro quando ferido gravemente caiu por terra.

Porém, conseguindo os castelhanos desmontar uma peça de peão que no forte havia, e que tanto estrago lhes causara, desanimaram os defensores do forte, e a companhia da vila de S. Sebastião foi retirando e pelejando frouxamente, enquanto o capitão dos Biscoitos, António Álvares Rafael, sustentava com a sua gente o ímpeto dos inimigos que de todas as partes caíam sobre ele; e finalmente vendo lhe matavam muita gente, e que tocando-se rijamente a rebate não chegava socorro algum, desamparou o lugar, ficando somente os franceses, os quais, morto o seu capitão, ainda resistiram por muito tempo até lhe restarem unicamente 11 soldados, vendo-se de mais a mais desamparados dos portuguesas, abandonaram o campo; de tal forma que em menos de uma hora ocuparam os castelhanos aquele forte e trincheiras adjacentes.

Conhecido o assalto pelo som dos sinos e fogos postos sobre as montanhas, marcharam imediatamente as tropas que se achavam destacadas em diversos pontos da ilha: e não se demorou o conde Manuel da Silva com a maior força do exército, que com ele estava guarnecendo a baía da vila da Praia; porém, a meio caminho, sabendo achar-se o inimigo já em terra e senhor dos fortes, fez alto sobre a Ladeira da Vigia, na vila de S. Sebastião, de onde avistava o arraial castelhano, e tratou de pôr em ordem a gente que se lhe vinha reunindo para descer sobre ele oportunamente.

Já naquele tempo o marquês D. Pedro de Toledo, D. Cristóvão de Eraso, e outros grandes cabos de guerra, se achavam com o marquês de Santa Cruz à frente das muitas tropas que sucessivamente iam desembarcando em terra. E segura a retaguarda pela parte do mar com o bloqueio às embarcações surtas no porto de Angra, tratou o dito marquês de formar um grande esquadrão de todas as nações para resistir aos portugueses. Como estes se demoravam, teve mais lugar de melhorar-se, formando o seu campo de 5 000 homens de guerra. Continuando o desembarque muito a seu salvo, às 10 horas da manhã tinha posto em terra 16 000 homens com 6 peças de campanha, força mui superior à da ilha, e em tal ordem e disciplina que era muito para temer.

Ao meio-dia em ponto estavam por parte da ilha incorporados 8 000 portugueses, franceses e ingleses, e tinha ficado em Angra uma suficiente guarnição, a cargo dos capitães Miguel da Cunha, Sebastião do Canto, que servia em uma fortaleza, e Tomás de Porras Pereira. Na vila da Praia deixou o conde duas companhias. Achava-se também no seu campo 400 homens de cavalo; e em todos os corpos deste exército reinava o maior entusiasmo de valor, tocando caixas, pífaros, tambores e outros instrumentos bélicos, dispondo-se já cair impetuosamente sobre o inimigo.

Destinava o conde acometer o campo do marquês com todas as suas forças; e contudo sobre isto houveram diferentes pareceres, decidindo-se finalmente que por ora se destacasse gente a escaramuçar e impedir a fortificação, e que ao mesmo tempo se cortasse a marcha sobre a estrada da beira-mar, que vai ao caminho da Salga, por onde ele podia facilmente recolher-se à cidade; enquanto o conde estendia uma linha para encadear as duas montanhas com o vale, tomando a frente do inimigo, de forma que lhe não restasse esperança de salvamento senão retirando-se outra vez ao mar.

Neste projecto destacou a Mr. de Chaste com os seus franceses para assenhorear-se do Pico dos Cornos, ao levante do arraial inimigo; e ordena ao capitão António da Silva que com 2 000 portugueses ocupasse as faldas do Pico das Contendas da parte do poente, defendendo a sobredita estrada da beira-mar; no entretanto ele conde com o resto do exército defendia o centro do vale, postando-se no campo plano a que chamam Tabuleiros, lugar eminente, no princípio do qual estava o marquês senhor dos fortes e terreno a eles contíguo.

Não cessavam as escaramuças na vanguarda dos exércitos, com grande valor de parte a parte; e sendo conhecida a vantagem da gente da ilha, pelo uso das lanças e dardos com que duas vezes tinham ganhado as primeiras trincheiras, e da terceira vez chegado às segundas, ordenou o marquês prover os seus de um grande número daquelas armas, com que em breve tempo repeliu e fez retirar os nossos por estarem já muito cansados da vigília da noite e trabalho daquele dia. Sem embargo que não ganhou o marquês terreno algum para a frente, ainda que bem mostraram ser homens de experiência e valor (segundo Herrera) Manuel da Veiga, Agostinho de Herrera, Vicente Castellolin, Juan de Texeda, Luiz de Guevara, D. António de Passas Souto Maior, D. João de Luna e outros muitos.

Às 4 horas da tarde mandou o conde trazer 2 000 vacas, e determinou que amarradas em cobras fossem lançadas sobre o exército do marquês, pensando obter o mesmo feliz resultado que no ano de 1581 conseguiu o governador Figueiredo no campo da Salga. Foi este um estratagema que não aprovou Mr. de Chaste, argumentando contra ele porque, além de ocioso e irrisório, inculcava pusilanimidade no seu autor; acrescentando que o marquês, tão experimentado nas coisas da guerra, não ignoraria o meio de frustrar semelhante engano; e de mais a mais, que não faltaria quem dissesse ser isto um oportuno refresco de víveres enviado ao inimigo.

Não deixava o conde na verdade de se persuadir da força destes argumentos, e bem quisera ele atendê-los e respeitá-los, se não estivesse resolvido a valer-se de todos os meios, quaisquer que eles fossem, para assegurar-se da vitória.

Via também o conde ser aquele estratagema reclamado em altas vozes, e aplaudido pela maior parte das tropas a seu comando, por entender que com o abrigo do gado teria grande vantagem para medir-se com os castelhanos braço a braço.

Pelo que, não aguardando mais tempo, mandou o conde pôr o gado na vanguarda do exército, e após ele a cavalaria e a infantaria; e de todos os lados investiu o exército castelhano, cuja maior parte ocupava o meio do vale ao poente.

Contra inimigo tão furioso e indómito não havia mais resistência a opor: cerrar colunas e formar quadrado seria o mesmo que opor-se a uma impetuosa torrente que tudo arrasa; pelo que a uma voz, e ao mesmo tempo e sinal, mandou o marquês abrir as fileiras, dando franca passagem ao gado, e esperou com a maior intrepidez o encontro da cavalaria e infantaria que vinha atrás do gado. Travou-se portanto ali uma cruel batalha, que depois de grande mortandade de uns e de outros, com a interposição da noite, deixou incerta a vitória, e sofrendo a espanhóis um prejuízo considerável de algumas peças de artilharia que os nossos tinham em bons postos, mas os portugueses perderam o valente general António da Silva, sobrinho do conde[14].

Vendo então o marquês perigo em que se achava, mandou outra vez bolatim, oferecendo ainda os mesmos partidos que de antes oferecera[15]; e porque disto não fez caso Manuel da Silva, preparou-se o marquês para no dia 27 experimentar o último resultado de suas armas.

Em todo aquele dia 26 de Julho não se observou no conde o menor sinal de abatimento, antes pelo contrário ordenou que todos estivessem prontos, porque naquela noite mandaria conduzir para ali 50 peças de artilharia, e com elas pretendia cercar o inimigo e desfazer-lhe as trincheiras com menos perigo da sua gente, que já se achava senhora das melhores posições. Muito bem pareceu esta proposição, em consequência da qual se tranquilizaram os ânimos de todos, esperando com impaciência o dia seguinte. Mas nada disto aconteceu porque o conde, possuído de medo, se não mostrava já o mesmo homem corajoso: em vez de pôr os últimos esforços ao combate, cuidava só em procurar meios de se evadir da ilha para fora; para o que, perto da noite, havia mandado buscar a caravela ligeira, construída, como fica dito, no porto de Angra, dizendo que era para sair a reconhecer 80 velas que apareciam ao norte da ilha. Invenção tão manifesta não pôde escapar à inteligência e vigilância os capitães das fortalezas de Angra, que, atirando sobre dita caravela, a não deixaram sair do porto.

Não eram vãs estas suspeitas porquanto Manuel da Silva estava tratando com os franceses para eles abandonarem o seu posto logo que sentissem uma peça de recolher; e quando esta se ouviu, logo se conheceu que a detença do conde em chegar com a artilharia prometida não podia ter outra causa senão a cobardia ou traição. Já neste tempo o marquês de Santa Cruz sabia os passos do conde, porque um Diogo Dias, natural de Angra, ouvindo lá o que se contava a respeita da caravela, foi a cavalo ao arraial do marquês contar-lhe o caso; do que ele ficou mui contente, e desde já contando com a posse da ilha.

Retirados assim os franceses de seu posto, logo ao amanhecer deram os espias do marquês pela falta, e se foram estendendo e apoderando dele, enquanto sobre o arraial dos portugueses, na encosta do Pico das Contendas, da parte do nascente, vinham alguns soldados de cavalo, gritando em altas vozes: — Traição, traição!.

Os mesmos soldados não só davam a infausta notícia da fuga do conde, chefe do exército, da de Mr. de Chaste, dos franceses e ingleses, mas também certificavam a ausência da maior parte do corpo de reserva, e desordem que nele havia. Em consequência do que persuadiam a uma pronta retirada, porque já o inimigo os vinha cercando, sem remédio algum de se opor a tamanha força com só 2 000 homens, que tantos existiam ali dispostos a morrer pela sua independência, e muito mais tendo perdido o seu valente general, António da Silva.

Em tal extremidade devia o conselho ser breve; e ainda que alguns eram de parecer vendessem aos castelhanos bem caras as vidas, certos de que o marquês levaria tudo a ferro e a fogo pelas ofensas e danos que lhe haviam causado, não faltaram os clamores de muitas mulheres, de filhos e parentes, que altamente gritavam aos seus para que se retirassem a suas casas a cuidar das vidas e fazenda. Igual serviço prestou naquela hora um religioso da Trindade, o qual, ferido e maltratado em cima de um cavalo, requeria em altas vozes, pelo amor de Deus, que não aguardassem mais ali, pois estavam já cercados, que o marquês era cristão, e El-Rei Filipe muito católico, e lhes havia perdoar, por ser isto ordem e estilo entre os reis cristãos. Com tais e tão fortes argumentos se resolveram os portugueses a retirada.

Tão rápida havia sido a marcha dos castelhanos sobre os nossos, que não houve já outro remédio, senão romper e avançar por entre eles com muitas mortes de parte a parte. Estando porém muito longe da estrada, e sendo altas as paredes dos cerrados, não podiam retirar-se, especialmente a cavalaria, que foi inteiramente derrotada. Imediatamente caiu nas mãos do inimigo a artilharia de campanha, com a qual os portugueses foram carregados e perseguidos; e assim a infantaria, as mulheres e os filhos dos soldadas, que ali haviam ido de noite chamar os seus pelas notícias que tinham a respeito do conde, quase todos experimentaram o rigor das armas castelhanas, e acabaram uns defendendo-se valorosamente, outros cedendo à violência das feridas que receberam[16]; sendo as terras e Pico das Contendas[17] o teatro sanguinolento de esta famosa batalha. Estes campos, semeados de balas, juncados de cadáveres dos vencedores e dos vencidos, adquiriram neste dia, por mais um motivo, a perpetuidade do nome com que vulgarmente são conhecidos.

Ficaram em fim vencidos os terceirenses, porque a vitória se declarou a favor do número e não do valor; mas nem por isso desfaleceram, antes como leais mostraram a constância de bons vassalos, com o crédito de não serem vencidos do interesse, que a mãos largas lhes oferecia El-Rei Filipe: entregou-os sim o desfalecimento e cobardia do conde Manuel da Silva; e por esta forma poderiam dizer afoitamente: — Perdeu-se tudo, menos a honra![18]. Valorosos, resolutos, e sobretudo fiéis aos seus soberanos, lutaram muito tempo os terceirenses com a Espanha inteira e suas armadas, para se não curvarem ao jugo, sendo necessário para os submeter toda a ciência e valentia do marquês de Santa Cruz e as forças colossais do seu comando[19].

Posto em marcha e exército do marquês, entra na vila de S. Sebastião, entre a qual e o mar se havia dado aquela sanguinolenta batalha. Lembrados os castelhanos da mortandade que no ano antecedente ali tinham sofrido, e não achando gente, vingaram-se em saqueá-la totalmente[20], e nisto se demoraram algum tempo, enquanto se lhe não veio reunir a divisão que fora em seguimento dos fugitivos comandados por Mr. de Chaste, o qual se retirou para o forte de S. Sebastião no Porto Novo, de que ainda estavam de posse os portugueses: afugentado daquele ponto, e de alguma forma maltratado, cuidou também de afastar de si a crueldade dos espanhóis, marchando a recolher-se no lugar da Agualva (mais de 4 léguas distante), procurando assim meios de tornar vantajoso o seu partido com os castelhanos, ou seguir a última sorte das armas.

Havendo o repousado, e feito dar sepultura aos mortos, no mesmo dia 27 de Julho de 1583, pouco lhe importando com a retirada dos fugitivos para a banda da Praia, marchou sobre a cidade de Angra. Na sua retaguarda vinham os soldados do exército e de armada saqueando tudo o que encontravam casas, nas estradas e nos campos; levando diante de si os móveis que lhe agradavam, semoventes, escravos de todos os sexos e prisioneiros com o intuito de negociarem com o seu resgate.

Já neste tempo se não sabia qual o fim do conde Manuel da Silva. Bem pudera este desditoso general retirar-se com os franceses, porque à imitação deles capitularia vantajosamente e obteria algum favor do marquês; mas porque a sua má fortuna o chamava ao castigo da cobardia e desalento com que se houvera na defesa da ilha, inquieto, cheio de medo e aterrado dos remorsos, não procurou outro remédio algum senão fugir, como fez, ganhando os montes com a maior parte dos soldados portugueses, os quais a poucos momentos o foram desamparando; e depois que perdeu todas as esperanças de salvar-se na caravela, que já dissemos mandara buscar ao porto de Angra, foi aos Biscoitos dos Altares, onde está o Porto da Cruz, para se evadir em um dos barcos de pescaria e passar à ilha Graciosa. Infelizmente não havia parte alguma na ilha Terceira, em que o nome do conde Manuel da Silva não fosse aborrecido e detestado; em consequência do que, prevenindo a sua chegada, as mulheres daquela freguesia foram ao varadouro dos barcos e os fizeram em pedaços, de tal forma que, chegando ali o conde, algumas horas depois, acompanhado de três criados e dois marinheiros, no intento de se embarcar com eles, achou baldados os seus passos. Nesta desastrosa situação, não lhe restando outra esperança de salvamento, procurou refugiar-se nos matos, onde passou alguns dias até ser preso, vivendo entre os horrores da mais triste miséria; porquanto de noite, se bem nos podemos explicar, sepultado em medonhas cavernas, e de dia trepando por entre escarpados rochedos, em que tudo quanto encontrava lhe servia de assombro e de horror.

NotasEditar

  1. Citado Herrera, no Livro 13, capítulo 10; e a referida Relação, no capítulo 79.
  2. Quanto ao dia em que chegou à Terceira esta esquadra há bastantes divergências: o autor da citada Relação e o padre Maldonado dizem que fora avistada da ilha a 22 de Julho; o padre Cordeiro e o citado Herrera dizem que fora a 24 de Julho. Parece-nos que os primeiros se enganaram.
  3. Destas fortalezas já fizemos menção no Capítulo IV desta Época.
  4. No fim de um vale que está situado entre o Pico das Contendas e o Pico dos Cornos, existe a profunda baía que se trata; tem logo à entrada, da parte do nascente, uma cadeia de ilhéus aos quais chamam da Mina, assaz conhecidos nas cartas marítimas; da parte do poente há uma ponta, que também dá o nome a este sítio, a Ponta de Santa Catarina das Mós.
  5. O citado Herrera atribui a direcção do marquês a este ponto, à insinuação dos 5 soldados que vinham a bordo da armada; porém o autor da referida Relação, no capítulo 82, concede a empresa a estes quatro cidadãos da mencionada vila, o que nos parece mais verdadeiro, em razão da importância que tiveram alguns deles, e mercês que ao depois obtiveram.
  6. Citado Herrera, Livro 13, capítulo 10, §2.
  7. Não faltou quem dissesse que por se não haver formado este esquadrão se perdeu o combate; e até desde que o conde cessou de atender às proposições de Mr. de Chaste, começou a suspeitar-se da sua fidelidade.
  8. Desta bem fundada suspeita foi vítima certo homem de Angra, por apelido o Cento e Vinte, que dizendo publicamente ser esta embarcação feita para o conde fugir, ele o sentenciou à morte, e muito apenas lhe moderou a sentença, mandando-o ir pelas ruas da cidade com uma mordaça na boca (suplício que por infâmia se fez a muitos) e depois de açoitado lhe mandou pregar a mão direita na chumbada que para esse efeito havia no pelourinho, atitude em que se conservou por espaço de 2 horas. A mão era pregada com um prego entre os dedos polegar e índex (citada Relação, no capítulo 81).
  9. Quais eram estes fortes, já se disse no Capítulo IV desta Época.
  10. Colhi esta notícia do importante manuscrito do Padre Maldonado.
  11. Na citada Relação, no capítulo 93.
  12. Ainda que em nenhuma parte achámos notícia de qual seria este forte, por algumas combinações que temos feito, e tradição de velhos que o ouviram a seus maiores, era o do centro da baía, que se chama — de Santa Catarina.
  13. Herrera, lugar citado.
  14. Cumpre observar aqui a contradição em que se acha o historiador Herrera com o padre António Cordeiro, no citado Livro 6.º, capítulo 29, §310 e §320; porquanto o dito Herrera faz menção desta batalha no dia 26 de Julho, e o referido padre Cordeiro trata dela no dia 27 de Julho. Parece que nos citados parágrafos ele seguiu algum autor do qual não temos conhecimento; todavia bem pouco crédito lhe deu ele, quando no §323, remetendo-se à Relação que hoje nós seguimos, por maior verdade teve o conteúdo dos capítulos 83 e 84 da mesma Relação, que não faz passar a batalha do dia 26 de mais algumas escaramuças, com que o conde entreteve o exército, sem querer dar batalha formal, intentando salvar-se de noite e fugir com os franceses e ingleses, com os quais de antemão se achava tratado.
  15. Citado Padre António Cordeiro.
  16. Calculou-se o número dos mortos castelhanos em 1 500 homens, e muitos feridos; e dos portugueses e mais tropas auxiliares, em igual número.
  17. A origem do apelido Contendas já ficou declarada na Segunda Época, Capítulo III.
  18. Tout est perdu hors l’honneur! — Assim se explicou El-Rei Francisco I de França, quando vencido na batalha de Pavia.
  19. Pufendorf, na tradução à História Geral e Política do Universo, Tomo 1.º, Livro 3.º, diz assim: Toutes ces conquêtes se firent sans aucune résistance: à la réserve de l’île Tercera, qu’il fallut prendre par force; et où les Français qui la voulaient secourir, perdirent une sanglante bataille.
  20. Disto achei memória no Livro dos Acórdãos da Câmara desta vila (fl. 41) pois dele constava que no ano de 1584, a 14 de Agosto, passando o corregedor Cristóvão soares de Albergaria correição aos vereadores, providenciou se provessem de certas coisas que faltavam ali (era tudo o que na dita Câmara havia para uso dela), as quais segundo lhe disseram, haviam sido saqueadas pelos castelhanos na ocasião de entrarem na ilha. Ainda no ano de 1602 se arguiu esta falta em correição do corregedor Leonardo da Cunha. Porém, o cartório da Câmara (excepto o livro mencionado no ano de 1579) e o do baptistério da igreja principal daquela vila decerto não foram saqueados, pois achei documentos da sua existência ainda muitos anos depois (veja-se na Primeira Época, a nota 5 do Capítulo VI). E não obstante achar eu três justificações em que por dito de testemunhas, e pelos anos de 1604, se provou o saque no cartório de resíduos e noutros da ilha, seculares e eclesiásticos, não me parece fora tal o destroço, como nelas se disse; porque, além de existirem até ao ano de 1832 muitos cartórios com papéis daqueles tempos, achei que todos os arquivos dos baptistérios de Angra (excepto o de Santa Luzia) conservam os assentos de 1583: e porque estes e aos do arquivo da Câmara se referem os nossos antigos cronistas, licenciado António Correia da Fonseca, e o padre frei Diogo das Chagas, que muito tempo depois escreveram, corre de pleno não ser exacta a fama de tal destruição no tempo que foi saqueada a ilha. Outros foram os delinquentes interessados nessa destruição; outros os fins. O tempo, as humidades a que é sujeita a ilha e o descuido das pessoas obrigadas a conservar os cartórios, são a causa de se haver consumido uma grande parte dos importantes documentos que hoje em vão se procuram, com ruína de muitas famílias. A reforma das nossas Ordenações em 1802 também daria motivo ao desprezo de muitos papéis; assim como aconteceu pela recente Reforma Judiciária no ano de 1832, que desprezou todos os processos de mais de 30 anos; do que resultou a destruição de cartórios inteiros, que ficaram suprimidos. E quem não dirá lá para o futuro que do nosso tempo foram saqueados os cartórios da ilha porque se não encontra papel algum processado hoje? Mas a causa é outra, muito diversa.