Anexo:Imprimir/A Morte da Águia

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Jaime Cortesão
 

A Morte da Aguia


Poema heroico em VII cantos

 

1910
Livraria Editora
GUIMARÃES & C.ª
60, Rua de S. Roque, 70

 
CANTO I

O DESPERTAR DE UM DEUS
 

O despertar de um deus

 

Nasceu a Águia na Montanha.
O ninho foi hórrida brenha
Numa caverna exposta aos ventos,
— Hirta e petrificada boca,
Por onde uma Sibila de voz rouca
Prediz ao Mundo os novos sofrimentos. —

Átrio do Céu, assenta numa rocha,
Que arranca da Montanha e desabrocha
Como uma flôr em plena imensidade;
Do pétreo calix, das entranhas virjens,
Sái um perfume tal, que dá vertijens,
Que a flôr tem por aroma a Tempestade.


Nicho de catedral, abandonado,
E penhascoso baldaquino armado,
Sem que um pobre santinho ali se acoite;
Ou donde foje algum lijeiro santo
Tentado pelo Céu, e vôa tanto
Que só recolhe lá por alta noite.

Átrio do Céu, pra que entre e saia o Dia;
É lá que a Aurora se atavia
Para mostrar ao Mundo o claro rosto;
Átrio do Azul que a Madrugada escolhe,
Tambem ali se acolhe
O derradeiro raio do Sol-posto.

De tam alto, sublime, etereo assento,
Com que arrebatamento
O olhar agudo se estendia ao largo:
Píncaros, vales, azulados montes...
Líquidos horizontes ...
O volutuoso abraço do Mar-largo ...!

Mal a Águia nasceu,
Fitou logo a Montanha, o Mar e o Céu:
Primeiro olhar, e de tal modo intenso

Que nunca o seu profundo coração
Sentiu Desejo, Dôr, ou Comoção,
Que envergonhasse aquele espaço imenso.

Olhar d’um deus que acorda
De triste e humano sonho, e que recorda
A sua gloriosa, eterna Vida,
E ao ver sua divina Creação,
Dentro de si retine a comoção
De toda a imensidade comovida.

Abismos, onde as cataratas sôam,
Vales e montes, Mar, nuvens que vôam,
Ninguem vosso desejo imenso acalma;
Nenhum de vós, erguendo a mesma prece,
A si mesmo ou aos outros se conhece:
Só os deuses entendem a voss’alma.

Águia divina, que entendeste o Mundo,
Tu viste como o Céu era profundo
E o Mar inesgotavel,
Que tudo é Vida e toda a vida é Luta,
E, que arrancando a cada coisa viva
Sua virtude e espírito indomavel.

Em ti reuniste as forças mais extranhas,
Tal a firmeza duma rocha bruta,
A vontade tenaz d’arvore altiva,
O arranco vitorioso das montanhas
E o ímpeto dum rio ou dum Vulcão.

Ah! quando o abismo mais era insondavel,
Mais teu Desejo tinha de aflição,
Te erguia o vôo, te crispava a garra
Num supremo transporte;
Como um navio que ao soltar da amarra
Toma o rumo da Morte,
Vira a robusta prôa á imensidade
E larga toda a vela á Tempestade,
A quantos ventos ha do Sul ao Norte,
Para que ao menos rôto, espedaçado,
Algum destroço, inda animado
Daquele anceio etereo,
Vá sobre as aguas a boiar,
E emfim possa aportar
Ás praias do Oceano do Mistério!

 
CANTO II

HINO Á MONTANHA
 

Hino á Montanha


Ai! a Montanha! que sublime esfôrço
Lhe agita o formidavel dôrso
E faz que altíssima se eleve,
Rasgando a toda altura o horizonte,
Té que lhe cinja a majestosa fronte
Um diadema puríssimo de neve!

As cúpulas, as grimpas arrojadas,
Flechas eguais ás línguas das espadas,
Agulhas, obeliscos, coruchéus
Vestiram-se de nítidas alvuras
E sequiosos das alturas
Foram beijar os Céus.


Montanha, arripiada féra hirsuta,
Inda raivosa duma antiga luta,
Tu sufocaste, derradeiro grito,
E tu petrificaste, jesto horrendo
Da Terra toda em fogo percorrendo
As frijidas stepas do Infinito.

Passáram anos, séculos, edades,
E sempre chuvas, neves, tempestades,
Granizos, avalanches, cataclismos
Foram aqui rasgando, abrindo brechas,
Ali erguendo pontes e altas flechas
E aqui, ali, além cavando abismos.

Assim a Terra, a Agoa, o Fogo, os Ventos,
Todos os bravos elementos,
Com o cinzel e o estro da loucura
Deram-lhe o rasgo, a inspiração suprema,
O ritmo d'um barbaro poema
Ou duma desvairada arquitetura.
Ah!... quem de perto visse e penetrasse
O atónito fulgôr da pétrea face,
Que hórrida lava como o sangue tinje... ?!


Quem ouvisse pulsar-lhe o coração,
Soubesse que sublime comoção
Perturba o seio da calada esfinje... ?!

Eu quando poiso o pé sobre a Montanha
E avisto o Céu e o Mar de erguida penha,
De súbito estremeço,
Fico mudo de espanto, empalideço
E logo grito, canto, choro e rio,
Tremo como se um vento me abalasse,
Ou a Montanha á volta me enviasse
O seu calafriante desvario.

Ás vezes no caótico tumulto
Dos acidentes da Montanha
Algum arranca o vulto,
Projeta a sombra extranha
Na fauce do Infinito. Em torno a noite escura;
Só o relampago fulgura
No torvo Céu, onde não brilham astros;
E um navio — fantasma, a todo o pano,
Varrido pelo vento e pelo Oceano,
Por velas nuvens, píncaros por mastros,
Corre pelo Mar-fóra, halucinado,


E naufraga por fim desarvorado
Nalgum abismo ignoto!
Ou formidavel catedral
Baqueia, treme, abate-se afinal
Nas torvas convulsões dum Terramoto!

Toda a Montanha oscila de furôr
Quando, como colérico fulgôr
Da pupila do Céu,
Algum relampago ilumina o espaço,
Que o raio atravessa-lhe o espinhaço
Como um agudo arpéu.
E nessa luz lívida e fria
O leviatan enorme ondula,
E numa hórrida agonia
Tem calafrios na medula!

Visionam-se batalhas
Sobre ciclópicas muralhas
Entre hipogrifos e dragões;
Ou nos inóspitos Calvários
Rochedos —Nazarenos solitários,
Agonisam em rudes contorsões.


Ha rochas ajoelhadas,
Religiosamente concentradas
Á beira das encostas;
Rochedos ojivais
Imploram de mãos postas;
Punjentissimos ais,
Dilacerados gritos
Sam os agudos coruchéus;
E os abismos voltados para os Céus
Estam erguendo a alma aos infinitos.
Os áridos granitos,
Rudes fragas, plutónicas, curvadas
No seu fervôr de humildes consciencias,
Com seus cilícios d'urzes requeimadas,
Estam cumprindo duras penitencias.

Sonhos de Deus, esboços do Sublime,
Formas da primitiva creação!
Continuamente vos oprime
A dôr da imperfeição!

Montanha! é tam profunda a tua dôr,
Tam grande o teu impulso redentôr,
O anseio de beleza em que te abrazas,


Que cada pesadíssimo rochedo,
Inabalavel, taciturno e quedo
Tenta bater as asas!

E tudo se debate e tumultua
Com um tremendo esfôrço sobreumano
Nessa petrificada Babilónia:
És a carne sangrenta, rocha núa,
O teu sossego — um revolver insano,
O teu silencio — uma contínua insónia.

Resto do Caos primitivo,
Encapelado Oceano
De tudo o que ha trajicamente vivo!
Ali — talvez a forja de Vulcano
Onde é batido o raio fulgurante;
Ali — talvez o pórtico do Inferno,
Onde o génio de Dante
Foi esculpir o desengano eterno.

Ali se desagregam duras fráguas,
Roídas pelas águas
De persistente força corrosiva;
Mas neves, águas, rochas das alturas


Jamais olvidarám pelas planuras
A ansia primitiva.

A rocha que se funde e se derrama
Em terra, sedimento, escura lama
Vai da raiz á flôr desabrochar,
E as águas que desceram das pendentes
Foram quedas, ribeiros e torrentes,
Por fim ondas altíssimas do Mar!

Ali, emquanto não assola a Terra,
Nas gargantas da serra
Ensaia a Tempestade os grandes córos ;
E sobre os píncaros agrestes,
Vagabundos celestes,
Vam descansar emfim os meteoros!

Ali — tudo o que é grande, forte, altivo:
A Águia poisa, a nuvem pára,
O ar é puro e vivo
O Céu é mais profundo e a luz mais clara!
Cariátide do Céu, Atlas gigante,
Alto e rude colosso de granito!


Que heroísmos, que assombros
Levantam a nossa alma delirante,
Ao vêr que degladias o Infinito
E vem o Céu poisar-te sobre os hombros!

Ás vezes ilumina-se o teu dôrso
No gesto transcendente da verdade,
Gesto que ensina a religião do esfôrço
E aponta para um Céu de Liberdade!

Herois! unji as almas de beleza
E erguei dali na luz e na grandeza
Destroços feitos por um deus cruel:
Os broqueis dos ciclopes revoltados,
Armas partidas d'anjos despenhados
E as ruinas da torre de Babel!

 
CANTO III

A ÁRVORE TRÁJICA
 

A Árvore Trájica


No píncaro mais alto da Montanha
A Árvore crescera de tal sorte,
Como nunca se viu serra tamanha,
Nem crescer outra Árvore mais forte.

Ali, dessa Montanha erguida a prumo,
Onde o frescôr da Vida era tam escasso,
A Tempestade decedia o rumo
E as águias abalavam pelo espaço.


Lonje das mais e livre do escarcéu,
Que uma floresta murmura produz,
A Árvore embebia-se no Céu,
Afogava-se toda em plena luz.

Isolada no agreste e duro sêrro,
Tendo por cima o Céu, por baixo o abismo,
Era como os profetas no desterro
Abrasados de fé e misticismo.

Tinha o tronco torcido como um dôrso,
Cada forte raiz, um duro flanco;
Toda vibrante dum heroico esfôrço,
Toda ajitada dum supremo arranco.

Cada torcido ramo, longo braço,
Erguia-se convulso para o alto,
Como quem tenta erguer-se pelo espaço
Ou tomar um reduto pelo assalto.

Assim, desde a raiz ao fino tope,
Brandido como a língua duma espada,
Havia o salto heroico dum ciclope,
Que vae tomar o Céu pela escalada.


Nos ramos tinha rôscas reluzentes,
Altas arrancas a silvar injúrias;
Lembrava a copa, a trança de serpentes
— A cabeleira trájica das Fúrias —.

Folhas bebendo a luz a grandes sórvos
Pela taça do Céu a trasbordar,
Tam negras, tam inquietas, como os corvos,
Quando pairam com fome sobre o ar.

Via-se o Sol a dar-lhe repelões,
A Terra a conserva-la inda mais presa,
Penetrava d'angustia os corações,
Chegava a ser sinistra de grandeza;

Assim, alguem que foi sepulto em vida,
A meio corpo fora, se corcova
E põe a fôrça toda na saída,
Louco por se arrancar á horrível cova!

De noite projectava a sombra escura
Em plena fauce lôbrega do Empíreo;
E viam-se-lhe gestos de loucura,
Ouviam-se-lhe falas de delírio.


E, quando nessa abobada pelájica
Galopavam os ventos infinitos,
Aquela desvairada árvore trájica
Alucinada, alegre, dava gritos.

Se, na celeste, na profunda esfera,
Erguendo os braços hirtos como os mastros,
Caía a noite, vinha a Primavera,
Vestindo-a toda com as flôres dos astros.

E toucada de sois ela ajoelhava,
Sacerdote do Azul, árabe crente,
Naquela torre audaz, feita de lava,
Abrindo os braços para a luz do Oriente.

Falas ardentes dos herois de Homero
E tu, oh! alma trájica de Esquilo,
Para que possa interroga-la, quero
O vosso poderoso e claro estilo...!


«Hércules vejetal, em que façanha
E temerária empresa te empenhaste,
Que ao píncaro mais alto da Montanha
O teu robusto corpo abalançaste...?!»

«Que hidra, que monstro, ou Onfale te eleva,
Te obriga a suportar todo o pavôr
E desolada solidão da treva,
Que raiva, que desejo, ou que furor... ?!»

«Ou seja que, até nós, venham contigo
Novas tormentas, novo Adamastôr... ?!
E que em silencio sofras o castigo
De rebeldia e desvairado amôr...?!»

«Suspendei por momento a fúria louca
(Se me podeis ouvir e se falais)
Tornai mais branda a endurecida boca,
Abri os rudes lábios vejetais.»

«E olhai, que tendo forma e corpo vário,
Podemos ser irmãos pelo tormento :
Eu, como vós, sou duro e solitário
Arrosto o frio, o raio, a noite e o vento.»


Então (ainda tremo de conta-lo)
Torceu-se mais na trájica atitude,
Correu-a toda um temerôso abalo,
Mais alto ergueu ainda o corpo rude,

E, abrindo os braços ríjidos em cruz,
Falou; e a sua clara voz dizia :

«Eu sou a crente mística da Luz
Eternamente anciosa pelo Dia.»

«Nasci do mais informe e escuro lôdo;
Mas, ponha o Sol em mim beijos felizes,
Estremece-me e vibra o corpo todo
Até ao mais profundo das raízes.»

«Posto que viva na mais alta serra,
E certo que nasci do lôdo vil;
É sempre cela estreita — a larga Terra,
Dura grilheta — a rocha do alcantil.»


«Não ha robusto tronco por altivo
Que a cúspide mais livre se arrojasse,
Mas quanto mais a Vida intensa vivo,
Tanto deparo a Morte face a face.»

«Oh! que aflição, que horror, ficar sósinho,
Todo afogado em treva pela noite,
Emquanto o vento passa em redemoinho,
Despedaçando em mim o aéreo açoite...!»

«Os meus irmãos do bosque, se anoitece,
Buscam-se com a longa ramaria,
Povo que pelo tato se conhece,
E fazem uns aos outros companhia.»

« Mas eu, se a noite cái, tremo de medo;
E como só em pedras duras toco,
Começo a empedernir, volto a rochedo,
Fíco-me inerte e solitário bloco.»

«Só quando rompe o Sol de madrugada
De novo corre em mim a seiva quente
E o tronco, feito pedra rejelada,
Resurje carnação adolescente.»


«E eu que do claro Sol e da Luz vivo,
Alargo a imensa copa em plena graça,
Sôfrego bebo a luz, alegre e altivo,
Sou único a beber na minha taça.»
 
«Sim, escolhi o píncaro mais alto,
Enraizei-me, quieta e recolhida;
E quanto mais me afundo, mais me exalto,
Mais em mim bate o coração da Vida.»

«Aqui trazem mais ímpeto as rajadas,
Mais pode o raio rápido ferir-me;
Não vem cantar-me as aves nas ramadas
E as trepadeiras tremem de florir-me;»

«Sou por duros trabalhos combatida
Desta Montanha na elevada aresta,
Mas vale mais uma hora desta Vida
Que toda a vossa vida da Floresta.»

«Que brilhe o raio e sopre o vento forte...
Mais o meu livre coração se expande;
Quanto mais perto da fecunda Morte,
Tanto mais sinto como a Vida é grande.»


«Mais luz!... que o meu espírito veloz
Vôo mais livre e mais sublime ensaia;
Sou como um rio que não tenha foz,
Como um Oceano que não tenha praia.»

«Mais luz!... Eu sonho, eu sinto para além
Uma outra Vida superiôr á minha :
Formas, espíritos, visões...? Alguém
Que num País mais lúcido caminha.

«Ha outra, inda mais Vida. Eu bem na sinto,
E tam real que quasi me incomoda,
Estendo as mãos, pergunto por instinto:
«Quem fala, quem palpita á minha roda ?»

«Desejo é já princípio d'outra Vida,
O Tempo — uma cegueira da Matéria...
Vou ser a Luz, a Alma comovida,
Espírito, Princípio, Esséncia eterea!...»

«Ardo, deliro, anceio!... Luz emfim!...
Sam labaredas os meus ramos nús;
Ha fogo a crepitar dentro de mim...
Pairo, alumio e vejo,... Sou a Luz!...»


Disse. Vi ondular-lhe a copa a prumo;
Figurou atirar-se a um precipício;
Súbito ardeu, foi chama, depois fumo,
A névoa espiritual dum sacrifício.

Eu fiquei só e mudo sobre o cume,
Que erguia a fronte solitária e rasa,
E, como a pedra d'ara, onde houve lume,
Senti toda a Montanha ainda em brasa.

 
CANTO IV

A VIDA HEROICA
 

A Vida heoica


A Águia — o génio das montanhas —
Ardia numa febre de heroísmos;
Brotára-lhe das férvidas entranhas,
Era o grito de angústia dos abismos.

Ia poisar nas cristas alterosas
Com atitudes magestosas
Duma estátua em soberbos pedestais;
E quando as azas negras se alargavam
As remíjes agudas faiscavam,
Para fender o ar como punhais.


Indo de encontro ao ríjido broquel,
Como numa caverna o irado tropel
Dos vagalhões do Mar.

Se via as outras Águias na amplidão,
Sulcando todo o Céu num vôo forte,
Cheio de majestade e de harmonia,
Pulava-lhe de fúria o coração,
E atirava num súbito transporte
Arrebatados gritos de alegria.

Um desejo sem fim, um contínuo transporte
Lhe dilatava o coração;
Na sua veemente exaltação
Desafiava com despreso a Morte.

Vivia a Vida trájica e profunda.

Heroica, aventureira, vagabunda,
Rasgando sempre espaços novos,
E ignorando as fronteiras
Que dividem os povos,
Percorreu as lonjínquas cordilheiras,
Atravessou o Mar e os Céus distantes,


Lançando em cada serra
Os seus gritos de guerra
Bárbaros, percucientes, terebrantes.

Carne que a chama fúljida consome,
Quando sentia a fome,
Partia das altíssimas arestas,
Abria as asas sobre a rocha escassa
E, corsário do Azul, partia á caça
Dos animais bravios das florestas.

Se via a presa, os seus instintos
Erguiam-se coléricos, famintos,
 E despedia lume pelo olhar;
E com os olhos fitos sobre a presa
A devora-la co a pupila acesa
Descia de vagar.

Mas ei-la que se arroja de repente,
Vertijinosamente,
Ranjendo o

bico ponteagudo;

E cai co as asas encolhidas
E as garras estendidas,
Fendendo, abrindo o ar num silvo agudo.

Rápida flecha em direitura á meta,
Ei-la que abala, corre e se arremessa,
Desaba sobre a presa e já lhe espeta,
Lhe finca e crava as garras na cabeça.

Depois, tinta de sangue e olhos em brasa,
Erguia a presa, desfraldando a asa,
Ia poisa-la sôbre as altas penhas;
E, ébria duma divina crueldade,
Atirava o seu canto á Imensidade
Do cimo das montanhas.

 
CANTO V

O CANTO DAS ÁGUIAS
 

O Canto das Águias


«A vida dos herois
Faz-nos luzir os olhos coruscantes
Com a firmêsa rude dos diamantes
E o brilho ardente e fúljido dos sóis.»

«Nós fitamos o Sol sem que os seus raios
Ceguem, fulminem mais que o nosso olhar...
Nunca temos vertijens, nem desmaios,
Abrindo a nossa asa resoluta
Pelas rejiões altíssimas do ar,
Ou quando o sangue corre em plena luta! »


«Astros ardendo no zenith,
Tal como o abismo, o Céu, o livre espaço,
Nossos desejos nunca tem limite;
Desprezamos a órbita traçada:
Aí — o ar mais livre é-nos escasso
E a trégua por mais dôce é-nos pesada!
E a cada passo
Desejos mais profundos
Erguem-se em nós gritantes d'ansiedade,
Consumindo na chama novos mundos,
Indo até onde vai a Tempestade!»

«Que tumultuôso e arrebatado anseio!...
Em nós toda a vontade satisfeita
Tem um sabôr amargo...
Trazemos a rugir dentro do seio
Duma contínua fúria insatisfeita
O coração raivôso do Mar largo!»

«Se a fome e a sêde toda se levanta,
A onda dos desejos nos inunda
Em haustos tam aflitos,

Que vem do coração para a garganta,
E é tam profunda
Que nos sufoca os gritos!»

«É tanta, é tanta, que não cabe em nós,
E dentro do mar íntimo, disperso
Cada onda emotiva ganha voz
E anseia a Vida plena do Universo.»

«Para além, para além...
Ó cumes solitários,
Sômos as vossas sentinelas,
É este o nosso toque de clarim;
Andamos pelo Azul como os corsários:
Abrir as asas é soltar as velas
Pelo Mar-fóra, pelo Céu sem fim.»

«Para além, para além, fúria do imenso,
Fogo que nos abrasas...!
Raiam auroras de desejo intenso
Vibram heroicas tubas de alegria
Quando abrimos as asas
Na luz do Sol, ao ar das ventania!»


«A guerra a guerra, a luta, a vida forte;
Só ama a Vida quem despreza a Morte;
Não ha desastre que o valôr nos quebre;
Em frente do mais válido inimigo
Ou quando mais nos ameaça o perigo
Sobe até ao delírio a nossa febre!»

«Soltai os halalis, clarins da glória;
Voemos todas nas regiões empíreas
A busca do triunfo e da vitória,
Como a coorte alada das Walkírias.»

«Para além, para além...! Só no mais alto cume
A nossa carne, ébria de goso,
Encontra a neve e o frio
Pra que se apague mais o eterno lume
Que nos devóra o coração sequioso,
Como as searas no estio.»

«Ciclones, tempestades, furacões
Quando cinjis no vosso largo açoite
As trémulas florestas pela noite,
E quando vam os lívidos clarões


«Apunhalar o coração da Treva,
Logo a purpúrea chama
Da vida ardente em nós se eleva,
E num incéndio súbito ateado
Valôr, nobreza, audácia, intrepidez,
Tudo que ha de profundo em nós se inflama
E deixa o peito imenso dilatado
De fúria, de loucura e de embriaguez!»

«Para além, para além!... Ó cumes d'altos montes
Estais abrindo os largos horizontes
Aos nossos valorosos corações!
Quando a Noite no Céu mais se condensa,
Sobe de fúria a nossa vida intensa
E vamos-lhe arrancar constelações!»

«Quando a alma dos fracos desfalece,
Porque anda a Tempestade pelo Empíreo,


Como o corcel da Morte a toda a brida,
Dá-nos o raio o fogo do delírio,
E só em nosso peito resplandece
O facho ardente e trémulo da Vida!»

 
CANTO VI

A TEMPESTADE
 

Tempestade


Cái fogo e cinza. O Céu é turvo e baço;
Veste esse manto imenso um deus oculto,
Que dança e rodopia sobre o espaço;

Agora num alíjero tumulto,
Logo em ondulações vertijinosas,
Ora cinjindo o véu desenha o vulto,


Relampagos de fórmas vaporosas,
Que brilham para logo se apagar
Na primeira espiral das nebulosas.

O célere, invisível voltear
Dos pés divinos tam de leve pisa
Aflora, palpa, acaricia o ar,

Como uma pluma que levanta a briza;
E, apezar disso, oprime e esmaga o Mundo,
Que um siléncio de chumbo imobiliza
Num meditar extático e profundo.

O taciturno espírito dos montes,
O indizível espetro que delira
E enche de seu delírio os horizontes,


Aos mais fundos abismos se retira;
Agora pára, espera, escuta a medo
E de tam quieto e mudo nem respira.

De lonje, cada tácito arvoredo
Na inércia teatral das verdes comas,
Lembra a mulher de Loth, igneo rochedo,
A predizer o incendio das Sodomas.

O bailado divino já vem perto
E o vulto velozmente arrebatado
Mostra-se ás vezes quasi a descoberto;

O Mundo, como um peito sufocado,
Em aflitivas convulsões d'horrôr,
Respira o ar quasi petrificado.


Mas pouco a pouco um gélido terrôr
Esfria o Céu, transtorna a face á Terra,
Perturba-lhe a feição, muda-lhe a côr,

E, como alguém que um pesadelo aterra,
Ou louco, ou visionário, ou epilético,
Assim árvore, nuvem, alta serra

Tem o semblante lívido e patético,
Como se nas mais hórridas posturas
Tudo caísse em sôno cataléptico

Num hospital imenso de loucuras.
Emquanto os brutos animais ferozes,
Buscam de medo as negras espessuras,

Os alciões, gaivotas, e albatrozes,
— As aladas sibilas da tormenta,
Soltam no Mar as agoirentas vozes;



E numa extranha exaltação violenta,
Que as ergue, as arrebata, as precipita,
A pouco e pouco a sua voz aumenta

Em furiosa, halucinada grita,
Tam cheia de visões e de presájios,
Como se fôra a revoada aflita
Dos derradeiros gritos nos naufrájios.

Anjos anunciadôres,
Espíritos aládos e videntes,
Messias, Visionários, Percursôres,

Ei-los que passam lívidos, trementes,
Pisando toda a Terra a largos passos
E deixando no pó rastos ardentes;


Ei-los abrindo á frente outros espaços,
Com a furia do Mar, quando iracundo,
Rebenta os diques todos em pedaços;

Ei-los mais lonje, além, ao largo, ao fundo...
Envoltos já nas brumas do mistério,
Erguendo em pêso, arrebatando o Mundo;

E logo cheios dum esforço etéreo
Aceleram-lhe o giro até lhe dar
O primitivo resplendôr sidério.

Ei-los que pairam, vôam a cantar
Coa voz halucinada dos Profetas,
Tam forte que o seu éco é secular;

Ou dando vida e fala ás fórmas quietas
E erguendo-se ás visões originárias
No inspirado delírio dos Poetas.


Ei-los: seguem as vias solitárias...
Já lhes desponta a luz do Dia eterno
Sobre as divinas frontes visionárias,

'Spalha-se á roda o seu clarão interno
E assim iluminados, como Dante
Vão a todos os círculos do Inferno
Mostrar o Paraíso inda distante.

Ha quanto, ha quanto tempo que os herois
De noite afiam gládios e punhais,
Laminas d'aço a rir, bélicos sóis;

Lobos famintos, fúrias, canibais
Mais doidos, mais raivosos, mais crueis,
Ranjem de fome os dentes, uivam mais.


Já, sobre o peito os ríjidos broqueis,
A custo doma a hoste mais altiva
O piafar inquieto dos corceis.

Ha quanto, um mar de raiva corrosiva,
Ruje e encastela as ululantes vagas
E quasi atinje agora a maré viva.

Dos peitos retalhados por mil chagas
Ás bocas más de risos instantaneos
Afluem maldições, gritos e pragas.

Ao calôr tropical da febre, os craneos
Erguem no escuro a selva das visões;
Escancaram-se ocultos subterraneos;

E os Quasimodos, cheios de aleijões,
Desorbitando as lúcidas pupilas,
Sacodem a rebate os carrilhões.



Então retumba o canto das Sibilas
Num eco que de monte a monte vai:
«A pé, a pé, herois! cerrai as filas,

Erguei os braços válidos, cantai!
Abri vosso estandarte ao vento forte,
Agora avante, á frente, eia, abalai...!
Á Luta, á Guerra, á Tempestade, á Morte.

De súbito, deitando fóra o véu,
No auje do bailante rodopio,
O dançadôr divino larga o Céu.

Que nunca vista graça e novo brio
Lhe faz pairar, correr, zunir a prumo
O tempestuôso corpo fujidío!


É ela a Tempestade...! Ergue-se um fumo
De cúmulos, o pó que se alevanta
Á roda, á frente, a indicar-lhe o rumo...

É ela a Tempestade...! Baila e canta!
E todo o Mundo, á sua vista e voz,
Acorda de repente e se levanta;

E em febre, amôr, delírio ou medo atroz,
Formando a mais demente multidão,
Tudo vem vê-la em seu girar veloz.

Das espirais do aereo turbilhão
Já se entrevê a rápida figura,
Feita de vento, fogo e exaltação.

Matéria que o delírio transfigura
Seu corpo agora é todo espiritual,
Plásmica labareda, Esséncia pura.


Tam alta se nos mostra que afinal,
Posto que o vulto enorme esteja perto,
E quási a arrebatar-nos na espiral,

Nosso aturdido olhar não sabe ao certo,
Se alguma parte, membro ou fórma eterea
Ficará coas estrelas encoberto.

Figura anímica, espetral, aérea,
Que os olhos d'alma só podem fitar,
E nunca os olhos baços da Matéria;

Éter divino, que penetra o ar,
Hálito, fluido, emanação divina,
Assim domina a Terra, o Céu e o Mar;

Carne de fogo, e fogo de neblina,
Olhos só de relampago e clarão
E olhar que mais comove, que ilumina...;


Pé, que de mal pisar é furacão,
Braço, como o de Jupiter tonante,
ígneo feixe de raios traz na mão;

Voz, de que ouvimos só o eco distante,
E apezar disso todo o Mundo abala
Num trovejar contínuo e retumbante;

E olhai a flôr que o seu cabelo engala —
Rosa dos Ventos, rosa de delírio,
Que um perfume de espanto e Dôr exala,

Rosa de assolação e de Martírio
Cujas pétalas sam de tal altura,
Que abraçam e penetram todo o Empíreo...!

Oh! que sublime e trájica figura,
Que faz horrôr, sendo a divina Graça,
E espalha a treva, quando mais fulgura!


Ai! que horrivel deserto onde ela passa,
Onde só paira agora o fumo denso
Da Morte, da Miséria e da Desgraça...!

É que onde toca o seu bailado imenso,
Tudo ela arranca e de seguida arrasta,
Em seu aéreo turbilhão, suspenso...;

Nem mil cidades que o tufão devasta,
Nem Mar e Terra, súbito varrida...
Incéndios, Morte, horrôr... nada lhe basta;

Acossa, estuga a lívida corrida,
Té que a rocha tenaz se faz em pó,
E o pó corcel de fogo a toda a brida.

E a cada volta da terrível mó,
A cada rego do medonho arado,
A cada novo espanto e novo dó;



A cada novo círculo enroscado,
Que os olhos quasi arranca de fita-lo
E empolga o pensamento arrebatado;

A cada novo embate e novo abalo
Daquela formidavel catapulta,
Que o mesmo sangue gela de escutal-o,

Mais o delírio do bailado avulta,
Mais a espiral se alarga e rodopia
E mais o alegre deus bailando exulta.

E, no auje da frenética alegria,
Ébrio de Graça e de sublime Encanto,
Em si mesmo se afunda e se extasia,
Até que entôa este divino canto:


«Cósmico e primitivo Turbilhão,
Sou quem fecunda o Cáos, dando orijem
A toda a Creação.»

«Mundos, fórmas e vidas se diríjem
A meu seio, palpando a escuridade,
Cegos pela vertijem.»

«E Nebulosa, Génio ou Tempestade,
Minha espiral fecundadôra ondeia
E enrosca a Imensidade;»

«Vôa, delira, zune, arde e volteia
E átomos, mundos, almas, leis supremas
Meu atrito incendeia,»

«Para depois nas contorsões extremas
Lançar ao seio livre do Universo
Os Astros e os Poemas.»


«O Universo é um grande Mar disperso,
Cheio de redemoinhos menos fundos
Em meu vórtice imerso;»

«Abismos, Céus e pélagos profundos,
Onde o meu torvelinho vai gerando
O equilíbrio dos Mundos.»

«Tudo quanto ao redôr vou devastando,
Mais em meu seio lúcido concentro
E vou purificando;»

«Exalto, elevo, arrasto para dentro
Até que a Alma universal consiga,
Pois trago Deus no centro.»

«Cósmica fôrça, heriditária, antiga,
Eu sou aquele forte e eterno laço,
Que a Deus o Mundo liga!»


«Vinde a mim, vinde a mim por todo o Espaço
E atirai-vos de todo o coração
Ao meu fecundo abraço!»

«A mim, ao Fogo, á Vida, ao Turbilhão!
Só morre quem tem medo á propria Vida;
Nunca o que expira a arder de exaltação
E esperança desmedida.»

 
CANTO VII

A MORTE DA ÁGUIA
 

A Morte da Águia


Mal a Águia divina ouviu o canto,
Que unia a Morte á Vida e que do Empireo
Nos infinitos vales reboava,
Ergueram-se-lhe as asas por encanto,
Porque a espiral de fogo e de delírio
Para o seio da Luz a arrebatava.

Sentiu correr-lhe o sangue de roldão,
Como se cada artéria fosse o leito
Dum rio caudalôso;
E o largo, intumecido coração
Batia-lhe de encontro ao forte peito,
Como na costa dura o Mar irôso.



Bateu as asas como um largo açoite
A fustigar ainda a Tempestade
Para que o Turbilhão fôsse mais forte;
E ao afundar-se nessa imensa Noite
Sentiu, último dom da divindade,
A alegria da Morte.

Alegria da Morte! A derradeira
Dos que numa agonia dolorida
Fitam os ólhos num país sidério,
A última alegria e a primeira
Dos que ao despedaçar a própria Vida
Despedaçam as portas do Mistério.

Alegria da Morte! a mais ardente
De todos quantos buscam a Verdade,
De todos os que morrem por amar:
Dos que olham o Destino tam de frente,
Que pondo a vida toda na vontade,
Obrigam-no a parar!

Alegria do Sol em pleno ocaso,
Que ao cair para o Mar,
Ao esconder-se na serra,


Sabe que dentro de bem curto prazo
De novo ha-de raiar
E aquecer toda a Terra!

Outro Mazeppa no corcel em fuga,
Buscando a glória na miséria extrema
Numa carreira alada e desabrida,
Que a noite, as feras e o pavôr estuga,
Pois não ha sombra que o corcel não tema,
Nem faça correr mais a toda a brida,

Assim a Águia vôa arrebatada,
Assim devora abismos de repente
E como sombra lívida perpassa,
Até que no mais alto da abalada
Um raio fulje, abrindo um sulco ardente
E em pleno Turbilhão a despedaça.

O coração da Águia foi queimado,
Fez-se um clarão da mais divina esperança,
Que espalhando-se em toda a imensidade
Foi abraçar o Céu de lado a lado
Num arco-iris, o arco da Aliança,
Que alumia depois da Tempestade.


Os Lázaros do sonho irrealisado,
Os que morrem á míngoa de ventura
E nunca ouviram cantos de vitória,
Acordam vendo o Céu illuminado,
Sentem abrir-se a antiga sepultura
E surjem de repente em plena glória.

Aleluia! Aleluia! grita o Mundo
E logo a Terra atira das entranhas
Tesoiros mil sepultos;
Emquanto do profundo,
Do recóndito seio das montanhas
Correm á luz os mananciais ocultos.

Das esquecidas mas leais sementes
No regaço amantíssimo dos montes
Uma Floresta triunfal se eleva;


Ha flôr's mais rescendentes,
Nascem mais vivas e abundantes fontes
E os astros incendeiam mais a Treva!

S. João do Campo, Setembro de 1908 e Setembro e Outubro de 1909.

Erratas


Pag. 12, onde se lê
Píncaros, vales, azulados, montes...
deve lêr-se
Píncaros, vales, azulados montes...


Pag. 75, onde se lê
Em seu aéreo turbilhão suspenso
deve lêr-se
Em seu aéreo turbilhão, suspenso

Acabado de imprimir
aos 17 de Dezembro de 1909
Na Imprensa
Libanio da Silva,
Rua das Gaveas, 29 e 31
Lisboa