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O Livro de Esopo/Annotações ás fabulas

O Livro de Esopo por Leite de Vasconcelos
Annotações ás fabulas


ANNOTAÇÕES ÁS FABULAS

Com as notas que juntei ao texto no pé de cada pagina tive a mira unicamente em torná-lo intellegivel nos passos onde por ventura houvesse alguma dúvida, pelo que ellas são de ordinario apenas paleographicas e phoneticas. As que vão agora seguir-se constituem leve commentario á obra.

PROLOGO. — Linhas 1-2) O Livro da uida e dos costumes dos philosofos, a que se allude ahi, é o Liber de vita et moribus philosophorum de Walter Burley ou Burleigh (sec. XIV), de que ha uma versão hespanhola, anterior aos meados do sec. XV[1], intitulada La vida y las costumbres de los viejos filosofos, a qual se conserva num manuscrito da Bibliotheca do Escurial[2]. Tanto o texto latino como o hespanhol foram publicados por H. Knust em 1886 na Bibliothek des Litterarischen Vereins in Stuttgart, n.º 177. — Como é pequena a biographia de Esopo contida no Liber de Burley, julgo conveniente transcrevê-la aqui, e parallelamente a respectiva versão hespanhola que está no manuscrito escurialense:

Cap. XXIV. ESOPUS

Esopus, adelphus, poeta, claruit tempore Ciri, regis persurum.

Fuit autem grecus, de civitate attica, vir ingeniosus et prudens, qui confinxit fabulas elegantes quas Romulus quidam de greco transtulit in latinum, in quibus docet quid observare debeant homines, et ut vitam hominum emendet et ad mores instruat inducit arbores, aves bestiasque loquaces pro probanda cuiuslibet fabula quam si diligenter lector inspexerit inveniet ioca apposita que et risum misceant et ingenium acuant eleganter.

Hic primo anno Ciri regis persarum fertur fuisse peremtus.

Cap. XXIV. ESOPO

Esopo, adelfo, poeta, clarescio en tienpo de Ciro rrey de Persia.

Y fue griego, de la cibdad de Atica, varon yngenioso y prudente, el qual fingio fabulas elegantes, las quales uno llamado Rromulo traduxo de griego en latin, en las quales para demostrar la vida de los onbres y las costunbres que deven seguir introduse a aves y arboles y bestias falantes para provar cada una de las sus fab(u)las, las quales quien estudiosa mente las quisiere acatar fallara tales juegos puestos que mesclan rrisa y agusan el yngenio.

De aqueste se dise que ovo seydo muerto del sobredicho rrey de Persia.

Fica assim manifesto que o prologo do nosso Fabulario não é totalmente extrahido do Liber de Burley; este foi apenas lá citado. A procedencia do resto da obra me referirei quando tratar do estudo litterario das fabulas. — L. 2) Çiro rrey de Persia. A menção de Cyro vem no Fabulario apenas como indicação de data (560-529 a. C.), e não porque se estabeleça connexão entre elle e Esopo. É com Creso, rei da Lydia (560-546 a. C.), que a lenda antiga relaciona Esopo. Em todo o caso a epoca é a mesma, o sec. VI antes da nossa era. Cfr. tambem A. Croiset, Hist. de la littérat. grecque, II (1890), 466-467. — L. 3) Exopo Adelpho. Sem duvida Adelpho é aqui sobrenome de Esopo. No citado livro de Burley lê-se tambem: «Esopus Adelphus poeta claruit tempore Ciri»; e na traducção hespanhola: «Esopo Adelfo poeta clarescio ea tienpo de Ciro». No entanto Knust viu-se certamente embaraçado com esta palavra, porque a escreveu com letra minuscula, e entre virgulas: «Esopus, adelphus, poeta..», ao que corresponde na traducção hespanhola «Esopo, adelfo, poeta ..», — embora ella, assim escrita, só pudesse representar o grego ἀδελφός; «irmão», o que não faz sentido nenhum. D’onde veio porém a Esopo nas obras citadas e no nosso Fabulario o sobrenome de Adelpho, se em nenhuma das antigas biographias do fabulista[3] apparece tal sobrenome? É o que vou dizer em poucas palavras[4]. Uma das fontes dos fabularios medievaes foi a collecção latina attribuida a Romulus, que no sec. XIII se encontra representada no Speculum historiale de Vicente Bellovacense ou de Beauvais[5]. As fabulae Romuleae do Bellovacense são precedidas de uma biographia de Esopo em que se lê: «Anno regni Cyri primo Hesopus a Delphis interimitur»[6]. A lenda, segundo a qual os Delphos ou Delphicos mataram Esopo, precipitando-o da rocha Hyampia, é contada por Plutarcho (sec. I-II da e. c.)[7]; e a ella já allude Herodoto (sec. V a. C.)[8]. Sem poder, nem me ser necessario, verificar agora se foi precisamente no texto do Bellovacense, tal como fica transcrito, ou noutro analogo , que Burley se inspirou, o que contudo se torna evidente deante d’elle é que da expressão a delphis = a Delphis um copista medieval, por distracção ou ignorancia, fez adelphus, tomando, no manuscrito de que se serviu, -is por -us; alem d’isso juntou a preposição a ao nome seguinte[9]. De modo que adelphus ou Adelphus, respectivamente em romanço Adelpho ou Adelfo, é na origem palavra fantastica, — ghost-word dos Ingleses —, mas temos de acceitá-la como sobrenome de Esopo no Liber de Burley, e portanto no nosso Fabulario (e tambem no manuscrito escurialense de que acima fallei)[10]. — Postoque o nome de Esopo, quer em grego, quer em latim, Αἴσωπος, Aesopus, tenha σ ou s, apparece-nos no Fabulario com x. Essa orthographia é usada em varios mss. medievaes: por exemplo, em mss. da Inglaterra, liber Exopi, Exopi fabulae[11]; da Italia liber Exopi[12]. Alem d’isso a orthographia latina do nome do fabulista variou muito: Ysopus (em romanço Ysopo, Ysopet), Hesopus, Ensopus, Esopus, Hysopo, etc., umas vezes por influencia da orthographia das lingoas romanicas, outras por falsas ideias etymologicas, etc.; mas d’isso não tenho de me occupar, pois que as unicas fórmas que apparecem no nosso texto são Exopo, no prologo, e Exopy (genetivo latino), no fim das fabulas. — L. 4) Antiochia. Com quanto muitas tenham sido as localidades dadas por patria de Esopo, Amorium, Cotyaeum, Mesembria, Samos, Sardes[13], não sei que jamais Antiochia fosse considerada como tal. O Liber de vita et moribus philosophorum, que, segundo ha pouco mostrei, foi conhecido do autor do Fabulario, diz a este respeito, como vimos, «Esopus .. fuit .. grecus, de civitate Attica». Consultando varios fabularios medievaes, acho tambem nelles alguma cousa que concorda com isto. O Romulus vulgaris, para me servir da expressão de Hervieux, diz: «Romulus Tyberino filio. De civitate attica esopus quidam homo grecus»[14]. Vicente Bellovacense diz: «Romulus . . ita scribens: De ciuitate Attica Hesopus quidam»[15]. O Romulus Nilantius tem: «Esopus, quidam grecus .. de ciuitate Attica»[16]. Finalmente, no Romulus Florentinus lê-se: «Romulus filio suo Tyberi[n]o de ciuitate attica. Esopus quidam homo grecus»[17]. Comprehende-se agora que o autor do nosso Fabulario tomasse, no manuscrito de que se servia, a palavra Attica, i. é, attica ou atica, por abreviatura de Amtiochia = Antiochia, i. é, ãti.ca, pois são as mesmas letras, só com a differença do til, que muitas vezes escapa na escrita, e que tambem aqui podia ser considerado abreviatura de outro t. Esta confusão proveio, ou de elle saber que Esopo era Phrygio, e haver na Phrygia uma cidade chamada Antiochia (embora, que me conste, nenhum biographo antigo, repito, a julgasse patria de Esopo), ou, o que me parece mais provavel, de se lembrar da célebre Antiochia, capital da Syria. Curioso é notar que, se Antiochia provém de se ler erroneamente a palavra Attica, esta, na obra citada, provém tambem de um erro de interpetação. Todas as phrases que transcrevi se relacionam com uma especie de epistola-prologo que a Tyberino dirigiu seu pae Romulo; como mostra a ultima phrase que transcrevi, a expressão de ciuitate Attica, em virtude da pontuação adaptada, não se refere a Esopo, e sim a um dos nomes antecedentes, significando segundo a luminosa explicação de Gaston Paris, não que Romulo ou Tyberino eram naturaes de uma cidade attica, mas que era de Athenas, civitas Attica por excellencia, que Romulo escrevia a Tyberino[18]: nos differentes manuscritos, porém, por má pontuação, fez-se da cidade Attica a patria de Esopo, e essa ideia passou para os fabularios e para o Liber de Burley, d’onde tambem o autor do nosso Fabulario a tomou, interpretando-a ainda peor[19]. — L. 5-6) latino. O autor do Fabulario diz em latino, em vez de em latim, por ter traduzido á letra o original de Burley: in latinum. — L. 6) Rromulo. Já a cima fallei da collecção medieval de fabulas attribuida a Romulo. Este nome, como Hervieux mostrou[20], deve ser supposto, embora de data muito antiga; em todo o caso, tanto no nosso Fabulario, como no Liber de Burley que lhe serviu aqui de base, e noutros tratados da idade-media, representa realmente, para o espirito dos respectivos autores, um verdadeiro individuo, traductor de Esopo. — L. 13) frores. A comparação da excellencia de uma doutrina com flores foi sempre predilecta aos tratadistas. Tambem D. Duarte (sec. XV) no Leal Conselheiro, prologo, p. 7 da ed. de Roquete[21], diz: «Prazermia que os leedores deste trautado tevessem a maneira da abelha, que passando per ramos e folhas, nas flores mais costuma de pousar, e dally filha parte de seu mantimento». No Labyrintho de Eberardus, natural de Bethune (Artois), sec. XIII, lê-se este distico:

Aesopus metrum non sopit: fabula flores

Producit; fructum flos parit; ille sapit.[22]

« .. ces deux vers rappellent les idées répandues dans le prologue

» des fables en vers élégiaques. La glose d’un ancient ms. porte ces

» mots: Ysopus est planta; sed Aesopus dat bona verba»[23][24].

Fab. i.L. 4) a quall. Hoje diriamos que; mas o mesmo modo de dizer se encontra no Prologo: «este auctor viuia o quall se chama Esopo». — L. 9) achar ty. Vid. na secção grammatical o capitulo da Syntaxe.

Fab. ii.L. 24) buscar cajom contra rrazom. Sentença rhythmica, especie de adagio.

Fab. iii.L. 12) Dom velhaco, aqui morreredes. No primeiro dialogo da rã com o rato, aquella trata este familiarmente por tu, para o captar; agora, como vae segura de o fazer morrer, trata-o ironicamente por dom velhaco, e chama-o por senhor, na 2.ª pessoa do plural.

Fab. iv.L. 9) As quaes testemunhas depois que forom examinadas. Esta expressão corresponde a: «depois que estas testemunhas forom examinadas». É um latinismo: qui cum interrogati essent; cfr. Madvig, Grammatica latina, trad. port., § 448. O pronome relativo vale aqui de pronome demonstrativo. — L 12) E o carneyro. Corresponde a: «e quanto ao carneyro». Modo de dizer usado ainda hoje, sobretudo na lingoagem familiar.

Fab. v.L. 4) duas tamta carne que. Significa: «duas vezes tanta carne que», propriamente «dois tantos como a carne». Encontram-se em textos dos. sec xiv-xvi expressões comparaveis a esta: «e deu seu fruito ẽ çẽ dobro»[25]; «e darás de ti fruito ẽ çẽ dobro»[26]; «entrou hũua tam grande claridade, que fez o paaço dous tanto mais claro»[27]; «e que lançarã a bara[28] cento alem do custumado»[29]. — L. 11-12) por está por extenso no manuscrito.

Fab. vi.L. 5) a ssua caça. É assim mesmo, e não á sua caça. Cfr. a sseus companheyros na l. 20. — L. 16-18) Cfr. o rifão: «Ao pobre não é proveitoso || acompanhar com o poderoso», em Bento Pereira, Adagios (appendice á Prosodia).

Fab. viii.L. 1) foy signitica «houve»; lat. fuit. — L. 8) herdeyro, por o leão ter parte no despojo de um animal morto. — L. 9) assy como ssy. Vid. Syntaxe.

Fab. viii.L. 2) E comendo com gramde pressa. Participio absoluto. — L. 22) No emxemplo diz. Vid. Syntaxe.

Fab. ix.L. 6) que lh’a queria emprestar, isto é, que estava disposta a emprestar-lh’a. — L. 21) hũa palaura dizem pella boca, e outra teem no coraçom. Cfr. Sallustio: aliud clausum in pectore, aliud in lingua promptum[30].

Fab. x.L. 15) d’elles aueremos maaos mereçimentos, i. é, «d’elles mereceremos mal» = d’elles receberemos mal.

Fab. xi.L. 8) fremoso demte. Alem da sua grandeza, o dente de porco é célebre como amuleto, já desde a antiguidade. Á expressão nom quero luxar o meu fremoso demte na tua vil persoa corresponde outra analoga em xxix, 14.

Fab. xii.L. 3) moraua. O sujeito é outro rrato. — L. 28) E as palavras dictas. Nos participios absolutos d’este typo, umas vezes o sujeito está antes do predicado, como aqui, outras depois, como na fab. xxv, 12. — L. 30) milhor he a proveza que a rriqueza. Ideia christã, que tambem se encontra em Villon, poeta francês do sec. XV: Bienheureux est qui rien n’y a[31]. — L. 31) seja. Vid. Syntaxe.

Fab. xiii.L. 5) rogaua = rogava-a — L. 13) e que lhe queria dar sseus filhos. Depende de braadar.

Fab. xiv.L. 11) freo. É ainda hoje expressão corrente não ter freio na lingoa, pois suppõe muita gente que o freio ou trave da lingoa impede a falla. Cfr. Chervien, Trad. pop. relatives à la parole, Paris s. d.

Fab. xv.L. 5 e 11) Branco e nobre concordam com coruo; em uelhaco, e astrosa aue, velhaco é substantivo (senão seria velhaca, a concordar com ave). — L. 17-18) Não conheço na tradição precisamente este proverbio, mas conheço outros analogos: Boca de mel || coração de fel[32]; Mel nos beiços, fel no coração[33]. O proprio autor do Fabulario exprime conceito analogo em ix, 20-22.

Fab. xvi.L. 6) fez [a] muitos mal. Accrescentei a, que escapou ao escriba do ms.; cfr. fazemdo-lhe muyto mall, xxi, 6, e que lhe nom fezesse mall, xxv, 4, onde a fazer mall se segue naturalmente complemento indirecto. — L. 7) tempo fuy. Esperar-se-hia tempo foy. Aqui fuy, se não ha erru por foy, é talvez archaismo (vid Morphologia), e não attracção do sujeito da oração seguinte.

Fab. xvii. — Com o sentido d’esta fabula cfr. o rifão: «Amor de asno || entre a couces e a bocados», em B. Pereira. Adagios (onde bocado está no sentido de «mordedura», accepção que falta no Dicc. do Caturra e noutros). L. 14-15) Entendo que o complemento directo de emssina é a oração de que, e que aaquelles é complemento indirecto. L. 15) e trabalham-se = e comtudo trabalham-se.

Fab. xviii.L. 1) [p]om este doutor emxemplo. Tambem num fabubario medieval italiano se lê pone l’autore che[34]. L. 8-9) nom me dá nada = não me importa. O autor emprega aqui dar por já ter dito antes dar dez uezes na mynha calua; o segundo dar, empregado em sentido um tanto differente do primeiro, estabelece certo contraste, que ameniza o estylo. — Hoje o mais usual é dizer-se «não se me dá», mas diz-se ainda, por ex. «que mais dá?» (= que mais importa?). Ás avessas o povo diz «não se me importa», com se, por «não me importa». — L. 10) farás de tua proll. Vid. Syntaxe.

Fab. xix.L. 6) todo «tudo» (archaismo). — L. 12) asseentados. Como se refere á raposa e á cegonha, que são palavras femininas, esperar-se-hia assentadas; mas o autor emprega o masculino de modo geral. A mesma expressão se repete na L. 3.

Fab. xx.L. 7) como «quando».L. 13-14 ca (a alma) he fecta aa ssimildom de Deus. Cfr. Genesis, I, 26: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. — L. 15) fica o corpo terra. Exprime-se a mesma ideia por outras palavras na L. 7-8: o corpo sse torna no elamento da terra; e cfr. L. 18: (as eruas e as aruores) .. tornam-sse em terra. — L. 15-18) Acêrca da alma rracionauyl que rreigna no homem e da alma vegetatiua que rreigna nas eruas e nas aruores, cfr. o que diz D. Duarte no Leal Conselheiro, cap. vi: «sam Gregorio declara que participamos d’estas tres almas, — vegetativa, que perteece aas plantas, sensitiva aas bestas, e racional aos anjos»[35]L. 16) da alma vegetatiua. Complemento de respeito. — L. 18) tanto .. quanto. Correlativos entre si.

Fab. xxi.L. 10-12) aquelles que em alto querem ssobir .. muytas vezes caem em terra. Este pensamento é muito antigo e espalhado. Em Horacio lê-se:

.. Celsae graviore casu

Decidunt turres[36].

Nos fins da idade-media, Macias o Namorado, diz:

Cando o louco cree mais alto

Sobir, prende mayor salto[37].

Ha tambem estes adagios: A grande salto, gram quebranto[38]; Quem de mais alto nada, mais de pressa se afoga[39]. E mesmo uma cantiga popular que ouvi no Baixo-Douro é assim concebida:

Eu hei de assobir ao alto,

Ao alto hei d’assobir:

Quem ao mais alto assobe,

Ao mais baixo vem cair.

Fab. xxiii. — No dialogo são um tanto fastidiosas as ennumerações, postoque o autor as dispusesse em antithese. — L. 6) bebo com taças. Ha aqui hyperbole, pois a mosca não bebe com taças, como uma pessoa, mas em taças. — L. 27-28) nehũa persoa nom dá a mym molesta. Deverá emendar-se molesta em molestia; o sentido vem a ser: «nenhuma pessoa me causa incommodo (ao passo que a ti todos te incommodam)». Cfr. em hespanhnl: molestia «enfado».

Fab. xxiv.L. 2) que lhe deuia muytos dinheiros depende de acusou. Hoje dizemos mais vulgarmente de que. — L. 3) jnocente do que ho lobo acusava = «innocente d’aquilo de que o lobo a accusava». Syntaxe condensada. Cfr. o meu opusculo O texto dos Lusiadas, Porto 1890, p. 46. — L. 11-12) Ha ás vezes desleixo de estylo, como aqui: aqueles que ssom .. e aquell que he. Esperar-se-hia o mesmo numero (singular ou plural) nas duas frases.

Fab. xxv.L. 9) fazias comtrayro. A mesma expressão se lê em xxxvi, 2: fazia comtrayro do que lhe sseu padre emssynaua. A palavra contrayro tem quasi a funcção de adverbio. — L. 14) o seruiço que sse faz de uoomtade, aquelle he bem fecto. Redundancia do pronome aquelle. De analogo uso em latim trata Madvig, Gram. latina (trad. port.), § 489-a.

Fab. xxvi.L. 4) pera se matar com ell. Vid. Vocabulario.

Fab. xxvii. — Esta fabula vem tambem contada em Manoel Bernardes, Nova Floresta, como já se disse no Vocabulario s. v. «vurmo». Bernardes colheu-a em Mayolo, Dias caniculares'', t. v, dialogo 1, fl. 791; a fonte é Aulo Gellio, Noctes Atticae, V, xiv, que diz tê-la extrahido da Hist. de Apion Plistonices, Aegyptiacorum lib. v. O heroe em Bernardes é Androdo, na litteratura classica é Androclus (houve substituição graphica de cl por d).

Fab. xxviii.L. 8) sabe por certo = tem como certo (por certo é nome predicativo). — L. 9) tocar teu pulso, i. é, «tomar-te o pulso». Em latim: venam tangere e venarum pulsum attingere.

Fab. xxix.L. 3) andaua loução, i. é, «caminhava (ia) loução». — L. 14) nom quero em ty luxar os meus couçes. Expressão analoga se lê em xi., 8. — L. 29) uãas glorias. No Leal Conselheiro ha tres capitulos sobre vangloria (capp. xii a xiv), onde D. Duarte cita os Estatutos de S. João Cassiano e as Collações dos SS. Padres. Cfr. p. 84: «a Nosso Senhor despraz .. a vãa gloria, que muyto claramente nos mostra taaes abatymentos nas cousas de que nos queremos gloriar e gabar, que bem poderemos conhecer como elle quer de todos nossos bẽes a el seerem dados louvores».

Fab. xxxi. — Deve entender-se que o gaviam que figura nesta fabula é femea, pois na l. 10 se lhe chama madre. Como se sabe, o nome gaviam (hoje gavião) é epiceno. — L. 8) choraua de coraçom. Cfr. em provençal: s’eu chan de boca, de cor plor, — apud Zs. f. roman. Philologie, xxix, 339, n.º 3.

Fab. xxxii.L. 6) Prazer-m’-ia de me rrazoar. Creio que me é dativo ethico, e não complemento directo, que é cousas na phrase seguinte.

Fab. xxxiv.L. 12-26. Nas palavras senhor, alcayde, terra, temos referencias ás instituições sociaes da idade-media. Vid. Vocabulario. — L. 29) tanto é complemento directo de dizer. — L. 43) Ssalamam diz: ffemina nula bona, etc. Salomão era muito lido por este tempo, como o mostra, por ex., o Leal Conselheiro, onde elle é citado varias vezes. Todavia aqui a phrase latina não lhe pertence, embora Salomão condemne as mulheres: Liber proverb., v, 5-8. Esta frase constitue um verso dactylico hexametro:

Femina nulla bona, quia ter mutatur in hora


da fórmula O Livro de Esopo - Pag. 148.jpg; só devemos acceitar que o ă de bona, por estar na cesura, foi contado como ā. O verso, de mais a mais, é leonino, pois bona rima com hora (assonancia); os versos leoninos, como se sabe, tinham muita voga na idade-media. A ideia expressa no 2.º hemistichio está contida naquillo de Vergilio, Eneida, iv, 569-570: varium et mutabile semper femina; a mesma ideia se encontra em adagios portugueses, hespanhoes e franceses:

Molher, vento e ventura
Asinha se muda…[40].
Mujer, viento y ventura
Pronto se mudan…[41].
Femme est un cochet à vent
Qui se change et mue souvent[42].

Com o primeiro hemistichio do verso latino da nossa fabula cfr. o que diz D. Duarte no Leal Conselheiro, p. 252, fallando das mulheres: «Se disserem poucas som as boas, eu digo que, etc.». O fabulista não fez pois mais do gue traduzir ideias correntes. Comtudo não sei qual é a proveniencia immediata do verso. — L. 45) A molher he vaso de demonio. Frase analoga se lê na Vida de Maria Egipcia: «ca nom posso eu aver gloria pellas minhas obras que fige en quanto foy[43] vaso do diaboo»[44]; e no texto latino da vida da mesma santa: fui diabolo vas electionis[45]. — L. 46) com outros gramdes sabedores, i. é «e outros grandes sabedores». Tambem em obras francesas da idade-media se diz que a mulher enganou Salomão e outros sabios: vid. P. Meyer in Romania, xv, 316 e nota 2. — L. 47) A molher he hũu armuzello do demonio. Quanto á fórma, cfr. Eclesiastes, ix, 12: sicut pisces capiuntur hamo, .. sicut capiuntur homines in tempore malo. Sobre armuzello vid. o Vocabulario. Nas Fabulas de Maria de França lê-se:

..dit hum en repruvier

que femmes sevent engignier:

les veziëes nunverables

unt un art plus que li diables[46].

O editor das Fabulas annota, a p. 362, que tambem no Roman de Renart, ed. de Méon, v. 7116, se diz da mulher: Plus de deables a un art. É vulgar encontrar nos livros de proverbios muitas diatribes contra as mulheres: cfr. Roux de Lincy, Proverbes français, t. I, p. lvii, onde dá amostras tiradas dos Contredicts de Songecreux De modo geral, a litteratura misogynica, ou anti-feministica, tinha grande voga na idade-media. Na Romania, vi, 499, dá o Sr. P. Meyer uma lista de varias diatribes. Cfr. Zs. für roman. Philol., ix, 296; e xxviii, 552 (Proverbia quae dicuntur super natura feminarum). Assim como se dizia mal das mulheres, tambem se fazia a apologia d’ellas: «Dire du bien, et surtout dire du mal, a été pous le moyen âge, comme pour l’antiquité, un des lieux communs de la litteráture», — P. Meyer in Romania, vi, 499. Cfr. do mesmo A.: a introducção aos Contes moralisés de N. Bozon, Paris 1889, p. xxxii; e um artigo na Romania, xv, 315 sqq., onde cita La bonté des femmes, poema contido em um ms. do sec. xv. — Estas discordias litterarias continuaram pelos tempos adeante. Vid. J. F. de Vasconcellos, Eufrosina, ed. de 1616, fl. 43 v (a favor) e 94 (contra); no segundo passo chama-se ás mulheres armas do Diabo e invoca-se Salomão. Ainda na litteratura portuguesa de cordel do sec. xviii se encontram folhetos intitulados Malicia dos homens contra a bondade das mulheres, Bondade das mulheres contra a malicia dos homens, — etc. — L. 49) passa de sabedor, i. é, «é mais que sabedor», «tem grande capacidade». Cfr. no Dicc. da ling. port. de Moraes, s. v. «passar»: passa de doido, passa de experto, i. é, «é doido de mais», «excessivamente doido», etc.

Fab. xxxv.L. 2) Tayda. A fórma Tayda corresponde ao accusativo grego Θαίδα, nominativo Θαΐς. Em português tambem se tem usado Thais: cfr. Historia das vidas de Santa Maria Egypciaca, S. Thais e Santa Theodora, por Diogo Vaz Carrilho, Lisboa 1737. Thais foi uma cortesã atheniense que, em virtude do seu arrependimento, a Igreja depois santificou. — L. 21) amarga. Aqui é verbo. — Na expressão a todo sseu proueyto a preposição a tem o valor de «para» ou «em».

Fab. xxxvi.L. 3) Castigar. Vid. Vocabulario. — L. 4) sem porquê. Vid. Vocabulario. — L. 7) ssem seu mereçer. Vid. Syntaxe, § 41-c. — L. 5) firio. Vid. Vocabulario. — L. 9-10) Quem quer castigar o leom ffere o cam: tem aspecto de adagio, tanto mais que no ms. alterna leom com leam; se aqui estivesse leam, a sentença seria rimada. — L. 10) fferidas. Vid. Vocabulario. — L. 13) maneira. Vid. Vocabulario. — L. 15) que: depende do diz da linha 12.

Fab. xxxviii.L. 5) leuauam a peor. Aqui a peor não se refere á ovelha. Levar a peor significa «tirar o peor resultado»; o contrario hoje é levar a melhor «avantajar-se». — L. 21-22) aas ouelhas que .. os lobos .. faziam d’elas maao pesar = ás ouelhas, das quaes os lobos faziam mao pesar. Anacoluthia. Cfr. Epiphanio Dias, Gram. port., § 250-b. — A respeito de fazer mao pesar, vid. Vocabulario, s. v. «pesar».

Fab. xxxix.L. 14-15) Para sujeito de dando subentende-se «este», referido a imijguo, que está na phrase anterior; lhe refere-se aos imijguos da l. 14. Depois de jmijguo, na l. 15, podia estar ponto e virgula, em vez de simples virgula.

Fab. xl.L. 19) o dya = durante o dia. Na l. 21, porém, está de dia. Não me parece que na l. 19 o dia esteja por ó dia (= ao dia), de acordo com aa noute, l. 20, pois seria natural que o ms. tivesse ao dia. É vulgar no texto exprimir-se o tempo sem preposição. — L. 25-26) este vesso que diz: ne ssyt alterius. Ha aqui allusão a um verso das Fabulas do Anonymus Neveleti:


Alterius non sit, qui suus esse potest[47]


o qual em um dos manuscritos começa: Non sit alterius[48]. Cfr. a ultima parte d’este verso de Phedro:


Regnare nolo, liber ut non sim mihi[49].


Fab. xli.L. 25) A expressão e diz, a que já me refiro na nota 1 que juntei á fabula, é estereotypada; d’aqui o engano do autor. — L. 30) hũu amyguo ssenpre lhe compre = a hũu amygio ssenpre compre. Anacoluthia. Cfr. a nota á fab. xxxviii, l. 21-22.


Fab. xlii.L. 14) A palavra que transcrevi por jhore não é bem clara no ms. O amanuense escreveu primeiramente parece que chope ou chore, com o p ou r junto do e; depois emendou o c em j. Em todo o caso essa palavra é certamente jorre, fórma popular de rroje (vid. jorro em Moraes, Dicc., s. v.); cfr. l. 4-5. — L. 18) sseer auaros ao nosso proximo, i. é, para o nosso proximo, para com o nosso proximo. O autor, na moralidade, emprega ora avaro (auaro), ora auarento, para variar o estylo. — L. 19) A sigla ·s· significa scilicet. — L. 20) serue aos jdolos. A expressão servir os idolos é da Biblia, por ex. em S. Paulo Ad Corinthios, I, v. Tambem no Leal Conselheiro, cap. xlvi, p. 260, se lê: «aquesto fez a rey Sallamon .. adorar os ydolos .. porque .. foy feito servo de quem nom devera»; e no cap. vxxx, p. 202: «servidõoe dos ydolos».

Fab. xliii.L. 14) depoys que o homem morrer. Emprêgo do futuro do conjunctivo com depois que; hoje diriamos depois de o homem morrer (infinitivo). Cfr. no Cancioneiro gallego-castelhano de H. Lang, i (1902), vv. 438 e 458, des que eu morrer, segundo a correcção da Sr.ª D. Carolina Michaëlis[50]L. 17) por o de Deus, não significa «por o marteyro de Deus» (ellipse), mas, como me indica o meu amigo e mestre o Sr. Epiphanio Dias, «por amor de Deus». O mesmo illustre professor apresenta-me os tres textos seguintes e illustrações latinas, em apoio d’esta explicação: pollo meu, em Azurara, Chronica da Guiné, cap. 85, expressão correspondente á latina meã causã «em attenção a mim»; polo seu, no Cancioneiro de Resende, iii, p. 617 («..aconselhado || foy el-rrey, qu’era forçado || polo seu de me matar», onde de me matar é sujeito grammatical de era forçado = era forçoso); polo meu, em D. Denis, ed. de Lang, v. 53, pag. 14 («e, senhor, nom vos venh’esto dizer || polo meu, mais porqu’a vós está mal», passo com o qual se póde comparar este de Cornelio Nepote, Epam., cap. iv: istud quidem faciam, neque tua causa, sed mea). Aos textos citados juntarei da minha parte mais dois, que encontrei ulteriormente: «e meus desejos me fazem || contente morrer por vosso», no Cancioneiro de Resende, 1.ª ed., fl. xliv-v, col. 5, vv. 5-6; e «pero me desamparades, || por vosso morrei[51] agora», no Cancioneiro gallego-castelhano de Lang, i, Nova-York 1902, vv. 15-16, p. 3, onde deve pois corrigir-se, no Glossario, p. 267, a definição «as your lover» em «por amor de vós».

Fab. xliv.L. 3) que = de modo que. Cfr. lxi; 40. — L. 15) Arguu = Arguo, lat. Argus, guardador da vaca Io, o qual tinha cem olhos, como diz Ovidio, Metamorph., i, 625:


Centum luminibus cinctum caput Argus habebat


Na fabula de Phedro, II, viii, correspondente á nossa, não se menciona Argus, diz-se simplesmente:


Sed ille, qui oculos centum habet, si venerit…


onde centum está por «muitos», segundo o estylo latino, mas com visivel allusão a Argo. Esta allusão torna-se realidade nas Fabulas de Gualterius Anglicus, com as quaes as nossas mais directamente se relacionam; ahi se diz, lviii: si uenerit Argus[52]. — L. 29-30) e o sseu seruidor nom o vyo = ao passo que o seu servidor não o viu.

Fab. xlv.L. 37) Com o versiculo latino cfr. o Evangelho de S. Matheus, x, 26, Nihil est .. opertum, quod non revelabitur, et occultum quod non scietur, e o de S. Lucas, viii, 17, Non est enim occultum, quod non manifestetur, etc. As sentenças d’este teor eram muito vulgares na litteratura. Tambem no Leal Conselheiro, cap. lxxxiii, p. 403, se lê, em fórma de adagio rimado: «Não ha cousa ascondida || que nom seja descoberta e sabida», sentença que concorda singularmente com a que se lê nos versos do Arcipreste de Hita ou Fita (sec. xiv:


Et segund dis Jesu Christo, non ai cosa escondida

Que a cabo de tiempo non sea bien sabida[53].


Fab. xlvii. — Não foi sem hesitação que na linha 2 (cfr. nota 6) propus que deus se emendasse em deus[es], porque o manuscrito, no geral, não está muito incorrecto. Levou-me a propôr a emenda o facto de logo adeante se ler duas vezes deoses, embora com o. Todavia, apesar d’esse facto, e de já um grammatico do sec. xvi legislar que o plural de deos é deoses[54], seria possivel que a fórma deus do nosso Fabulario correspondesse á latina deos, e equivalesse pois realmente ao plural, tanto mais que a fórma deoses, com relação ao nomin. lat. dei, dii, di, ou ao accus. deos, é inteiramente irregular, e por tanto moderna, e que em hespanhol do sec. xiii ha o pl. dios, do lat. deos, que, como se vê, é igual ao sing. dios (hoje diós), do lat. deus[55]

Fab. xlviii.L. 10) Depois a pouco tempo. Vid. Vocabulario, s. v. pouco.

Fab. l.L. 7) fundo. Vid. Vocabulario.

Fab. li.L. 3) d’ellas. Complemento partitivo. Isto é: apanhava algumas d’ellas. — L. 4) E esto quantas ell queria = e d’esta maneira tomava e comia quantas elle queria. Aqui esto corresponde, no sentido, ao latim ita. — L. 8) a fim = o intuito. Vid. Vocabulario.

Fab. lii.L. 3) do pam. Vid. Syntaxe, — L. 4) por tall que. Vid. Vocabulario s. v. «tal». — L. 18) Ao peccado da gargantoice ou «gula» se refere tambem o Leal Conselheiro, cap. xxxii, posto que não haja semelhança na fórma entre esse capitulo e a fabula.

Fab. liii.L. 15) Cfr. com esta sentença o Ecclesiastico, xix, 4: Qui credit cito, levis corde est, que D. Duarte no Leal Conselheiro, cap. xxxvii, 214, verteu assim em vernaculo: «quem de ligeiro cree, he de leve coraçom».

Fab. liv.L. 4) ssegurarom-sse. Vid. Vocabulario. — L. 6) ssom = ha. Lat. sunt. — L. 8) O adagio tem fórma moderna mais generica: cão que ladra, não morde.

Fab. lv.L. 1) cordeyro. Vid. Vocabulario. — L. 3) pouco estando. Vid. Vocabulario.

Fab. lvi.L. 7) ferir. Vid. Vocabulario.

Fab. lvii.L. 14) aquella por «aquillo» é um exemplo de attracção para esperança. Cfr. Epiphanio Dias, Gram. port., § 189, obs.; Madvig, Gram. lat., § 313.

Fab. lviii. (Esta fabula concorda com a lv) — L. 3) como tem valor temporal: «logo que», «depois que».

Fab. lix.L. 11) confiar d’aquelles = ter confiança a respeito d’aquelles = contar com aquelles. Tambem em lat. confidĕre de aliqua re. — L. 4) lhe deu .. termo a que lh’o pagasse = marcou prazo ao pagamento. O mesmo uso syntactico da preposição a se encontra, por ex., nestas phrases do sec. xv: «se obrigauam per scprituras pubricas a lh’os darem a çerto tempo»; «se lhe nom pagassem a çerto tempo»[56]. — L. 14) ssegundo Deus. Vid. Vocabulario, s. v. «Deus».

Fab. lxi.L. 8) de furto (não do furto): em sentido indefinido = de furtos. — L. 16) rrogando. Vid. Vocabulario. — L. 20) mesteres. Vid. Vocabulario. — L. 30) ho outro dia, do combate = no outro dia, que era o do combate. — L. 30-59. Temos nesta narração exemplo de um duello judiciario, combate singular, desafio, prova por lide, ou como se lhe quiser chamar. Constituia um dos juizos de Deus, a que tão vulgarmente se recorria na idade-media para se decidir da veracidade ou falsidade de um facto; da existencia dos juizos de Deus na Peninsula, e especialmente em Portugal, falla A. Herculano, Hist. de Portugal, iv (1853), 371-379 (sobre os combates singulares, vid. p. 373 sqq.). O nosso caso apresenta muitas das circunstancias que se notavam nas lides: o accusador luta com um campeão do accusado; o combate é á espada; assistem magistrados, aqui representados pelo rei e seus barões. Tambem no romance francês (ms. do sec. xiv de Joufroy um dos combatentes quebra um braço ao outro; cfr. Langlois, La soc. fr. au xiiie siècle, p. 31. Sobre combates judiciarios em outros textos franceses medievaes cfr. Modern lang. notes, xx, 46; e G. Paris, Le roman du comte de Toulouse, Paris 1900, p. 23, nota. — L. 35) Ho uaqueyro cobria-sse. Defendia-se, esquivava-se. — L. 41) que. Conjuncção consecutiva. Cfr. xliv, 3. — L. 68-70) Parafrase da conhecida sentença de Ennio, em Cicero, De Amicitia, xvii, 64: amicus certus in re incerta cernitur. — L. 70-71) sseu .. sseu. Na phrase a que pertence o primeiro sseu ha synese[57]; essa phrase corresponde a os amigos ninguem os acha ssenom pera leuar-lhe o sseu, e por isso sseu como que se refere a ninguem. O segundo sseu refere-se a amyguos, isto é, aos amigos interesseiros, ou lobos rrabazes, como se lhes chama na l. 72.

Fab. lxii.L. 4) que = em que. Ellipse da preposição.

Fab. lxiii.L. 17) per afagos que nos façam: isto é, «em troca de afagos que nos façam», e não «por muitos afagos que nos façam», pois em tal caso devia entrar na frase um adjectivo, como por ex: xli, 28, «por muy poderoso e rrico que sseia»; xlviii, 22, «por pequena que sseia»; lvii, 12-13, «por nhũa gram tribulaçom que o homem aja».

As frases latinas que se seguem ao texto fas fabulas deve entender-se que foram acrescentadas pelo amanuense do sec. xv que o copiou.

1) O explicit é muito frequente, tanto nos mss. medievaes, como ainda nos primeiros tempos da imprensa; corresponde-lhe hoje «fim». Por ex: num ms. de fabulas do sec. xiii-xiv, da Bibliotheca de Paris, lê-se Explicit esopus[58]; noutro, do sec. xiii, da Bibliotheca de Wolfenbüttel, lê-se o mesmo[59]; num livro impresso em 1477 lê-se: explicit presens vocabulorum materia[60]. Seria desnecessario citar mais exemplos.

2) Liber Exopy. D’aqui se vê que o titulo da obra era O Livro de Esopo; por isso o poderia eu adoptar em vez de Fabulario, que até aqui adoptei. Ha tambem um ms. das fabulas do Anonymo de Nevelet (= Gualterius Anglicus) que começa assim: incipit liber Ensopi[61]. O titulo Liber Esopi era apposto frequentemente aos fabularios medievaes[62]. Ás vezes a palavra Esopo significava na idade-media «collecção de fabulas»; cfr. um explicit em Hervieux, Fabulistes latins, i, 577: «explicit liber fabularum qui dicitur Esopus» e outro ibid. p. 578: explicuit Esopus.

3) Cum alegorijs. Aqui alegorijs = allegoriis, no nominativo allegoriae, significa «moralidades». Do fabulario italiano de Francesco del Tuppo diz Brush: «The author of the Del Tuppo Collection, not content with a mere translation of Walter’s text, added thereto various moralizations entitled respectively: ..Allegoria or Exclamatio allegorica .. Historialis Allegorica, etc.»[63]. Conheço um livro italiano intitulado Bertoldo con Bertoldino e Cacasenno in ottava rima con argomenti, allegorie, Venezia 1739, onde as allegorie são tambem especies de moralizações postas no comêço de cada canto. Cfr. o que digo mais adeante, p. 154.

4) Deo gratias. Fórmula corrente, e conservada até tarde, no final das obras. Cfr. Buchot, Le Livre, Paris (1886), p. 46. — Um dos mss. do Anonymo de Nevelet (= Gualterius Anglicus) termina tambem: Explicit liber Esopi, deo gratias, amen[64]. No final do Isopo Ricardiano ha uma fórmula analoga a esta[65].

5) A expressão:

finito libro ssit laux gloria christo


fórma um verso dactylico hexametro, que deve ser interpretado d’este modo:

Finito libro, sit laus [et] gloria Christo.


Elle era muito frequentemente posto pelos copistas medievaes no fim das suas copias[66]; encontra-se, por exemplo, num ms. do Anonymo de Nevelet que está na Bibliotheca Nacional de Paris, sec. xiv, e noutros do mesmo seculo[67]. Uma das redacções portuguesas da Estoria do Tungulu (sec. xiv) termina tambem com elle[68].

6) A expressão:

scriptor est talis demostrat[69] litra qualis


fórma outro verso hexametro (leonino):

Scriptor est talis demo[n]strat lit[t]era qualis.


Encontram-se não raro nos livros da idade-media fórmulas finaes, analogas a esta: por exemplo, na citada redacção da Estoria de Tungulu, o hexametro (leonino):

Qui scripsit scribat, [et] semper cum Domino vivat[70].


Alguns copistas costumavam indicar o proprio nome, o que este porém infelizmente não fez.

Como se disse no logar respectivo (vid. supra, p. 5), as nossas fabulas deviam ser adornadas de estampas allegoricas; só porém se fizeram duas, ficando em branco o espaço para as outras. Tambem nisto o manuscrito está de acordo com outros medievaes de fabulas, ornamentados de illuminuras e desenhos[71], — costume que tem durado. até hoje.

NotasEditar

  1. Vid. G. Baist, Die Spanische Litteratur (no Grundriss der roman. Philologie, II-2, p. 413 e n.).
  2. Marcação bibliothecal: h-III-1.
  3. Cfr. Savérien, Histoire des philosophes anciens, vol. I (1773), p. 143 sgs.
  4. Este assunto foi já brevemente tratado por mim na Revista Pedagogica, I, 389-390.
  5. Digo Bellovacense, pois que Beauvais vem de Bellovaci. Num livro português, intutulado Centinela contra Judeos, de Pedro Lobo Correia, pp. 210 e 211 (ed. de 1710), lê-se «Vicente Belvacense».
  6. Vid. Hervieux, Les fabulistes latins, t. II, 2.ª ed. (1894), p.234.
  7. Vid. De sera numinis vindicta, XII.
  8. Vid. Hist., II, 134.
  9. Acêrca da facilidade com que -us e -is se confundiam em geral nos manuscritos da idade-media, diz Lindsay: «En capitales et en onciales, aussi bien qu’en minuscules, la ligature de -us ressemble beaucoup á -is. Dans l’ancienne écriture minuscule, on emploie parfois la même abréviation pour l’un que pour l’autre», — vid. Introduction à la critique des textes latins, Paris 1898, p. 100. Da juncção da preposição ao respectivo caso os exemplos são tão numerosos, que nem valia a pena insistir nisto; todavia cfr. o que diz o mesmo Lindsay ao fallar da escrita minuscula da idade-media: «Les petits mots tels que les prépositions .. sont habituellement joints aux mots voisins plus longs», — ibidem, p. 19.
  10. No copista que commetteu o erro da troca póde ter influido a ideia de que Adelpho ou Adelfo era realmente nome e appellido noutras circunstancias, nas quaes provém da citada palavra grega. Ha mesmo um bispo S. Adelpho, que se venera em 20 de Agosto. Adelphus é tambem cognomem romano.
  11. Hervieux, Les fabulistes latins, I, 576 (2.ª ed. ?).
  12. Hervieux, ob. cit., pp. 591, 592.
  13. Cfr. De Vit, Onomasticon, s. v. «Aesopus».
  14. Vid. L. Hervieux, Les fabulistes latins, t. II, 2.ª ed., Paris 1894, p. 195.
  15. Idem, ibid., p. 234.
  16. Idem, ibid., p. 513.
  17. Idem, ibid., p. 474.
  18. Vid. G. Paris no Journal des savants, 1884, p. 678, nota 2; e Hervieux, Les fabulistes. I (2.ª ed.), 302.
  19. Mesmo assim interpretou-a com mais logica do que o traductor hespanhol, pois este, no ms. escurialense, tem «cibdad de Atica», considerando-a substantivo e não adjectivo, como realmente é.
  20. Les fabulistes, I (2.ª ed.), 293-305.
  21. Paris, Aillaud, Monlon & C.ª, 1854. — Quando neste trabalho citar o Leal Conselheiro, entenda-se que cito sempre esta edição.
  22. Tradução do latim: Os versos de Esopo não aborrecem: a fábula produz flores, as flores geram fruto; ele é sabio.
  23. Tradução do latim: O livro de Esopo é uma planta; mas Esopo dá boas palavras.
  24. Roberto, Fables inédites des XIIe, XIIIe et XIVe siècles, t. I, Paris 1825, p. LXXXIV, nota.
  25. Lenda dos Santos Barlãao e Josafate, ed. de Vasconcellos Abreu, Lisboa 1898, p. 8, l. 20. — O respectivo manuscrito é dos fins do sec. xiv ou começo do sec. xv: vid. Epiphanio Dias, in Zeitschrift für roman. Philologie, xxvii, 465. A lingoa porém é certamente do sec. xiv. Seria mais conforme com a verdade, como já acima (p. 120) notei, intitular esta obra Vida do honrrado Iffante Josaphat, pois é assim que está no original.
  26. Ob. cit., p. 8, l. 24.
  27. Demanda do Santo graall, ed. de Reinhardstoettner, Berlim 1887, p. 17.
  28. = barra
  29. Doc. de 1531, no Archivo Hist. Port., I, 226.
  30. De conjuratione Catilinae, cap. IX.
  31. Apud G. Paris, François Villon, Paris 1901, p. 182.
  32. Rolland, Adagios, Lisboa 1780, p. 160.
  33. Bento Pereira, Prosodia, Evora 1723, p. 228.
  34. Brush, The Isopo Laurenziano, Columbus (Ohio) 1899, p. 52. Já em latim: alicui praemium ponere «propôr»; cfr. tambem proponere exemplum; proponere exemplar.
  35. Pag. 49.
  36. Carmina, II, x, 10-11.
  37. H. Lang, Cancioneiro gallego castelhano, i (1902), 7. — Cfr. Rennert, Macias o Namorado, a Galician trobador, Philadelphia 1900, p. 36.
  38. D. Carolina Michaëlis, Tausend port. Sprichwörter, n.º 172.
  39. Prosodia, de Bento Pereira (Adagios).
  40. Adagios Portugueses de Delicado, Lisboa 1651, p. 138.
  41. Refranes de H. Nuñez, Madrid 1619, fl. 73 v.
  42. Proverbio francês em um ms. do sec. xiii, apud Roux de Lincy, Proverbes français, ii, 490.
  43. «Fui»
  44. Cornu, Anciens Textes, p. 16.
  45. Acta sanctorum, April. I, ed. de Antuerpia, 1675, p. 79.
  46. Vv. 53-56. Ed. de K. Warnke, Halle 1898, p. 152.
  47. Hervieux, Les fabulistes latins, ii, 2.ª ed., p. 327.
  48. Em Förster, Lyoner Yzopet, Heilbronn 1882, p. 108.
  49. Fabulae, III, vii, 27.
  50. Na Zeitschrift für roman. Philologie, xxviii, 225.
  51. = morrerei (fórma arc. do futuro).
  52. Hervieux, Les fabulistes latins, ii (2.ª ed.), 346.
  53. Libro de cantares ou de buen amor, est. 80-81 (Collección de poetas castellanos anteriores al siglo xv).
  54. João de Barros, Gram. da ling. port. (na Compilação de varias obras, ed. de Lisboa, 1785, p. 107).
  55. Cfr. Menéndez Pidal, Manual de gram. histor. esp., Madrid 1905, p. 131 (§ 75-3). — A titulo de exemplo, citarei estes versos do Libro de Alexandre (da Coll. de poetas castellanos anter. al siglo xv:

    Allá sobre los çielos a los dios enioauam (est. 252-b);

    Alli fueron lamados los dios e las deessas (est. 313-a);

    Eran enna carreta todos los dios pintados (est. 817-a).


    D’este modo, deus no nosso Fabulario seria um archaismo, comparavel a outros que lá se encontrem, como dey «deu», er (particula) e veençudo «vencido» (archaismo, já se vê, em relação á epoca revelada pela lingoa geral usada no manuscrito).

  56. Vid. Archivo Historico Português, ii, 48 e 49.
  57. Cfr. Epiphanio Dias, Gram. port., § 250-c.
  58. Apud Förster, Lyoner Yzopet, Heilbronn 1882, p. ix.
  59. Förster, loc. cit., p. x.
  60. Apud Bouchot, Le Livre, Paris (1886), p. 46.
  61. Apud Robert, Fables inédites des xiie, xiiie et xive siècles, vol. i, Paris 1825, p. xciij.
  62. Hervieux, i, 567, etc.
  63. Brush, The Isopo Laurenziano, Columbus (Ohio), 1899, p. 35.
  64. Vid. Hervieux, Fabulistes, i, 508; outros exs. a pp. 510 e 538.
  65. Ghivizzani, Il volgarizzamento delle favole di Galfredo, Parte ii, Bologna 1866, p. 155.
  66. Cfr. Hervieux, Fabulistes, i, 504, 581 e 589.
  67. Cfr. Hervieux, Fabulistes, i, 504, 505 e 509.
  68. Vid. Rev. Lusitana, iii, 120 (artigo de Esteves Pereira).
  69. = demõstrat.
  70. Vid. Rev. Lusitana, iii, 120.
  71. Cfr. Hervieux, Fabulistes lat., I, 510 (sec. XV); I, 528 (sec. XV). E. W. Förster, Der Lyoner Yzopet, Heilbronn 1882, p. 1.