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O Livro de Esopo por Esopo
XLVI - O leão e o rato
Transcrição e Notas de Leite de Vasconcelos. Vid. também O Leão e o Rato, traduzida por Manuel Mendes da Vidigueira.


XLVI. [O leão e o rato]

       [Fl. 34-r.][D]iz que foy hũa vez hũu leom que jazia em hũu mato de so hũa fremosa verdura. E os rratos ssobiam per çima d’elle, pera escarneçerem d’elle; e elle tomou hũu e queria-ho matar. E ho rrato lhe rrogou que lhe nom fezesse mall, ca nom seria ssa homrra, dizem[do q]ue [em][1] algũu tempo lhe poderia fazer algũu boo s[erviço][2]. E o leom o leixou, e nom lhe fez mall. [E ho] rrato lhe deu muytas graças.

E d’hi a [pouco] tempo cayo o leom em hũu laço que lhe fezerom os caçadores pera o filhar: e o leom começou de braadar altas vozes. E este rrato, a que ell perdoára a morte, lhe disse:

— Quamtos leões no mundo ssom nom te podem d’aquy liurar! Mays eu, que ssom a mais vill alimalia do mundo, pella graça e bem que me fezeste, te quero liurar.

E loguo ssobio e rroeo ha corda que tijnha no pescoço e liurou-[ho] [3] d’aquelle prijguo[4]. E o leom veem[do]-ss’ em[5] liberdade, deu muytas graças ao rrato, e foy-sse sseu caminho.





Em esta hestoria[6] o doutor emssina os grandes[7] homẽes do mumdo e os poderosos, que nom despreçem os pequenos que ham pequeno poder, ca nom he nhũu homem de tam /       [Fl. 34-v.] pequeno poder que nom possa seer proueytoso em algũu tempo aaquell que he gramde e poderoso. Tall seruiço lhe póde fazer hũu homem pequeno, que lh’o nom póde fazer hũu gramde.

NotasEditar

  1. As lettras que ponho entre colchetes, aqui e mais adeante, faltam, porque o ms. está roto. Com relação a em, notarei que não é muito certo que essa palavra esteja no ms. (sob a fórma ), pois ha lá uma sombra que tanto póde ser , como simples mancha; todavia na moralidade lê-se em algũu tempo, — e isto confirma a emenda que faço (o auctor repete muitas vezes na moralidade, como já temos visto, certas palavras da fabula).
  2. O ms. está roto; todavia depois de boo vêem-se restos de uma lettra que póde ser s, e que interpreto por a primeira de serviço, escrito em abreviatura, como noutros logares. A palavra serviço, que se lê na moralidade, confirma esta interpretação. Acha-se a mesma expressão bom serviço, por exemplo, na fab. VIII, moralidade (no ms. alterna boo com bõo e bom.
  3. Ainda se percebe a parte superior do h.
  4. Aqui, prijguo por extenso, e não com a abreviatura usual.
  5. O ms. está roto, e só distingo veem..ss.. seguindo-se aos ss uns traços que só pódem representar as extremidades superiores de e e m.
  6. Poderia tambem ler-se hestorea, porque a lettra que parece i não é bem nitida; todavia o usual no ms. é hestoria.
  7. Neste logar o ms. está um tanto delido, mas depois de emssina distingo os gñdes (o til abrange o n e o g). A leitura os grandes confirma-se plenamente com a expressão grande e poderoso que se lê mais abaixo.