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O Livro de Esopo/Considerações glottologicas

O Livro de Esopo por Leite de Vasconcelos
Considerações glottologicas


CONSIDERAÇÕES GLOTTOLOGICAS

I

GRAMMATICA

No Vocabulario precedente archivei todas as palavras antigas que se encontram no nosso texto. Agora convem que eu especifique os caracteres archaicos que a phonetica, a morphologia e a syntaxe do mesmo texto apresentam; na secção consagrada á phonetica farei algumas considerações a respeito da orthographia. Depois do estudo da grammatica direi duas palavras acêrca do estylo das fabulas. Por fim procurarei determinar a epoca da lingoagem. — Para as etymologias das palavras citadas vid. o Vocabulario.

A) PHONETICA

1. As vogaes atonas apresentam algumas oscillações: i alterna com e; u alterna com o, — o que succede, quer quando as vogaes são iniciaes, por ex. emiigoimiigo, ermidairmida (hirmida), enjuriainjuria, quer quando, sem serem iniciaes de palavras, estão comtudo cm syllaba inicial, por ex. fogirfugir, podiapudiapudera, bugiobogio. Ora se mantem o e e em circunstancias em que hoje ha u e i, ora succede o inverso: arroido, molher, custume, sobio, firir, legar, mester, milhor, mintir, missigeiro, misurado, mizquinho, vertude, vistir, obidiente, destroir. Phenomenos avulsos: enxemplo (e nasal inicial), piadoso (hoje piedoso).

A terminação latina -VNT nos verbos deu -om, por ex. comérom, dissérom, tomárom, mas ouvéram, preter., LVII, 5, e víram, LVII, 11, se não ha erro de a por o; -ANT deu -am, por ex. estávam, excepto engánom, XV, 15; -ENT deu -em, por ex. procédem. Provavelmente as terminações verbaes atonas -am e -em soavam ainda e -ẽ, e não -ão e -ẽi (-ãi), como hoje.

Nos verbos as terminações -eo, io absorvem a enclitica o (os): comeo=comeo-o, II, 21, e III, 16; vios=vio-os, III, 14; ferio=ferio-o, XII, 17; recebeo=recebeo-o, XXXIV, 31. Este uso é corrente noutros textos antigos (portugueses e gallegos).

2. A vadunt corresponde vaam, LIX, 12; a stant corresponde estam, prol. 13, Temos -om no futuro: acusaróm, XLV, 12.

3. Mantem-se os digraphos tonicos -ea e -eo (hoje -eia, e eio): por ex. aldea, alheo, cheo, feo, freo, meo, seo. Atonos: leom (a par de liom), meolo. Temos tambem peor < lat. peiore-, a par de peiorar < lat. peiorare.

4. Mantem-se o ditongo ui (hoje reduzido a u) em cuitelada, escuitar, fruito; e o ditongo au (hoje reduzido a a) em trautado.

5. Quando da syncope de certas consoantes entre vogaes iguaes resultaram ditongos ou digraphos que na lingoa moderna estão reduzidos a vogaes simples, oraes ou nasaes, o texto mantem os ditongos ou os digraphos:

-L- -N- -D- -V-
aa algũu cobiiça pãao
afaago arrepeender creer
braadar bõo empeecer
coobra gaado fiees
cruévees homẽes meezinha
diaboo infiindo pee
doo jajũu seer
estávees lãa treedor
fiees manhãa veer
maa peendença
notávees rãa
paancada sosteer
poboo teer
poo ũu
poomba vãa
queente vérmẽes
voontade vĩir

É de notar que, a par de braadar, se encontra bradava, XVI, 8; a par de coobra se encontra cobra, LIX, 9 (em fim de linha, porém); a par de seer se encontra ser, XXVIII, 20, e serás, XXVIII, 9; tambem se encontra fe, XXIX, 29, e rria, XLV, 19, a par de riir, duas vezes, ib., 17 e 18. Primitivamente as duas vogaes resultantes da syncope pronunciavam-se distinctas uma da outra, como se prova dos versos dos Cancioneiros; com o andar do tempo as duas vogaes fundiram-se em uma só, mas continuou a escrever-se maa, poo, seer. O encontrar-se no nosso texto ser a par de seer, e por outro lado o encontrar-se ahi vaas, XLIII, 6, ataa, oo a par de ho, e antiiguo, onde a duplicação das vogaes não é etymologica, faz crer que a oscillação da pronuncia se dava já no tempo em que se escreveu o nosso texto, ou pelo menos no da execução do manuscrito; todavia podia o copista ter-se ás vezes enganado[1]. — Em moor temos tambem o duplo. — A par de bõo o texto apresenta boo: vid. o Vocabulario.

6. Da syncope de -N- em -ONE- e -ANE-, e de -D- e -N- em -UDINE-, resultou respectivamente -om, -am, -õe (e -om), sons que hoje estão reduzidos a -ão:

-ONE- -ANE- -VDINE-
cabrom razom cam mansidõe
cajom sermom gaviam multidom
condiçom suspeiçom pam simildom
confissom tiçom
ladrom treiçom
leom tribulaçom

Em galardom, de origem germanica, e em afam, de origem desconhecida, temos respectivamente tambem -om e -am. — Do pl. -ONES, -ANES e -ÚDINES veio respectivamente -õoes, -ãaes, -õoes, por ex. ladrõoes, cãaes, simildõoes. — A par de cabrom temos cabram, LX, 2, 3, 5 (tres vezes; a repetição mostra que não é erro de escrita); a par de leom (liom) temos leam, XXII, 10, mas o mais usado é leom; a par de ladrom temos ladram, LXI,9; a par de um exemplo duvidoso de capom, temos cinco vezes capam, LXII, 2, 3, 5, 7, repetição que mostra não haver êrro de am por om. — O lat. -ANU está representado igualmente por -ãao, como em irmãao. XXVIII, 7, grãao, XXIII, 20, vilãao, XI, 7, mãao, XVIII, 3, sãao, XXVII, 10, palavras cuja terminação corresponde á lat. -ANV-; cfr. ainda louçãao, XXIX, 3, < > hesp. lozano, a que alguns attribuem origem germanica (got. laus), mas que poderia vir do lat. *lautianu-, derivado de lautus.

7. De non veio nom, hoje não; de sunt veio som, hoje são.

8. Na classe das consoantes labiaes temos: -B- > v em avondar < abundare; proveza a par de probeza; temos b por v em bibera < vipera e proberbio < proverbium; temos -BILE- > -vil em estavil, a par de débille, XXXVII, 13 (latinismo); temos poborada.

9. O s- (s impuro) está representando, ora por s-, ora por es-: sperança — esperança, scudeiro — escudeiro. Cfr. escapar — scapar, onde es- (s-) provém de ex-; escarnecer, a par de scarnho, de origem germanica. — Depois de semivogal está s reduzido a j em cajom < (oc)casione-. — Havia constante differença entre s-ç e f-z. Em mizquinho o z tem origem arabica; cfr. hesp. mezquino.

10. -QVO está representado por -co, em inico.

11. Grupos de consoantes: BL- > br em brasfemar; FL- > fr- em fror; -M’L > br em sembrante.

12. PHENOMENOS GERAES. Dá-se prothese de a em abastar, abolver, abúter, achegar, alevantar, alimpar, arrifẽes, arroido. Epenthese em celestrial. Metathese em afremosentar, percatar a par de precatar (confusão de pre- e per-), probe, e em -airo por -ario: contrairo, sodairo. Apocope em árvor, el. Apherese em maginar. Syncope em simildões. Assimilação em assolver, aversidade, trelladado, vesso. Dissimilação vocalica em arteficioso, homecidio, malecioso, vezinho; consonantica em frol por fror. Por influencia do r temos çarrar, e do l temos elamento (em ambos os vocabulos mudança de e em a).

ORTHOGRAPHIA

13. O que se vae dizer é natural complemento não só da phonetica, estudada a cima, mas do que se disse na introducção d’este trabalho.

14. As vogaes tonicas estão ás vezes duplicadas: oo (interjeição «ho», que porém alterna com o, II, 18, e com ho, XV, 5), ataa, trijguo, prijguo, imijgo, antijguo. Cfr. § 5. — Caso avulso é obeedecer, LVIII, 14.

15. Ditongos e digraphos:

A vogal tonica do ditongo nasal ou oral, cujo segundo elemento é e ou o, duplica-se geralmente: capõoes, pinhõoes, simildõoes, cãaes, irmãao, mãao; quaaes, saae, maao, paao, dooe.

A subjunctiva i dos ditongos está geralmente representada por y: muytas, foy, vay, mays, dey. Todavia tambem se encontra i e j: pois, depojs.

16. Uso de j, y e i:

É frequente j por i: ex. ajmda, jroso, ljvro, jmçertas, jmverno, jmfijmdas, jrmida, a par de liuro, etc. É frequente y por i: guysa, ssy, cayr, ty, aguya, a par de guisa, aguia, etc. Em seia, XI, 27, temos i por j; mas seja, XI, 29. Parece-me porém que o mais geral é y nas tonicas e j nas atonas; i por j é raro.

17. Uso de g e gu:

Ha alguns casos raros de g por gu antes de e e i: legemos, III, 8 (em fim de linha), algem, XI, 13 (tambem em fim de linha), XXIV, 14, fugeyra, XIII, 11 (com um pequeno traço sobre o g: representará o u?), ágia, XXX, 14 (em fim de linha). Estes exemplos são pouco comprovativos de que realmente o escriba queria com g representar gu (i. é., podem ser enganos ou recursos para poupar espaço); alem d’isso, em contraposição com elles mesmos, encontra-se alguem, XVIII, 14, aguia, XXX, 3. A respeito de burgés, vid. o Vocabulario.

Na fab. LXII, 14, lê-se fugo «fujo». Comparavel a esta fórma é fugades, que se lê no codice illuminado n.º 94 da Bibliotheca Nacional, sec. XV ou anterior, fl. 89, e fugan, que se lê na Cronica Troiana, sec. XIV, Vocab., n, 331. Comquanto não fosse impossível que no lat. vulg. da Lusitania houvesse *fugo e *fugam, talvez porém em todas estas palavras g valha j. — Cfr. tambem corriga no Leal Conselheiro, p. 139, e elegam, que Roquete cita na nota àquelle passo. — No citado cod. illuminado ha tambem mangar = manjar. — Comquanto no nosso ms. fosse mais natural estar fuguo, se o g tivesse o seu valor de guttural, todavia nem sempre o escriba representou o g por guo, por ex. trjgo (a par de trijguo).

Exemplos de gu por g: amiguos. antiguo, augua, cáguado, diguo, enguordar, foguo, greguo, guaado, guaallo, guarguanta, luguar, meygua, traguo, trijguo, vimguamça, — a par porém de auga, engomar (quasi em fim de linha), trago, gaado, galardom, guarganta, trijgo. — Em linguoa o o mostra que depois do som guttural se fazia, como hoje, ouvir uma vogal labial. — A razão de se empregar gu está em querer frisar-se perfeitamente que g não tinha o valor de j que muitas vezes se lhe dava, mesmo antes de vogaes que não fossem e e i.

18. Uso de qu:

Parallelamente a gu por g, temos qu por c em açerqua.

19. Uso de u e v:

Usa-se u por v entre vogaes, entre vogal oral e consoante liquida, e ás vezes depois de palavra proclitica: aues, deuemos, leuou, ouuesse, crueuees, proueyto, aleuamta, mouer, rroueluer, durauyll, ssouella, caualo, aueo, louuado, auysados, viujam, auer, guouernasse, auemturança, caualeyro, leuantar, marauilha, uissem, numerosos preteritos em -aua, nouo, liuro, liurar, seruiço, eruanço, eruas, seruo, aruor, coruo, çeruo, palaura, calua, ssalue, ssiluado, aboluer; o uelho, hũa uez, dez uezes, e uergonça, dá-uos, ell ueo, a uos a uyda, muyto uurmo, ho uaqueyro.

Usa-se v no principio de palavra e depois de nasal: vivia, veredes, virtuosamente, vãao, venhã, velhaco; voamdo, emveja, comvida.

Todavia tambem ha excepções, sobretudo á primeira regra (u entre vogaes).

20. Uso de h:

Usa-se h antes de u em hu, hũa, hũu, hultimo, hunhas, husar (a par de ussar). Antes de i em hi, higuarias, hirmida (a par de jrmida). Alem d’isso em ho (a par de o), haos (a par de aos), he, haar (a par de ar), hestoria (a par de estoria), houtro (a par de outro), etc. Pelo contrario falta h em muitas palavras em que hoje se emprega: oje, omildoso, aver.

21. Consoantes iniciaes dobradas:

É frequente no principio haver ss-; tambem se encontra muitas vezes ff-, e ás vezes ll-: ssua, ffoy, llãa. Quanto a rr-, vide o que digo na Introducção.

22. Consoantes mediaes dobradas:

Entre vogaes, l e ll oscillam: villãao, vilãao. Notavel é entre vogaes o uso, por vezes, de -ss- por -ſ- (isto é s sonoro), tambem existente noutros textos: pressença, quassy, pressentar, misseria, ussar. Alem do uso normal de ss, como hoje, encontra-se: comverssar (a par de persoas), emssynos (a par de emsinaua), consselho. Ás avéssas, temos s por ss em comese, XIX, 7.

23. L final:

O l final de syllaba, ou l gutturalizado, é frequentemente representado por ll[2]: ell, proll, cruelmente, mall, aquell, quall, vill, froll, peytorall, rroussinoll, sylluado. Todavia tambem se encontra vil (em fim de linha, XI, 24), qual (em fim, V, 4; mas qual tambem noutras circunstancias), ssiluado.

24. Em certos casos em que ha crase de vogaes, o ms., como outros muitos textos, representa apenas o som resultante: comeos = comeo-os, d’aguia = da aguia. Cfr. § 1.

B) MORPHOLOGIA

Tratarei successivamente dos nomes, dos pronomes (com os artigos), dos verbos e das particulas.


a) Nomes.

25. O plural do substantivo sol, VII, é soles, VII, 7, e não soes, como hoje. Fernão de Oliveira, na Gram. da Linguagem Port., 2.ª ed.[3], p. 109, dá uma regra conforme com esse exemplo: «sol fará soles, e não soys, e rol roles e não rois, por differença das segundas pessoas d’estes verbos: soyo, soes, por acostumar, e royo, roes por roer». — Os nomes em -am, -om, -em, fazem respectivamente o pl. em -ãaes, -õoes, -ẽes: vid. §§ 6 e 15. — Sobre o pl. de deus (deos} vid. a annotação que faço á fab. XLVII, 2.

26. Como vimos no § 8, os adjectivos latinos em -bilis estão representados no singular por -vil e -bille. O seu plural é em -vees (§ 5): estávees, xx, 10, cruévees, xiii, 16 (vid. Vocabulario); mas cruees, xxxi, o que presuppõe o sing. cruel.

27. O adj. grande, quando proclitico, apocopa-se frequentemente, tomando a fórma gram, o que succede tanto antes de substantivos masculinos, como de femininos, começados por consoante: gram temor, xi; 10, gram vergonça, xxxiv, 27; antes de vogal emprega-se grande, que póde tambem empregar-se antes de consoante, mas menos vezes que gram[4]: grande arroido, lvii, 2, grande enveja, lxi, 5, — grande temor, lvii, 3, grande sanha, l, 12; no pl. é grandes: grandes golpes, lxi, 34, grandes vozes, xxx, 6. — Na lingoa moderna perdeu-se o uso geral de gram, que ficou apenas estereotypado em certas expressões litterarias, como grão-mestre. Em hespanhol, porém, é ainda corrente, gran sermón, gran yegua.


b) Pronomes e artigos.

28. Como pronomes demonstrativos temos: aqueste, aquesta (a par de este, esta), esto, medês, aquell[5] (a par de aquelle), aquello, ello. Como pronomes pessoaes: ell, tanto em proclise, como em pausa[6] (a par de elle[7]), plural elles; em com tigo a preposição vem separada do pronome, xl, 14, 22 (cfr. no Leal Conselheiro, p. 116) com mygo); lhe, plural, ii, 25; vii, 4; viii, 21; xlviii, 11 (a par de lhes[8]). Como pronomes indefinidos: al .. al (iii, 20), algo, algũu, algũa, cousa (iv, 6), todo (neutro) «tudo». — A respeito de homem empregado como pronome. semelhante ao on fr., vid. Syntaxe, § 35-c e § 39-f.

29. Artigos: ũu, ũa. O artigo definido conserva o l quando ligado com certos pronomes ou particulas que terminam em s e l: ambalas, xxx, 3, todalas, xl, 34 (a par de todas as, xvi, 9), pollo (que alterna com pelo).


c) Verbos.

30. Phenomenos communs:

A 2.ª pessoa do pl. do indic. e conj. terminam em -des, e a do imperat. em -de:

percades, xxxiv, 36 ajudade, xli, 9
tomedes, xxxiv, 36 dade, xli, 9
veedes, xlviii, 4 comede, xix, 15
veredes, prol., 11 fazede, xlviii, 5
morredes, iii, 12

um exemplo avulso de syncope é dees, xlii, 7, na 2.ª pessoa pl. do pres. do conj. — A 3.ª pessoa pl. do pres. e imperf. do indic. e do pres. do conj., do condicional, do fut. do conj. e do pres. do infinit. termina respectivamente em -am e -em, terminações que de certo soavam e -ẽ (cf. § 1):

I II III
curam devem seguem
levavam scarneciam sobiam
accusariam defendam viessem
desprecem escondessem
filhassem tiverem
enganarem escarnecerem

sendo excepção notavel enganom, xv, 15, 3.ª pess. pres. indic. (se não ha erro de o por a) — A 3.ª pess. pl. do pret. indic. termina em -om: compeçarom, comerom, cobrirom; excepções notaveis (se não ha erro de copista) são: ouveram, lvii, 5 (mas ouverom nos outros casos, xlix, 5, etc.) e viram, lvii, 11 (mas virom, l, 8). — Na 3.ª pess. pl. do fut. indic. temos accusaróm, xlv, 12[9], a par de averám, xxxix, 14 (como o fut. é formado de aver, notarei que a 3.ª pess. pl. do pres. é constantemente ham, por ex. xxiii, 17). — Na ligação do pronome com o futuro, ora se intercala aquelle, como no português literario moderno, ora não, como na lingoagem popular: faze-lo-hemos, xlviii, 17, (em port. mod. fa-lo-hemos); fará-o, v, 9; matar-t’a, xliv, 8. Futuro periphrastico: [a]vemos seer: xlviii, 20. — O part. pret. é uma vez em -udo: veençudo, lxi, 50, a par de vencido e de outros muitos exs. em -ido.


31. Verbos avulsos:

AVER DAR
ouveram (pret. perf.), lvii, 5 dey «deu»[10], xii, 4
ave (imper.)[11], xviii, 10 dees, xlii, 7
dade, xli, 9
ESTAR
esteverom, xli, 15
estever, 1.ª pess., xxix, 16
estemos (conj.)[12], lvii, 9


FAZER
fize a ty, viii, 14 fezesse, xiii, 12; xlvi, 4; xxv, 4
fezeste, ii, 15; viii, 14; xii, 22 fezesses, liii, 8
feze-o[13], iii, 10; xiv, 8; lxi, 60; xxx, 14 fezessem, xix, 20; xxv, 5
fezemos, xlix, 9 fezermos, xlvii, 16
fezerom, xlvi, 8; xvii, 12 fará-o e faze-lo-hemos: § 30
fezera, xii, 7; lx, 7 fazede, xlviii, 5


IR
vaas «vaes»[14], xliii, 6
MORRER PARIR
mouras[15], xxiii, 33 páira[16], 1.ª pess., ix, 5
mouram, xxxi, 16
morreredes, iv, 12
PVNGIR POER REQVERER
punguo, xxii, 13 sing. pom[17], xx, 1, etc. requere, xxvi, 18
pl. poem, prol., 9; xx, 11
Brace segment, left, end-top.svg pose-a, x, 7
Brace segment, left, mid.svg pose-sse, lxi, 42, 45
Brace segment, left, end-bot.svg pose o pé, xxvi, 2
SABER SVBIR
saibya[18], xlv, 37 sube (imper.), iii, 8
SEER TEER
Brace segment, left, end-top.svg soo[19]: vi, 8 tem[20]: pr., 18; xx, 18
Brace segment, left, span.svg som: lvi, 10, 12; teemos: vii, 9
1.ª pess. sing. Brace segment, left, mid.svg lxi, 53; xxviii, 7; teendes: xlii, 4
Brace segment, left, span.svg xxxvi, 6; xxxix, 8 teem[21]: pr., 17; iii, 20; ix, 21
Brace segment, left, end-bot.svg soom: xi, 4 tiinha[22]: ix, 3
see[23]: lxi, 52
som, 3.ª pess. pl.: ii, 16; viii, 21; terremos[24] (fut.): vii, 10
xxiv, 11, xxxiii, 15
fuy «foi»[25]: xvi, 9 sosteemos (= sos-teemos): xli, 3
forom: iii, 10
seerem: xii, 25

VALER VĨIR
val: lx, 13 veo[26]: iii, 2; iv, 14
veerom: xvii, 11
viinham[27]: xxxviii, 4
verrá[28]: xliv, 7
aveo (= a-veo): xxxiv, 4
entreveo (= entre-veo): xxxviii, 21

d) Particulas

32. Nas preposições c locuções prepositivas temos: per; por no sentido de «para» (i, 2; v, 12; xix, 6, etc.; cfr. Leal Conselheiro, p. 180); pera; contra; antre; em pos; acerca; perante; arriba de; per diante «perante»; d’avante; em tras (xliv, 2); ante «deante de» (xlv, 16.)

33. Nas conjuncções e locuções conjunccionaes: mais (viii, 21) a par de mas (xxiii, 19); pero; mentres que; ataa que; em pero; como «quando»; entrementres que; em mentres que; depois que.

34. Nos adverbios e locuções adverbiaes: atanto; ende; suso; er; acerca; sollamente; cras; hi; hu (a par de onde); sempre e nunca; entom; assi; ora «agora»; acó; da parte de fundo; da primeira (xlix, 10); ja nunca xxxiv, 26; lix, 8); d’atanto; tanto «tão» (x, 2; {{small caps|xlv}, 36); senom; ante «anteriormente» (li, 10). Adjectivos empregados adverbialmente: certo; forte (ii, 9). Em cortês mente (xxxix, 2) temos o suffixo ainda separado, como se conservasse o seu primitivo valor de substantivo; pelo contrario está junto ao adjectivo em cortesãmente (xii, 5, onde por êrro saiu cortesamente[29]).


C) SYNTAXE

35. Orações impessoaes expressas de varias maneiras:

a) Com o verbo no plural, por ex.: «nom lhe podem contradizer», vi, 19; «scarneciam d’ella», xix, 8; outros exs. xxxiv, 15, e lx, 8. — Cfr. Epiphanio Dias, Gram. Port., § 112-b.

b) Com diz, em narrações, por ex.: «e no Avangelho diz», xlv, 37; «diz que foy hũa vez hũu leom», xlvi, 1; «no exemplo diz», viii, 22. — Nos Anciens textes portugais de J. Cornu, Paris 1882, encontram-se varios exemplos analogos, do sec. xiv: «asy como cõta de hũu homẽ», p. 27; «de aquell velho de que falla na léénda de Sancto Andre», p. 30; «hu conta que lhe veo gram tẽptaçõ carnal», p. 32. O Conto de Amaro publicado por Otto Klob na Romania, xxx, 504 sqq., começa assim: «conta que em huũa provj̃cia auya huũ hõem bóó que auya nome Amaro» (p. 507). Ainda hoje no povo é frequente começar-se uma narrativa impessoalmente por diz.


c) Com homem, que serve de pronome, como o fr. on, e o prov. om (hom), por ex.: «e homem que está em prosperidade em este mundo nom deue escarneçer do minguado», xxix, 30; «o mal que homem faz", xlx, 33. Na origem homem tinha o seu valor de substantivo e era o sujeito logico e grammatical, o que se vê ainda nestas phrases: «por nhũa gram tribulaçom que o homem aja», lvii, 13; «poucas vezes póde o homem empeeçer na razom», lxi, 66, onde até vem precedido do artigo; e no plural «os homẽes nom deuem a fazer a outrem o que elles nom queriam que a elles fezessem», xix, 20-21 (a ultima oração é impessoal, com o verbo no plural, como supra, § 35-a). Nestes exemplos basta só um salto, para passar, de homem, como substantivo e sujeito logico, para homem, como pronome e sujeito meramente grammatical. A ideia geral, contida em homem, tornou-se indefinida. — São numerosos os exemplos d’este uso em português antigo: cfr. as notas de Roquete ao Leal Conselheiro, p. 268.

36. Repetição pleonastica da conjuncção integrante que: «ajmda nos ensina mais, que, sse nos alg(u)em ssauda, que nos nom assanhemos», xi, 13; «promettendo-lhe que, sse o désse ssãao, que lhe faria muyto algo», viii, 6-7. — Este phenomeno é muito frequente em português, sobretudo quando ha grande separação entre o que e o predicado. O mesmo succede em latim: Madvig, Gram. Lat. (trad. port.), § 480, obs. 2.

37. Particularidades de concordancia:

a) Sujeito (collectivo) no singular e predicado no plural: «toda gemte te lança de sy, com nojo que de ty ham», xxiii, 29. Apesar de na primeira oração estar lança, no singular, na ultima apparece ham, no plural, por estar um pouco mais longe de gente; podia tambem ham considerar-se impessoal, cfr. § 35-a. — Sobre este uso na nossa lingoa literaria cfr. o meu opusculo O texto dos Lusiadas, Porto 1890, p. 31 sqq.

b) Dois sujeitos no singular e o verbo no singular: «a emjuria e uergonça nom he d’aquell que a rreçebe», xviii, 12-13; «nem lobo, nem outra anymalia nom lhe fazia dapno», xxvii, 13. — Isto succede frequentemente em português quando os sujeitos são mais ou menos synonymos, como aqui. Cfr. no Leal Conselheiro, p. 280: «a prudencia e discreçom quer obrar acabadamente»; nos Lusiadas, v, 38: «este clima e este mar nos apresenta».

c) O participio passivo, que faz parte do tempo-composto de um verbo, concorda em genero e numero com o complemento directo d’esse verbo: «peccados que auemos fectos (=feitos)», xlvii, 16. — São tão numerosos os exemplos d’este uso em português antigo, que nem valeria a pena citar mais nenhum: «todos avjam feita esta promessa», Demanda do Santo Graall, p. 18; «tenho vystos e ouuvydos muitos enxempros», Leal Conselheiro, p. 212; «quem vos tivesse furtada!», Gil Vicente, iii, 66. Vid. as notas de F. Dias Gomes, Mem. de Litt. Port., iv, 65, e as de Roquete ao Leal Conselheiro. p. 82. O uso é commum a outras lingoas romanicas: vid. Diez, Gram. des l. rom., iii, 269 sqq., onde tambem cita a nossa lingoa archaica.

38. Emprego das preposições.

Preposição a:

a) Depois de andar (exprime o termo do movimento): «andar a hũa aldeia», xii, 2; «andaua a caçar das alimarias aa ssilua», xxvii, 11. — Hoje emprega-se nestes casos ir.

b) Depois de creer: «nós nom quisemos creer ao bõo comsselho da amdorinha», xlviii, 8; «nom deuemos creer nem ssiguyr aa voomtade da molher», xxxiv, 41. — Mas creet em, liii, 12-13.

Preposição de:

c) Na expressão: «tam rrico e tam de proll», xxxiv, 29, exprime a qualidade. — Cfr. Epiphanio Dias, Gram. Port., § 153.

d) Ligada com o artigo definido, constituindo o que os franceses chamam artigo partitivo: «farás de tua proll», xviii, 10, «compeçou a talhar das arvores quanto lhe prazia», xxxix, 6 (= a cortar arvores. A palavra quanto é complemento de amplitude: cfr. Epiphanio Dias, Gram. Port., § 122); «tomaram do pam pera dallo aa boca», xli, 21; «deram-lhe da augua a beber», xxxiv, 21; «queria dar-lhe do pão», lii, 3. — Sobre este uso em port. ant., hesp. ant. e outras lingoas romanicas, vid. Diez, Gram. des l. rom., iii, 39 sqq.

Preposição em:

a) Depois de verbos de movimento, exprimindo logar para onde: «voou em hũa arvor», xxxi, 11; «ir em parayso», xliii, 16; «sube em cima de mim, iii, 8-9. — Este uso, que é corrente no português do Brasil, acha-se hoje limitado a algumas phrases, como sair em terra, cair no laço; cfr. Moraes, Dicc., s. v., onde se citam outros exemplos classicos: passou em Africa, sairem os Mouros na ilha. São tudo exemplos em que em latim se empregaria in com accusativo. O português moderno, com as excepções que citei, e alguma outra que não me occorra, rejeita este uso, e só emprega em nas circunstancias em que em latim se empregaria in com ablativo.

b) Nas expressões «guardou na auga», v, 3 = olhou para a agoa. Cfr. lat. inspicere in speculum.

c) Na expressão «quando forom asseentados na messa», xix, 3 e 12. — Hoje dizemos assentados á mesa, exprimindo-se com a a proximidade: cfr. Epiphanio Dias, Gram. Port., § 134.

d) Depois de usar em: «husam ssempre em ellas» [em malicias], xix, 11, onde usar significa «porfiar», «ser useiro e vezeiro».

Preposição por:

a) Depois de curar: «curar por a sçiençia», i, 12 (cfr. hoje olhar por); mas na mesrna fab., l. 13, «curam d’ella».

b) Na expressão por o de Deus, xliii, 17, = por causa de Deus. Vid. a respectiva annotação.

39. Emprego dos pronomes e dos artigos:

a) Os pronomes pessoaes el, ti podem empregar-se com o valor de accusativos, sem preposição, como complementos directos: enforcariam ell, xxxiv, 15[30]; achar ty, i, 9; amar ty, lxii, 12; nom temo ty, xxii, 7. Todavia tambem se diz pleonasticamente, e com preposição, como hoje: se te a ty achasse, i, 5.

Quando em português temos de empregar hoje mim, ti, etc., como complementos indirectos, isto é, com a funcção de dativo, emprega-se pleonasticamente me, te, etc., antes, e não simplesmente a mim, a ti; no nosso texto ha exemplos do emprego de a mim, a ti, mas sem repetição pleonastica de me, te: «graças que tu fezeste a mym», viii, 14; dey vida a ty, viii, 14-15; eu fize a ty, viii, 15; «estes nom perdoam a mym», xvi, 10-11; fazes a mym, i, 5; «todalas animalias vencem a mym, xvi, 10.

O uso de mim, ti, si, isto é, das fórmas tonicas do pronome pessoal, e de el (elle), vós, etc., como accusativos é muito frequente na literatura antiga: sec. xiii, «vos ten(h)ades ele en uossa uida»[31]; sec. xiv, «eu matarei uós»[32]; sec. xv, «salvaae mym creente e obediente a vós»[33]; «e sabe reger sy e os outros»[34]; «ty servyndo»[35]; «ouve, Christo, mym»[36]. Tambem em gallego do sec. xiii: «pignore el por v solidos»[37].

b) Em português moderno é de uso na lingoa literaria intercalar os pronomes atonos me, te, o, etc., nos futuros e condicionaes dos verbos (tmese), por ex. louvar-te-ha[38]; só a lingua popular diz louvará-te[39]. O nosso texto tem exemplos dos dois empregos: faze-lo-hei, fará-o, darei-te, xxviii, 8.

c) Emprego de nehũu por «ninguem»: «nhũu nom deue brincar com alguem ssem ssua voomtade» sviii, 14; «nehũu que está em liberdade nom se faça sseruo» l., 21. — Cfr. no Leal Conselheiro, p. 290: «nenhuũ deve d’escolher os moços guyadores dos exercitos guerreadores».

d) O pronome indefinido todo junta-se ao seu substantivo sem de permeio se empregar o artigo o: toda jente, xix, 21, e xxiii, 25; todas bondades, xxxiv, 51; todo sseu proueyto, xxxv, 21; toda cousa, xliii, 18. Este uso é tão geral em toda a literatura portuguesa antiga, inclusive a classica, que não vale a pena citar exemplos. Em português moderno é raro[40].

e) Homem póde empregar-se sem artigo, com as funcções de pronome sujeito: vid. § 35-c. Cfr. tambem: «o coraçorn uill he aquell que faz homem sseer pera pouco», xxii, 11-12. No seguinte passo «ela nom poderia ja nunca achar homem que a tanto amasse», xxxiv, 27, homem póde ser pronome indefinido, valendo por «ninguem», ou póde ter o seu valor proprio, pois hoje tambem assim se diria.

f) O pronome relativo cujo, cuja póde empregar-se como predicativo, contrariamente ao uso da lingoagem moderna, que só o admitte como attributivo: «tornou a cadella, cuja era a casa» (= de quem era a casa), ix, 10; «como sseu dono avia, cuja a cousa era» (= de quem a cousa era), xliv, 31. Isto é muito frequente na litteratura antiga.

g) O pronome qual alterna com que, mas emprega-se em muitas circunstancias em que hoje se empregaria mais facilmente que, por ex.: «este autor viuia, o quall se chama Exopo», prol. 3; «ó gema preçiosa e nobilissima, a quall jazes em aqueste vill luguar!», i, 5.

h) Emprêgo pleonastico ou redundante do pronome demonstrativo: «o serviço que se faz de voontade, aquelle é bem feito», xxv, 14. Hoje diriamos: «o serviço que, etc., é bem feito», ou «o serviço que, etc., esse é bem feito», ou «aquelle serviço que, etc., é bem feito». — Cfr. Madvig, Gram. lat., § 489.

i) Neste exemplo, «jnoçente do que ho lobo a acusava», xxiv, 8, está do que em vez de d’aquillo de que, com omissão da preposição de entre o demonstrativo o(= aquillo) e o relativo que. Cfr. em Bernardes, Nova Floresta (não indico o logar, pois cito de memoria), «que vem a quem lhe doe a fazenda». Citei outros exemplos n-O texto das Lusiadas, Porto 1890, p. 46. Póde dizer-se que o relativo absorveu em certa medida a funcção do demonstrativo.

j) Na expressão «nom quis teer da hũa parte nem da outra», xxx, 7, hũa vem precedido de artigo, por estar contraposto a outra. Todavia em xxv, 10, lê-se: «sse os rratos me faziam dapno d’hũa parte, tu m’o fazias da outra»; e em v, 8: «assy perdeo hũa e a outra». Em fr. tambem se diz l’un et l’autre, mas ahi un está substantivado.

k) Não se usa o artigo definido em «as mais de vezes», xlv, 35, li, 3, expressão em que hoje se diria das vezes. — Na seguinte phrase sentenciosa, «rrazom mostra que rreçeba mal aquell que com outrem quer trebelhar» xviii, 14-15, omitte-se o artigo antes de rrazom, para esta palavra ter o caracter mais geral possivel.

40. Emprêgo do modo conjunctivo:

Neste passo, «em aquesta estoria o doutor .. diz que quando a probeza sse toma com alegria de coraçom, nom sse deue chamar probeza, mas rriqueza, porque a probeza he a mays ssegura cousa que no mundo sseja» (xii, 28-31), a oração relativa, que é de sentido consecutivo, e está depois de um superlativo, tem o verbo no conjunctivo (em contraste com a lingoa actual). Assim tambem em francês: vid. Epiphanio Dias, Gramm. francesa, 8.ª ed., § 342-b.

Neste passo, «aqueste Exopo .. sse comta que fosse morto .. per emveja» (prol., 6-8), o conjunctivo está tambem em contraste com a lingoa moderna, pois hoje diriamos fôra.

41. Emprêgo do modo infinitivo:

a) Depois de certos verbos o infinitivo ora se construe com preposição, ora sem ella:

aver: [a]uemos seer (futuro periphrastico), — cfr. § 30;

cobiiçar: cobijço de te ouuyr, xv, 8;

começar e compeçar: começou de creçer, xlviii, 10 (e outros exs. em xvii, 9); compeçou tirar e dar com ssua espada, lxii, 34; compeçarom a dizer .. e morder {no primeiro caso com a no segundo sem preposição), ix, 12;

creer: o homem cree a auer avantagem, xliii, 13;

cuidar: cuydas a brincar comigo, xviii, 7;

dever: deuemos de fazer bem, xvii, 14 (outro ex. ib., 7); deuêras a auer medo, xvii, 6 (outro ex. xix, 20); nom deuemos esperar, xvii, 10;

entender: aly lhe emtemdya de dar, xii, 9;

esperar: esperar de fazer bem, xvii, 10;

ousar: ajmda ousas de falar?, ii, 20;

prometer: prometeo de lhe dar ssaude, viii, 8.

b) Infinitivo regido de preposição a servir de sujeito: «a mym praz mays de comer trijguo .. que gallinhas», xii, 23. — Este uso, de que ha mais exemplos em português antigo, é raro em português moderno, onde porém se encontram estes exemplos: «convem a saber», «custa a crer», «custou-me a ganhar». Noutras lingoas romanicas é elle corrente: il me reste de (sujeito logico).

c) Na seguinte expressão «feria o seruo ssem seu mereçer», xxxvi, 6-7, o infinito está substantivado e precedido do pronome possessivo = «sem seu merecimento», i. é, «sem elle o merecer». Cfr. sem lh’o merecer, ii, 28, e ssem sseus mereçimentos (= sem estes lh’o merecerem), xxxi, 17.

42. Emprêgo do participio:

a) Exemplos de participio absoluto em que o sujeito vem anteposto ao verbo, contrariamente ao uso moderno[41]: «e elle morto, morreram os paes» xli, 24; «e as palavras dictas», xii, 28 (a par de «e ditas as palavras» xxv, 12), «ell depenado partio-sse» xxi, 7.

b) No seguinte exemplo, o participio do presente exprime circunstancia de tempo, e vem acompanhado de preposição, por o verbo subordinante exprimir sentença: «nós ssenpre ssosteemos grande afam em andando de cá e de llá em muytos trabalhos» xli, 3-4. Cfr. Epiphanio Dias, Gram. port., § 240-b.

43. Comparação:

a) Na phrase «fará-os ladrões assi como si», vii, 9, esperar-se-hia na ultima parte d'ella assi como elle (é), mas o sujeito elle foi attrahido para o caso do complemento de fará, e tornou-se si (não se, por ser tonico: propriamente como a si). — Dá-se em latim o mesmo phenomeno: «suspicor, te eisdem rebus, quibus me ipsum, commoveri», em vez de quibus ipse (commoveor); vid. Madvig, Gram. lat., § 402-b.

b) Quando se estabelece uma comparação, a oração comparativa é expressa negativamente: «eu me comtento mays do meu grão, que tu nom te comtentas das rriquezas de rreis», xxiii, 20; «eu amo mays meu senhor que nom a ty», lii, 7. — Na lingoagem popular ainda hoje se observam factos analogos.

44. Negação:

Emprêgo pleonastico de nom depois de uma expressão negativa: «nem lobo, nem outra anymalia nom lhe fazia dapno», xxvii, 13; «nenhũa criatura nom poderia viver, vii, 8; «nehũa nom deue brincar com alguem ssem ssua voomtade», xviii, 14; «padre, nem madre nem paremte nom a podiam d'aly tirar», xxxiv, 8-9 (cfr. no primeiro membro a falta de nem; hoje dir-se-hia nem padre, nem madre).

45. Collocação:

a) Inversão do pronome possessivo: «com grande minha perda», xxv, 11.

b) Collocação do sujeito entre o pronome pessoal dativo e o predicado: «merçee que lhe Deus faz», xxi, 14.

c) Collocação do adverbio (que ás vezes faz de complemento directo) antes do infinitivo dependente de um verbo:

«mais poderio lhe damos de mal obrar», vii, 15;

«pera poder muito mais furtar», vii, 16;

«a mym praz mays .. comer mall, que bem comer e sseer sempre seruo», xl, 23.

d) Inversão do infinitivo junto do verbo de que elle depende: «aquelles que enganar podem», xxxv, 15.

e) Inversão do predicativo: «persoas que useyras ssom», xxxv, 14.

46. Varias particularidades:

a) Na phrase «aquell que de rrapina viue, muytas vezes lhe acontece que perde o corpo», xxxii, 22. Anacolutho. Corrente nos proverbios: vid. em B. Pereira, Adagios, os que começam por quem.

b) Outras particularidades cito-as nas Annotações ás fabulas.

II
ESTYLO

As nossas fabulas constam de duas partes: enrêdo e epimythio 1 (ἐπιμύθιον) ou moralidade. O enrêdo é em parte narrativo, em parte dialogado.

Em geral o estylo é muito simples e familiar; os dialogos muito naturaes. Ha algumas fabulas até de admiravel singeleza, por ex. xi, xxviii, xxxi. A fab. xxix é notavelmente elegante.

Como particularidade do estylo do autor notarei o costume de coordenar asyndeticamente ora dois adjectivos, ora dois substantivos: astrosa fedente, xxiii, 33; falsa ribalda, ix, 14; maa maliciosa (alem d’isso synonymos e allitterados), xxv, 7; doutor poeta e sabedor poeta, passim. Outra expressão adjectiva synonyma, mas syndetica: debille e fraco, xxxvii, 13. Nos verbos: esguardou e vio, xl, 17; rrazoar e fallar, xxxii, 6; fallou e disse, passim[42].

Não são raras as antitheses: assy aos estranhos, como aos amigos, ca nuytas vezes de pequeno serviço rreçebe o homem boo gualardom, xix, 22 (moralid.); varios exs. nos dialogos da fab. xxiii. Temos o que os rhetoricos chamam «chiasmo» na fab. xl, 22-23: A mym praz mais viuer em mynha liberdade e comer mall, que bem comer e sseer sempre seruo.

Frequentemente a citação de proverbios e ditos moraes anima o estylo:

Buscar cajom comtra rrazom, ii, 24;

A lingoa nom ha osso,
Mais rrompe o dosso (xiv, 16);

Muytas vezes o mell
Sse mistura com ffell (xv, no fim);

A todo homem servirás;
A quem errares, d’ell te guardarás (xix, no fim);

Malãndante he aquell
Que sseu aver nom vee (xliii, 26-27);

Cam que muyto ladra, poucas vezes morde (liv, 8-9);

Quem neyçiamente cree, neyçio he chamado e neyçiamente peca (liii, 15);

O boy pequeno aprende de arar do grande, e quem quer castigar o leom, ffere o cam (xxxv, 9).


Ás vezes porém o dizer fica sobrecarregado de sentenças, umas litterarias, outras ecclesiasticas: xxxiv, moralid.; xxxvi, 6 sqq.; lxi, 62 sqq.

A estes defeitos accrescem outros: dialogos notavelmente pesados, xxiii; narração deselegante, lxi, 30 sqq.; confusão do sing. com o plur., xxiv, moralid., e lxii, moralid.[43]; syntaxe desleixada, lvii, 2; xlviii, 15; lxi, 7.

Sem embargo, esta obra, pelo seu assunto, constituia grande novidade para o tempo, — habituados, como todos estavam, ao enfado da prosa puramente mystica —, e devia ser muito saboreada pelos leitores a quem o autor a destinava.

*
* *

A linguagem do Fabulario ou O Livro de Esopo, é sensivelmente semelhante, embora talvez um pouco posterior, á dos textos contidos no Cod. Alcobacense n.º 266, publicados pelos Srs. J. Cornu[44], Vasconcellos Abreu[45], Otto Klob[46] e J. J. Nunes[47]. Todos elles são do sec. xiv. Quem os ler, encontrará quasi a mesma grammatica, o mesmo estylo, o mesmo vocabulario que no nosso. Por exemplo[48]: a comê’-o, corresponde comeos at 23, rrecebias t 256; a engratidõoe viii 23, corresponde sobigidõe j 7; a som (soom), 1.ª pess. de seer, corresponde som (a par de sam) t 261, soom at 7, j 8; á 3.ª pess. pl. pret. em -om corresponde -om em t, -om e em at, -am e -om em a, em j; á 2.ª pess. pl. -des corresponde a mesma terminação em todos os outros textos; a estávees corresponde ssemelhavees at 3, semelhavees j 11, donzees a 6.

Alguns d’estes phenomenos são communs a textos posteriores, por exemplo ao Leal Conselheiro, escrito entre 1428 e 1438; mas outros já não existem nessa data, por exemplo a terminação -des dos verbos, que no Leal Conselheiro está syncopada (podelloees, compraaes)[49].

Se compararmos agora O Livro de Esopo com a Demanda do santo graall[50], que é dos meados do sec. xiv, observaremos que este texto, a par de phenomenos communs ao nosso, como mostrei no estudo da Grammatica e do Vocabulario, apresenta alguns que, por serem mais archaicos, não apparecem n-O Livro de Esopo, por exemplo, al de meo 69, migo 78, chus 80, sya (imperf. de ser) 6, seuerom (perf.) 10, certas (adv.) 83, caer 83, toste 81; tambem na Demanda são correntes certos phenomenos que só accidentalmente se encontram n-O Livro de Esopo, como: participios em -udo (perdudo 2, metuda 3, conheçuda 4, veudo 11, sabuda 86, — ao lado, todavia, de vyndo 11, e de conhocido 7, etc.); a particula er 5, 6, 34, 82; dei = deu 47, 93 (a par de deu, porém, p. 111, etc.); rem 20, 81.

Alem dos archaismos er, dei, rem e -udo, que só uma vez se lêem n-O Livro de Esopo, e que são communs, como disse, a elle e á Demanda, lê-se lá, tambem uma só vez, fuy, fab. xvi, 9 (se não é êrro), a par de foy; a fórma fuy, que vem nos Cancioneiros, por exemplo em D. Denis, v. 1575 e 1582[51], é já no tempo da propria Demanda completamente archaica[52].

A conclusão que creio que se deve tirar d’esses factos é que, por um lado, a lingoa do Fabulario ou O Livro de Esopo, no seu estado actual, fica entre a da Demanda do santo graall (mais antiga) e a do Leal Conselheiro (mais recente), e que, por outro lado, o nosso texto é até certo ponto modernização ou leitura nova de outro anterior, tendo escapado ao copista os archaismos citados; certamente a redacção primitiva data do sec. xiv. Comprehende-se que isto assim seja, pois que a lettra do manuscrito é do sec. xv, ao passo que a lingua tem caracteres do seculo antecedente.

Curioso é notar que, assim como n-O Livro de Esopo ha expressões que supponho vestigios de redacção anterior, tambem na Historia de Vespasiano, que, apesar de impressa nos fins do sec. xv, é talvez copia de um texto mais antigo[53], se observa avulsamente, dei = deu, p. 45, como n-O livro de Esopo. Em verdade, poderia suppôr-se dei êrro por deu; mas, como a cima temos factos paralelos, não é illogico acceitar essa fórma como real. Tambem na mesma Historia alternam fórmas verbaes em -des (2.ª pess. pl) e -es, aquellas mais antigas do que estas. Na Historia de Tungullo, ao lado dos participios em -ido, que são os normaes, occorre uma unica vez, como archaismo, derretuda[54].

NotasEditar

  1. Possuimos provas de que oscillação de ee para e existia já no tempo de D. Denis, pois este rei-trovador, se contava, por exemplo, sõo como dissyllabo, contava bem (de bẽe < bene) como monosyllabo: vid. Liederbuch, ed, de Lang, n.º 36, etc. — Claro está que, assim como hoje umas pessoas dizem pouco, outras pôco, ou uma mesma pessoa diz, conforme as circunstancias, ora bõa, ora boa, ora noite, ora noute, tambem na epoca em que começou a simplificação dos digraphos ou ditongos havia de haver variações de pronúncia.
  2. Cfr. Rev. Lusitana, I, 64.
  3. A 1.ª ed. é de 1556.
  4. De uma estatistica que fiz, que, comquanto não seja completa, é porém extensa, vê-se que gram se emprega 24 vezes antes de masculino, e 8 vezes antes de feminino, ao passo que grande se emprega 3 vezes antes de masculino e 2 antes de feminino.
  5. Os exs. que colhi de aquell são em proclise. — No pl. aquelles.
  6. Por. ex.: xxxiv, 15 e 29; lxii, 10.
  7. Elle acha-se tambem em proclise: v, 5.
  8. Pr ex.: xxi, 11.
  9. Tambem no Leal Conselheiro, p. 280: poderóm.
  10. Lat. de(d)it. É fórma corrente no sec. xiv (Demanda do santo graall). Mas este é o unico exemplo do Fabulario; a par ha deu.
  11. Lat. habe.
  12. Lat. stemus.
  13. Quando independente é fez, iv, 13. Cf. pose-a.
  14. Cf. Estudos de Philol. Mirandesa, i, 443.
  15. Lat. *morias, por moriaris.
  16. Lat. pariam.
  17. Lat. *ponet, por ponit; cf. gall. e mir. põ.
  18. Parece resultar de saiba + sábia (lat. sapia-).
  19. Talvez seja erro por sõo.
  20. Lat. tene(t). Cfr. pom. O -e apocopou-se por estar desprotegido.
  21. Lat. tenen(t). O segundo e conservou-se por estar protegido pelo -n(t).
  22. Lat. vulg. *tenia > *tĩĩa. Cfr. viinham.
  23. Lat. sedet. A fabula diz ssee asseentado «está sentado». Ha certo pleonasmo, pois sedere já de si quer dizer «estar sentado».
  24. Por tenremos (*teneremos). É fórma corrente no sec. xv e anteriores. Cfr. verrá.
  25. É fórma corrente no sec. xiii (Cancioneiros). Mas é o unico ex. do Fabulario: o usual é foy.
  26. Preterito (forte) em -o, de *venu- < > veni(t).
  27. Cfr. tiinha.
  28. Por venrá (*venirá). Cfr. terremos.
  29. Foi o Sr. Epiphanio Dias quem me advertiu d’este êrro.
  30. No portugues do Brasil diz-se hoje tambem assim.
  31. Rev. Lusitana, viii, 39 (artigo de P. de Azevedo).
  32. Demanda do Santo Graall, p. 31. Não deve entender-se matarei-vos, porque a frase completa é: «ou vós me matade, ou eu matarei vós».
  33. Ineditos de Alcobaça, i, 235.
  34. Leal Conselheiro, p. 289.
  35. Ibidem, p. 478.
  36. Ibidem, p. 479.
  37. Doc. galleg. de los siglos xiii al xvi, p. 16.
  38. Vid. Epiphanio Dias, Gram. port., § 188.
  39. Vid. a minha Esquisse d’une Dialectologie Portugaise, p. 147.
  40. Cfr. os meus Dialectos extremenhos, i, 19.
  41. Cfr. Epiphanio Dias, Gram. port., § 249-obs.
  42. Nos nossos textos antigos são muito frequentes as expressões synonymas, já por hábito ou mero pleonasmo, já porque uma d’ellas era nova, e ficava a velha para a explicar melhor, ou vice-versa, já porque uma era popular e outra literaria, já finalmente porque havia certas differenças de sentido (em verdade poucas serão no uso da lingoa as expressões absolutamente synonymas entre si; ha quasi sempre alguma differença). Por ex.: quite e livre, a cada passo na lingoagem da chancelaria; emmendar e correger, sec. xv (Archivo Hist. Port., i, 199); «chegado em dívodo e parentesco a nós», sec. xv (ib., i, 442); autos e apostos, sec. xiv (Iffante Josaphat, p. 6); manda e testamento, sec. xv (collegiada de S. Estevão de Valença, na T. do Tombo), e em lat. barbaro manda et testamentum (Rev. de Guim., vi, 75); proes e percalços, sec. xvii (allitteração; Archivo Hist. Port., i, 117); gulla e gargantuyce, sec. xv (allitter.; Leal Cons., c. l, p. 286); estuigar e apressar (ib., c. lxxxvi, p. 411, numa trad. da Vita Christi); aaras e altares, sec. xvi (Esmeraldo, 2.ª ed., p. 151); teve e ouve, sec. xv (Hist. de Vespasiano, 2.ª ed., p. 45); respondeo e dixe (ib., p. 43); falloulhe e disse, sec. xiv (Cornu, Anciens Textes, p. 32). Nas demais lingoas romanicas succede o mesmo; cfr. Wilmotte, L’évolution du roman français, Paris 1903, p. 46, nota 1, onde, a outro proposito, cita muitos exs. do sec. xii, em poetas. Corrente é tambem em francês antigo a expressão ver ou printemps: cfr. Cl. Merlo, I nomi romanzi delle stagioni, Torim 1904, p. 41, nota.
  43. Com estes dois ultimos exemplos cfr. Leal Conselheiro, cap. rvi, p. 259: «Dos virtuosos amigos nom devemos duvydar quando nom vyrmos o contrairo, porque som cousas contrairas avello por amigo».
  44. Anciens textes portugais, Paris 1882 (extr. do t. xi da Romania).
  45. Lenda dos santos Barlaão e Josafate, Lisboa 1898. — Este trabalho devia intitular-se Vida do honrrado Iffante Josaphat, pois é assim que começa o texto. — Cfr. sobre elle Epiphanio Dias in Zs. für romanische Philologie, xxvii, 465 sqq.
  46. A vida de Sancto Amaro, Paris 1901 (extr. do t. xxx da Romania). — Este trabalho devia intitular-se Conto de Amaro, pois assim começa o texto.
  47. Historia do cavalleiro Tungullo, in Revista Lusitana, viii, 249 sqq. — Outra redacção d’este texto, contida no Cod. Alcobacense n.º 244, foi publicada pelo Sr. F. M. Esteves Pereira na mesma Revista, iii, 101 sqq.
  48. Abreviaturas que adopto: at = Anciens textes, j = Josaphat, a = Amaro, t = Tungullo.
  49. Vid. o meu artigo «Fórmas verbaes arcaicas no Leal Conselheiro, publicado in Mélanges Chabaneau.
  50. Ed. de Reinhardstoettner, Berlim 1887.
  51. Ed. de Lang, Halle 1894. — Cfr. Ad. Coelho, Theoria da Conjugação, p. 93, onde tambem cita fui em um doc. do sec. xiii.
  52. Com a fórma foy coexiste na Demanda frequentes vezes foe: p. 12, 13, etc.
  53. Vid. a nova edição feita por F. M. Esteves Pereira, Lisboa 1905, p. 24.
  54. Vid. Rev. Lusitana, viii, 243 (art. de J. J. Nunes).