Os Lobisomens/II

CENA IEditar

JÚLIA e AMÁLIA

(Júlia vai entrando desembaraçadamente e Amália com muita timidez).

JÚLIA (Baixo a Amália) - Não tenhas medo, nem vergonha. Nós não somos gente, porque somos máscaras; e as máscara só têm rubor de vermelhão. Olha como isto aqui está bonito! Que mesa, que tafularia! Isto é para depois do baile! Quem serão os senhores convivas desta bela ceia?

AMÁLIA - És muito animosa! E...

JÚLIA - E curiosa, dize. E para que me acompanhas? Eu quero ver tudo e para isso é que paguei. Não sei o que sinto de sem-cerimônia e coragem com esta máscara. Parece-me que ando numa solidão, sem me importar com nada! Ainda não encontrei uma vítima a gosto; tudo o que se vê são insignificâncias, coisas vulgares, rótulos forçados. Queria pilhar um graúdo, assim um deputado, um senador ou um ministro. Quem sabe se isto é deles?

AMÁLIA - Pensei que houvesse mais desordem, mais barulho; porém vejo tudo aqui em perfeito andamento. As salas estão bonitas e a música faz cócegas deveras.

JÚLIA - Havemos de dançar daqui a pouco. Lá no outro teatro há mais liberdade e alegria, porque lá está a rapaziada; isto aqui é mais calmo, por ser mais sério. Não Penses que seja lá muito sério. Queira Deus que o senhor Alfredo com esta folga que lhe dei, não ponha as manguinhas de fora; porque aquele menino tem sangue nas veias, e umas tendências... umas tendências!...

AMÁLIA - Não sei como nos deixaram entrar, aqueles dois guardas. Olha, lá fecharam a porta a dois máscaras, e agora? Estamos fechadas!

JÚLIA - É que nos tomaram por algumas das que hão de aqui cear.

AMÁLIA - E depois? Como sair?

JÚLIA - Se não acharmos aberta, veremos. Esta mesa está me dizendo que isto tudo é de gente fina, pois está tudo em regra diplomática.

AMÁLIA - Ando como tonta e a tremer. Vamos indo para a porta...

JÚLIA - Sair; sem saber o que isto significa? Nada, não quero perder tempo.

AMÁLIA - Já vimos tudo, vamos para casa. Pregaste-me aquela peta e eu, como sempre crédula, caí e vim ao baile sem querer. Olha que tu és a responsável desta loucura. Se ele soubesse?... Onde está ele?!

JÚLIA - Não te assustes, que não há de quê. Também não és nenhuma escrava. Fizeste muito bem, porque ganhei uma caleche. Apostei em como vinhas ao baile e ganhe!.. Fazer uma caridade aos meus pés e um agradável conchego ao meu corpinho, ao meu amor próprio, que é alguma coisa.

AMÁLIA - E à tua vaidade, não?...

JÚLIA - A tudo, a tudo, certamente. Eu morria por uma caleche e já a tenho; falta-me agora um camarote no teatro italiano e uma chácara na Tijuca ou em Petrópolis.

AMÁLIA - Mas isso tudo vai fazer uma despesa enorme!

JÚLIA - A aritmética não foi feita para os passarinhos, porque esses não têm guarda-livros. Pelo contrário, menina, é uma grande economia. Tu não sabes, que assim prendo o senhor Alfredo das Arábias, que é um pássaro fujão e de instintos carna... carnívoros?

AMÁLIA - Não o creio capaz de tal sujeição.

JÚLIA - Na república doméstica, quando o cidadão abusa da liberdade, arma-se-lhe uma destas prisões, para tê-lo o maior tempo em custódia.

AMÁLIA - Os homens fazem as leis, têm calças e vão à guerra, enquanto ficamos em casa.

JÚLIA - Com jeito e paciência tudo se arranja. Uma mulher é tudo para um homem, logo que ela não perde o siso e a perseverança. Estás triste?

AMÁLIA - Nunca me achei nestas coisas; não estou a meu cômodo, nunca vim aqui.

JÚLIA - Nem eu. Dize: se os soldados precisassem de guerrear antes de entrar em batalha, como se faria isso? Se tudo andasse por ensaios, ninguém se casaria...

AMÁLIA - Menos eu, que ainda me não arrependi.

JÚLIA - Pois eu já; e como não tenho remédio, pus mãos à obra e disse: alto lá, que Deus não me deu cabeça para dar cabeçadas; e a coisa vai correndo às mil maravilhas. Arranquei-o dos lobisomens e o considero arrependido.

AMÁLIA - Meu Deus! Aí vem gente; acabou-se a contradança. Vamos que podem vir os donos da sala. Olha! Lá está um cão enorme falando com o guarda, e apontando para nós.

JÚLIA - Sairemos com todas as honras dos (- ilegível -). Isto aqui é tudo de gente fina. Não há que temer.

DOUTOR ALBANO (No fundo; vestido de lobo coroado, e falando ao guarda) - Aqui não entra um mosquito macho, sem cantar à orelha o santo e a senha bem claramente; senão temos o diabo a catorze. O madamismo pode entrar livremente, porque logo faremos a apuração, ao tirar das máscaras; e demais, aqui só virá quem for de casa, ou tiver convite. As juritis são mais tímidas do que os gaviões.

OS GUARDAS - Não há que temer. Já lá estão duas senhoras, que não conhecemos.

AMÁLIA - Ouves?

JÚLIA - Ouço.

DOUTOR ALBANO - Estejam duzentas. Conheçam-me dos homens e basta. Vocês aqui são como dois eunucos do serralho. Mulher, passa; homem, ferro no justo. Muita civilidade em todo o caso, e trancando logo a porta. Há mouros na fronteira, piratas na costa e salteadores pelo recôncavo. Entendem-me?

OS GUARDAS - Perfeitamente.

AMÁLIA - E se nos obrigarem a sair?

JÚLIA - Com a cara que entramos com ela sairemos; e sem mudança alguma.

AMÁLIA - Aí vem o tal cachorro, vamos, vamos depressa Pelo outro lado.

JÚLIA - Espera, não tenhas medo, não morde, tem dentes de papelão.

CENA IIEditar

DOUTOR ALBANO, JÚLIA e AMÁLIA

DOUTOR ALBANO (Vendo tudo com minúcia) - Está bem; este copeiro sabe pôr uma mesa! (Levanta o reposteiro) Já está o toucador com luzes, bom; parece que nada faltará. Teremos uma noite como muitas, uma das mil e uma noites do oriente. (As duas damas querem fugir pelo lado oposto, mas ele as ataca de braços abertos) Quem é pontual, espera. Bravo, que elegância! O relógio do amor tem uma corda magica, adianta-se no começo e se atrasa sempre no fim. Podem tirar as máscaras, minhas deidades, e mostrar já esses rostos divinais. Querem tomar alguma coisa? Marrasquino, creme de amêndoas, cravo, canela, baunilha, curaçau legítimo e até laranjinha de Parati? Aqui é pedir por boca e sem a menor cerimônia.

JÚLIA - Obrigadíssima; ainda é cedo.

(Amália quer fugir e puxa por Júlia, mas ele não as deixa).

DOUTOR ALBANO (Indo para ela, fazendo passos) - Adivinho, e que delícia! Ali está o toucador, preparadinho por este bichinho, que tudo sabe e tudo previu. (À parte) Vejo que a de vestes cândidas é uma candidata; a quem pertencerá esta tímida pombinha? Vamos animá-la.


"Grão-mestre, mordomo e guarda
Desta mansão venturosa,
As damas só falo em verso,
E aos homens em chilra prosa.

"Ali está um camarim,
Por biombos separado,
Com sofás, banhos e leitos,
Tudo no trinque arranjado!

"Como em um templo de aromas,
Em cristais e porcelanas,
Tenho ali quanto perfuma
As terras das Taprobanas!

"De lá foram, pelos mares,
Para Londres e Paris,
Receber nos alambiques,
Receber no almofariz,

"Tudo quanto a primavera
De mais cheiroso produz;
Tudo quanto a uma coqueta
Atrai, encanta e seduz!

"Temos tudo: pó de arroz,
Coldecreme, glicerina,
Essência de violetas,
E o tutaninho de quina.

"Sabão da flor de Ispahan,
Extrato Jardim de Itália,
Alva creme de baunilha
Almíscar puro da Austrália.
Farinha olente de amêndoas,
Leite de arábio pepino,
A vera essência de rosas,
E o filócomo divino;
O elixir de Ninon,
Água, mesmo de Colonha;
Pastilhas de grão-serralho,
E as gotinhas de Bolonha.

"Tudo quanto faz Pinaud.
Para a Espanha, para a Ausônia,
Para a Prússia, Áustria, Suécia,
Para a Rússia e a Saxônia;
Para os Estados Unidos,
Para o Peru e o Chil
Para a União Argentina
E o Império do Brasil."

JÚLIA


- Cortaste um É! Foi a rima,
Que faz brancas as formigas!
Pára, ó vate, não prossigas;
Que tens grosa em vez de lima.

DOUTOR ALBANO - (Ajoelhando-se)


Ó divina poetisa,
Se excitei a tua ira,
Eis-me por terra, e vencido
A teus pés quebrando a lira.
Não sou lobo, sou cordeiro;
Sou um bichinho de amor;
Sou pombinho arrulhador,
Que amor prende ao cativeiro.

(Tira a máscara)

JÚLIA - (Contendo-se, por conhecê-lo)


Já que estás desencantado
Do teu fado e dessa lida,
Vai, pombinho lobisomem,
Procurar tua nova vida.

AMÁLIA (Reconhecendo Albano) - Meu Deus! Será ilusão ou realidade?!

DOUTOR ALBANO - Bravo! Isto é de fazer morrer a gente! Secou-se-me a musa, mas hei de umedecê-la com o champanhe. Agora, tire a sua máscara.

JÚLIA - Ainda não, meu senhorzinho, ainda é cedo.

PRIMEIRO GUARDA - Senhor Chefe, aqui o procuram. É de casa, mas não quer entrar. Venha, que se estão amontoando alguns curiosos na porta.

DOUTOR ALBANO (Pondo a máscara de lobo) - Já lá vou. (Para as duas damas) Eu já volto a vossos pés.

CENA IIIEditar

AMÁLIA e JÚLIA

AMÁLIA - Estou fora de mim e horrorizada do que vi! Quem diria? O Doutor Albano, aquele homem tão grave e tão sisudo?!!

JÚLIA - Não te alteres, que é perder tudo. Caímos mesmo no covil dos lobos! E que te parece o santarrão do nosso médico e conselheiro?

AMÁLIA - Dizes bem, e conselheiro! Se tu soubesses de uma que ele me pregou! Verdadeiramente os homens são muito argutos: têm livros feitos de propósito e escritos em todas as línguas! Que refinado hipócrita! Vamos, mana.

JÚLIA - Espera. Que foi isso, que livros foram esses?

AMÁLIA - São contos largos, minha irmã, são contos largos. Vamos, vamos.

JÚLIA - Se queres ir, vamos; mas repara que ainda não vimos tudo, e aqui...

AMÁLIA - Sinto-me desfalecida. Não sentes aqui um bafio desagradável, um ar pesado, uma atmosfera repugnante?

JÚLIA - Pelo contrário. Mas é tempo, vamos, que a porta está livre. Aonde estará o meu senhorzinho da minha alma? Vamos, vamos depressa. (Vão indo, mas recuam)

CENA IVEditar

(Entram vários Mascarados; Júlia, depois de os observar e ás damas que os acompanham, vai-se sumindo por entre eles com Amália. Entram mais alguns.)

PRIMEIRO MÁSCARA (A sua dama) - Quase que lhe quebrei a máscara na cara! Já te pedi para que não tires a máscara quando andares comigo pois sabes que estes brejeiros conhecem o dedo pelos anéis. A desculpa do calor é que não é boa, não me convence.

PRIMEIRA DAMA - Gentes! Como está cheio de partes. (À parte) Era ele mesmo, e com que graça! (Alto) Se serve, serve; e se não, novos ares, novos climas. Tenho muito quem me queira; ainda não tenho caruncho. E se quer, é já.

PRIMEIRO MÁSCARA - O dito pelo não dito; não falemos mais nisso. Vai para o toucador, meu bem, vai apurar essa beleza.

SEGUNDO MÁSCARA (A sua dama) - Tirei-te da crápula e da miséria, e já te esqueceste de tudo.

SEGUNDA DAMA (Com voz rouquenha) - Se eu não tivesse paixão por você, não aturava as suas rabugices. Anda só xingando a gente. Eu não conheço aquele rapaz; só o vi uma vez na rua passeando. É forte coisa pilhar uma mulher apaixonada.

SEGUNDO MÁSCARA - Digo isto para o teu bem; porque esses meninos não têm dinheiro. Vamos, tem paciência, meu amor, vai-te arranjar e ficar como um anjinho.

SEGUNDA DAMA (Indo para o toucador e á parte) - Hei de pregar-te na menina do olho. Não basta sacrifício! Ciúmes! Ora vejam! A formiga quer criar catarro.

TERCEIRO MÁSCARA (Para a sua dama) - Menina, menina... Olhe que isso não vai bem assim...

TERCEIRA DAMA (Com voz fanhosa e acento francês) - Está hoje muito maçante; se continua, fujo e lá se avenha; vou pour Paris.

TERCEIRO MÁSCARA - Tens muita graça! Vai pentear-te e arranjar isso bem bonito.

TERCEIRA DAMA - Adeus, marreque.

QUARTO MÁSCARA - As pernas boliram-me com o estômago. Quero lastro e em regra.

QUARTA DAMA - Apetite di cacciatore Di cose in Italia.

QUARTO MÁSCARA - E foi com ele, que te cacei... A emboscada foi feliz, minha borboleta.

QUARTA DAMA - Io é que fui la tola in fugir com um homo casado. (À parte) Paga; anda, paga; porque io estou cantando como las brasileiras:

Você já viu.
P'ra acabá di querê
Trabaiá o feio
Pro bonito comê
Até morrê?

(Vai para o toucador)

QUINTO MÁSCARA - (Com dama) O pior é que estamos ainda em minoria; e eu com uma rapa...

TERCEIRO MÁSCARA - Os eleitos do quarto voto são poucos e assim é bom; porque muita gente...

QUARTO MÁSCARA - Onde estaria a sociedade? Poucos, mas bons.

PRIMEIRO MÁSCARA - No entanto, parece que já transpirou alguma coisa por fora; e eu temo que se não leve a mal este nosso passatempo tão inocente. Se eu soubesse do miserável traidor, picava-o em postas. Eu cá não sou de brincadeiras, rrrrrrrrr.

TERCEIRO MÁSCARA - Desconfio de um certo esquivo, que não aparece mais! Entrou com muito fervor e agora anda fazendo negaças. Quem tem paixão por sua mulher, não entra aqui.

PRIMEIRO MÁSCARA - E então ela que é bonita e espirituosa!

TERCEIRO MÁSCARA - Também a minha o é e no entanto estou firme. Se isso fosse assim, quem estará acima do nosso vice-presidente? Há senhora mais bela no Rio de Janeiro?

QUARTO MÁSCARA - Amo a variedade, sou artista. As estátuas são dos museus, assim como as santinhas dos altares. Preciso de emoções, de vistas novas; sou romântico.

TERCEIRO MÁSCARA - Ando desconfiado de um certo Gonçalão. Olhem, já não está aqui o seu número!

PRIMEIRO MÁSCARA - Dizem todos que lá canta mais a galinha do que o galo. Não é isso assim cá pelos meus arraiais, e nunca o será. Quero, posso e mando, mas finjo ceder. A minha Eva engoliu a pílula suave e naturalmente. Capitão da Guarda Nacional, ando a estas horas rondando e vendo as patrulhas: soldado, permanente, pedestre e guarda nacional, para ela tudo é o mesmo. De mais, entro e saio quando quero, porque sou senhor absoluto em minha casa e desprezo quem o não é.

QUARTO MÁSCARA - Pilhaste o bolo, que o defunto amassara à custa da enciclopédia de todas as ignomínias e agora estás cantando. Assim, deste no vinte, magano.

PRIMEIRO MÁSCARA - Vendi a sociedade por um bote de rapé com muito mofo; sacrifiquei o meu perfume numa arca de bafio...

QUARTO MÁSCARA - Alto lá, e a boceta! E o que contém a arca?

PRIMEIRO MÁSCARA - Podia ser senadora; quanto ao mais, apenas chega para o champanhe.

QUARTO MÁSCARA - Que rapé, e que boceta. De ouro e cravada de brilhantes. Anda lá passar de vendedor de cautelas a milionário, é ter a lâmpada de Aladino, a lâmpada maravilhosa. Confesso que também não tenho queixas contra a sorte.

PRIMEIRO MÁSCARA - Piloto, medidor de terras, pintor de mapas e agora capitalista!... Creio bem.

QUARTO MÁSCARA - Upa, upa, engenheiro, meu senhor; não confundamos idéias: o pedreiro não é arquiteto.

TERCEIRO MÁSCARA - Dizem que ela é ciumenta como o diabo e que até paga espiões que te seguem a pista.

QUARTO MÁSCARA - É verdade, e de uma fúria!... Mas paga tudo com usura: capacitei-a de que era um dos inspetores da estrada de ferro, porque tenho algumas ações, e assim ando agora sempre a vapor. Quando há pagode, arranjo mui seriamente a mala, parto no comboio das três horas, volto no da noite ou numa sege de aluguel, que me espera no Engenho Novo, e entro no bosque à luz do gás, para gozar da vida. Olhe que eu agora não estou aqui, estou lá perto dos macacos, lá pela serra.

TERCEIRO MÁSCARA - Macaco velho; que és mais feliz do que eu.

SEGUNDO MÁSCARA - Para que tanta coisa? Eu cá achei um meio mais simples. Caminhei com a natureza satisfazendo a minha nos seus gostos. Gosta de flores; coloquei-a no alto da Tijuca, rodeada de plantas exóticas, e enquanto ela de dia se ocupa com as dálias, junquilhos, cravos, rosas e agapantos, eu também me ocupo de noite com as camélias.

TERCEIRO MÁSCARA - Melhor fiz eu, que prendi a minha pela carolice. Se as coisas continuarem, ela acaba por crer que faço milagres! Já me passou pela idéia aprender algumas artes mágicas, algumas peloticas, para confirmar-lhe mais a crença.

PRIMEIRO MÁSCARA - Não precisas. A maneira porque lhe empalmaste o dote, quase todo em bens de raiz, não é de patau! Toma cuidado com os filhos, porque andas depressa.

TERCEIRO MÁSCARA - Que trabalhem e estudem os meios como eu. Sou deste mundo e não creio no outro. Diz o poeta que viver é gozar.

CENA VEditar

DOUTOR ALBANO; mais dois mascarados, e os que estavam

TERCEIRO MÁSCARA - Viva o grão-mestre. Que demora é esta? Que anda fazendo?

DOUTOR ALBANO - Andei atrás do Juliano, que me parecia uma vareja tonta. Deixou a Carolina em campo, para procurar um vulto misterioso, que esteve aqui com uma sujeitinha que faz versos e improvisa a embasbacar. A Carolina zangou-se e disse que se ia... Brigaram, e ele aí anda pairando.

TERCEIRO MÁSCARA - Foi para o aderecista, não? A mudar de pele... Conheço aquela cobra velha.

PRIMEIRO MÁSCARA - Juliano é que é o nosso mestre. Persuadiu a mulher de que era verdadeiramente lobisomem e representa em casa a genuína individualidade da nossa ordem. Quando ele conta as coisas que faz, e com aquela graça que lhe é natural, faz rir os frades de pedra.

DOUTOR ALBANO - Deve isso ao extraordinário talento cômico com que o dotou a natureza. Eu o tenho visto fazer coisas admiráveis: chora quando quer, mas lágrimas deveras, e une a isto os recursos de uma palavra fecunda e cultivada. Juliano é capaz de mudar um chim em mouro e um mouro em chim. Aqui estão dois caladinhos, que em certos pontos pedem meças a nós todos, e em algumas coisas até ao próprio Juliano! São as estátuas da modéstia.

QUINTO MASCARA - Qual! São felicidades. A minha cara-metade é capaz de engolir as torres da Candelária.

SEXTO MÁSCARA - E a minha o Pão de Açúcar e as fortalezas, navios e baleias e tudo o que eu lhe disser.

DOUTOR ALBANO - A mulher quer isso mesmo e é preciso assim contê-la. O marido que tem uma mulher ciumenta e injusta, deve sancionar o boato, para não ouvir o chiar de uma nova com alcatruzes de perpétuas quizílias.

QUINTO MÁSCARA - Bravo, grão-mestre, é isso mesmo. A mulher quando pilha um marido bom e complacente, põe-lhe o pé no cangote, bota-lhe a gargalheira do seu cruel egoísmo e o ata depois ao libambo de seus caprichos variáveis. Tive exemplo em casa naquele meu bom tio.

DOUTOR ALBANO - Eu, que sou médico e tenho visto nascer e crescer tanta gente...

QUINTO MÁSCARA - Morrer muita mais...

DOUTOR ALBANO - Nada me admira. Felizmente, não preciso de subterfúgios: tenho os chamados. Escrevi no meu canhenho três nomes de velhos milionários, que têm ataques em alta noite. Se não me chama o asmático, tenho desculpa com o gotoso e quando estes folgam, passo ao hepático e hemorroidaico. A caridade, meus amigos, e pontualidade no ofício, é boa coisa.

PRIMEIRA DAMA (Saindo) - Estou ouvindo, estou ouvindo; por isso ainda me não me casei e nunca me casarei.

DOUTOR ALBANO - Faz muito bem, menina; precisamos de vestais.

SEGUNDA DAMA (Saindo) - Eu, se tivesse a certeza de me não vingar, morria de desgostos.

QUINTO MÁSCARA - Não seja tão mazinha.

TERCEIRA DAMA - Umas vingam as outras. Quem sabe se há por aí também alguma sociedade de lobismulheres? Que pagode!

DOUTOR ALBANO - O mulherio quer assanhar-se, meus senhores; a postos, vamos tapar-lhe a boca. Quem veio, veio; vamos para a mesa.

QUINTO MÁSCARA - Muita falta nos faz o nosso amigo Desidério!

PRIMEIRO MÁSCARA - Já me lembrou de lhe herdar a invenção, fingir-me também sonâmbulo e passear a meu cômodo e frescamente.

DOUTOR ALBANO - Não tens natureza para dançar sobre uma corda de vidro sem quebrá-la. Aquele via mosquitos na lua e pescava baleias com um alfinete.

CENA VIEditar

ALFREDO, preso por dois máscaras e seguido por JÚLIA e AMÁLIA

ALFREDO - É uma imprudência; deixem-me que não vim só. Temos piratas na barra e mouros na vizinhança.

SÉTIMO MÁSCARA - Preso em flagrante; se tem circunstâncias atenuantes, apresente ao tribunal.

OITAVO MÁSCARA - Queria escapar-nos por andar na pista de duas corças.

ALFREDO - Meus amigos, deixem-me por hoje, pois tenho aí a minha Eva, que veio comigo.

SÉTIMO MÁSCARA - Qual Eva nem meia Eva. Bem o conhecemos, senhor bandoleiro.

DOUTOR ALBANO - O caso é sério. Guardas, fechem as portas e não deixem entrar aqui senhora alguma, sem nomear o seu cavaleiro e sem que este a receba. Conheço o terreno, os perigos, e é preciso estar em guarda.

UM GUARDA - Não entra um mosquito; a porta está segura. As que estão, já conhecemos, e todas pertencem a um cavaleiro, exceto as duas.

DOUTOR ALBANO - Estão decerto comigo...

ALFREDO - Eu disse que precisava de umas férias e pedi licença. O grão-mestre conhece a bicha que tenho em casa: é uma víbora de sete palmos!

JÚLIA (Para Amália) - Olha que sem-vergonha e que atrevido.

AMÁLIA - Silêncio, pelo amor de Deus! E tu o dizias convertido!

DOUTOR ALBANO - Tomáramos nós todos apanhar-lhe uma mordidela, uma sozinha.

PRIMEIRO MÁSCARA - Onde está o teu sinal, miserável desertor?

SEGUNDO MÁSCARA - Depois do castigo, pagarás a multa: duas ceias, e um jantar no Jardim Botânico, ou em outro lugar à tua escolha.

ALFREDO (À parte) - Basta-me a multa da caleche e dos cavalos e das librés. (Alto) Pagarei tudo, com tanto que me deixem livre agora.

TERCEIRO MÁSCARA - Pelo artigo dos Estatutos, és obrigado a servir a mesa, de boca presa e atarrachada, e a ficar viúvo durante o pagode.

QUINTO MÁSCARA - A apostasia é crime de fogueira. Quer brincar com os lobos?

ALFREDO - As portas estão bem trancadas?

DOUTOR ALBANO - E suspensa a ponte levadiça. Há alguma revelação?

ALFREDO - Já lhes disse o que havia, para saberem o que temo. Minha mulher está no teatro.

SEXTO MÁSCARA - Abra-se o tribunal e seja o réu processado em regra. Está mentindo.

DOUTOR ALBANO - Falta o Grande Acusador, falta a flor da sociedade; esperemos.

ALGUNS MÁSCARAS AO MESMO TEMPO


1. Uma andorinha não faz verão.
2. Estamos em caso de guerra.
3. Não percamos tempo.
4. Estamos com muita fome.
5. 6. 7. De joelhos!

DOUTOR ALBANO - De joelhos, vamos, de joelhos.

ALFREDO (De joelhos) - Peccavi, peccavi, meus amados Irmãos.

DOUTOR ALBANO - Quer pôr-se em pele de cordeiro?! Não haja piedade. Morra! (Desembainham as espadas de pau; Júlia vai para socorrê-lo, mas recua ao ouvir.) Que faz, minha menina, não vê que isto é graça! (Diz isto baixo, Júlia se esconde) Lobo, por que deixaste o pêlo?

ALFREDO - Por não estar na floresta.

DOUTOR ALBANO - E quem te rechaçou da floresta?

ALFREDO - A serpente que voa.

DOUTOR ALBANO - E onde está a serpente?

ALFREDO - Não está em casa, anda por aí a chocalhar a cauda.

JÚLIA (À parte) - Se eu pudesse, arranhava-lhe aquela cara sem-vergonha.

DOUTOR ALBANO - E por que te não refugiaste aqui?

ALFREDO - Porque via outro perigo. Poderia ela seguir-me, e então?...

DOUTOR ALBANO - Aqui não entram serpes, mas sim as aves do céu. És um embusteiro e réu convicto. Dize, o que sente o teu coração agora nesse aviltamento?

ALFREDO - O maior de todos os arrependimentos.

JÚLIA (À parte) - Que desaforo! Eu te curarei...

DOUTOR ALBANO - Será sincera a tua emenda? Olha a espada vingadora!

ALFREDO - Juro pelo juramento dos lobos. (Cava o chão com as mãos) Seja eu aqui enterrado. As estrelas se convertam em pedras e a lua num verdadeiro matacão.

DOUTOR ALBANO (Tira a máscara de lobo e arranca a coroa de papelão) - Recuem as espadas; graça ao réu. (Põe a coroa na cabeça) Coloca em teus beiços o teu coração de lobo; mostra tua alma nos teus dentes; tua força nos teus queixos; tua inteligência em teu passo; tua prudência em tuas emboscadas e o teu amor em tuas conquistas. Torna-te digno de entrares no grêmio heróico dos da tua raça, conquistando o velocino do paraíso, aquela ovelha que canta, que é escrava da modista, que transporta a crinolina eólia e se corta e se tosquia segundo as leis de Monsieur Coffeur de Paris de França. Torna-te sublime e sê capaz do grande apostolado.

TODOS OS HOMENS - Apoiado, apoiadíssimo.

AS DAMAS - Não apoiado, não apoiadíssimo...

DOUTOR ALBANO - Silêncio! (Batendo o pé) Quem ousa perturbar a voz do tribunal? (Gargalhadas) Silêncio, tenho dito! (Restabelece-se o silêncio) Presta o segundo juramento.

ALFREDO (Pondo a mão na máscara de lobo) - Juro pela fronte veneranda do muito alto e muito sábio e muito valoroso grão-mestre desta sublime ordem dos Licantropos, pelas trevas que adoro e pela poligamia oriental a que aspiramos...

(As Damas, interrompendo)

PRIMEIRA - Não apoiado.

SEGUNDA - Viva a liberdade.

TERCEIRA - Pois não!

QUARTA - Não quero.

QUINTA - Seja a lei igual para todos.

JÚLIA (À parte) - Muitos já não precisam da lei. Veremos isso, meu sem-vergonha. Eu te ensinarei.

AMÁLIA - Que horror!

ALFREDO (Continuando) - ... de trabalhar com o exemplo e a palavra para que possamos chegar à felicidade dos povos civilizados e vejamos no novo mundo uma nova Meca e em cada cidade, cada vila, cada aldeia, cada fazenda e cada rancho um serralho, um harém, uma felicidade, um paraíso terreal.

DOUTOR ALBANO - Bem. Qual é o teu símbolo?

ALFREDO - O Galo.

DOUTOR ALBANO - Como canta o galo no país dos galos?

ALFREDO - Cocorocó! (Canta e abaixa a cabeça).

Os MÁSCARAS - (Baixo, como se fossem ecos) Cocorocó... cocorocó...

DOUTOR ALBANO - Perfeito! Há eco e prosetilismo! Não dorme a terra; vigia a inteligência; o mundo é nosso! Levanta-te e adorna-te. (Alfredo põe a máscara de lobo) Chegou a hora do desencanto! (Toca uma corneta. Todos tiram as máscaras ao som de gargalhadas).

JÚLIA - Todos conhecidos! (Para Amália).

AMÁLIA - Estamos perdidas! (Foge para o toucador).

DOUTOR ALBANO - À mesa, no altar do sacrifício. (Tomam lugares, menos ele) Minha divina poetisa, por que não toma assento?

JÚLIA - Porque não vejo aqui o meu cavalheiro.

DOUTOR ALBANO - Não tarda; creio que anda em sua procura. E a outra senhora?

JÚLIA - Viu o seu cavalheiro em castigo e retirou-se...

DOUTOR ALBANO - Havemos de lho restituir logo mais depois que cumprir a pena. Que maganão, quis fazer-nos esta surpresa. A senhora parece que é a primeira vez que...

JÚLIA - Permita-me que espere ali; sem ele não tiro a máscara.

DOUTOR ALBANO - A senhora manda; mas que receio é esse? Somos todos amigos íntimos.

JÚLIA - Sou nova e creio assim justificado o meu temor. (À parte) Que idéia luminosa! Oh! vou vingar-me daquele sem-vergonha. (Para o marido, para Albano) Quero pedir-lhe uma graça, é um segredo...

DOUTOR ALBANO - O segredo é o timbre da nossa ordem; e ai do miserável que o rompe.

JÚLIA - Não diga a Juliano que estou aqui; porque quero brincar um pouco com ele.

VOZES:

PRIMEIRA - Basta de confissão. SEGUNDA - Vamos à papança. TERCEIRA - Estamos desesperados.

CENA VIIEditar

DOUTOR ALBANO, no centro da mesa e de pé

DOUTOR ALBANO - Está aberta a floresta. Esta noite, briosos e invulneráveis companheiros, é mais clara.

VOZES:

PRIMEIRA - Venha verso; SEGUNDA - Verso; TERCEIRA - Queremos isso na língua dos deuses. DOUTOR ALBANO (Bate palmas) - Lá vai verso. (Há "psius' e grande silêncio).

"Acendam-se as lanternas, quero lume; "Nos vasos de cristal o dia espume."

VOZES - Bravos! Alfredo, Alfredo, vamos. (Alfredo enche os copos de vinho).

DOUTOR ALBANO - (Escarrando)

"Em nome de mim mesmo, à uma tomem
"O beijo fraternal do lobisomem!
"Mortal perfeito, afronta dos maridos
"Que, pegados às fraldas e aos vestidos,
"Como as ostras de um mangue bolorento,
"Fruem escravos o humor birrento
"De pamonhas linfáticas, ciesas,
"Ou magras Evas, serpes furiosas,
"Subamos do vivente ao Capitólio,
"E abata-se o femíneo monopólio;
"Pois tendo cada um doze costelas
"Deve ao menos casar com doze belas."

VOZES DE HOMENS E MULHERES:

HOMEM - Apoiado.

MULHER - Não apoiado.

OUTROS - Silêncio, silêncio...

DOUTOR ALBANO -


"Deixemos os preceitos da escritura,
"Que estão em desacordo co'a natura;
"E exemplo seja o grande Salomão,
"Que não foi um patau, nem toleirão!
"Adoremos o lume do orente,
"O grande sol que ofusca este ocidente
"Escravo dessa Europa abastardada,
"Que vive, em noite eterna malfadada.
"Venha a lei da razão, e o brasileiro
"Viva em casa qual galo no poleiro.
"Seja a casa um Éden; e o cidadão
"Doze Evas circulem; novo Adão.
"Nova raça derrame nesta esfera,
"Que ao mundo volva a venturosa era.
"O Brasil quer colonos e quer braços
"E eis como findarão os embaraços.
"Cada casa será uma colônia
"Onde vivam Em paz Marina e Sônia
"Filu, Amélia, Júlia, Ana e Paulina.
"Francisca, Paula, Olívia e Carolina.
"Teremos uma raça sem mistura
"Pela nossa feliz progenitura.
"E que coisa maior, que felicidade
"Ver crescer a brasília humanidade?!
"E que voto maior, e que nação,
"Quando cada indivíduo é um sultão!"

(Vivas gerais e bebem.. Durante estes versos, Júlia chega-se ao reposteiro e o ouve, e fala para dentro como quem diz alguma coisa a Amália. Batem na porta com força).

CENA VIIIEditar

JULIANO, de fora

JULIANO - Abram, quero entrar.

O GUARDA - (Pede o santo: "Ou dente ou queixo") Agora não se entra com máscara.

JULIANO (Sem máscara) - Estou em branco: deixei o certo pelo duvidoso e estou viúvo.

DOUTOR ALBANO - Em branco, e eu que o diga. Senta-te, e consola-te como deves meu (- ilegível -).

UMA voz DE MULHER - PRIMEIRA DAMA - Daqui saiu há pouco. Era uma pombinha bem mimosa.

JULIANO - Quem?

SEGUNDA DAMA - A rival de Carolina. Como está inocente, sô bandoleiro.

PRIMEIRA DAMA - Não quis tirar a máscara; porque tem um laço encarnado.

JULIANO - (Levantando-se) O que estão dizendo? Aonde está ela, o sonho da minha vida? Sim, eu a vi um instante, como uma aparição, como uma visão celeste, mas sumiu-se por entre o nevoeiro da turba. Não tinha ela um dominó branco, de cambraia de Nápoles, e um laço de fita escarlate no peito, com franjas de ouro?

SEGUNDA DAMA - Isso mesmo.

CENA IXEditar

JÚLIA (Com o dominó de Amália e inda no reposteiro) Vamos sair. (Fica ao pé do reposteiro por trás de Juliano)

AMÁLIA - Não; eu quase que desfaleço.

DOUTOR ALBANO - Estamos no escuro e tenho que fazer mais uma saúde. Alerta, Alfredo. Estamos no escuro; venha lume, venha o sol.

PRIMEIRA DAMA - Champanhe, que estou a seco.

TERCEIRO MÁSCARA - Quero Malvásia.

PRIMEIRO MÁSCARA - Duas garrafas do Duque, que não sou caolho: uma para cada venta do nariz.

SEGUNDO MÁSCARA - Bordéus, venha Bordéus, que a minha garrafa está vazia.

DOUTOR ALBANO - Ordem! Que o nosso penitente não é o gigante de cem braços.

JÚLIA - Não tenhas medo. Olha por este buraquinho e vê se o conheces bem.

DOUTOR ALBANO - Então, Juliano, perdeste o apetite? Há de vir, há de vir mais tarde, e então...

JULIANO - Estou desesperado. Perdi uma das mais belas conquistas do mundo. Ah! se o soubésseis! Eu não vim desprevenido, porque trouxe a Carolina; mas logo que vi a outra mudei de plano. Como lhe conheço o gênio rusguei com ela, e ela comigo, e foi-se. Este caso é uma verdadeira loteria, porque havia mil probabilidades contra uma única; ousei, e muito que ousei; e saiu-me a sorte grande, porém perdi o bilhete.

DOUTOR ALBANO - Como não foi queimado poder-se-á talvez achar aí por algum canto.

JULIANO - Se o não achar amanhã, e aqui mesmo, talvez o perca para sempre.

TERCEIRA DAMA - Pobre Carolina! Assim é que se paga tanto afeto!

PRIMEIRA DAMA - Porque é tola. Não quis passear em Paris e em Londres com aquele diplomata, que a queria levar; e agora está demitida com a maior ingratidão.

QUARTA DAMA - Não se há de enforcar por isso. Está moça e é bem bonita.

DOUTOR ALBANO - Sabemos disso: não houve demissão, houve disponibilidade. A saúde do nosso grande Juliano do mais perfeito de todos os lobisomens, do modelo dos lobisomens!

JULIANO - (Respondendo de copo na mão) Minha alma está morta, e por isso estou mudo como um cadáver. Agradeço. (Sente-se) Penitente, passa-me o fiambre e os rosbifes.

ALFREDO - (Enganado pelo dominó de Amália, diz a Júlia) Cunhada, onde está Júlia?

JÚLIA (Com voz baixa) - Está se vingando das suas perfídias. Achou um moço bem bonito. (Alfredo deixa cair o prato).

JULIANO (Olhando para trás) - Que vejo! Céus!!!

DOUTOR ALBANO - O bilhete da loteria! (Palmas na mesa).

JULIANO (Indo para Júlia) - Oh! meu amor, como poderei agradecer isto! Venha assentar-se aqui, olhe, cá está o seu lugar; não tem ninguém... veja...

JÚLIA (Mudando a voz) - Ah! não posso. Vim somente dar-lhe esta prova. (Amália espia-os)

ALFREDO - Estou sentindo um peso na cabeça!... se e que eu tenho cabeça.

JULIANO - Pois vamos passear um pouco, já que não se quer assentar junto de mim! Estou como quem acorda de um pesadelo ao pé de um anjo, que se ama!

TERCEIRA DAMA - Estes noviciados são sempre assim... Venha champanhe... (Alfredo, como estonteado, dá outro vinho) Não é isto! Pateta, quero champanhe, champanhe, champanhe.

DOUTOR ALBANO - Então, senhor moço, perdeu a tramontana? Está com inveja?

ALFREDO - Os meus cabelos estão tão tesos que parecem uma floresta. Não vejo nada... (Endireita a máscara)

JÚLIA - Não, não posso, adeus...

JULIANO - Pois vamos para aqui, um momento, um só momento. (Para o toucador)

JÚLIA - Não, não posso. Uma outra vez, agora é impossível.

AS DAMAS -

PRIMEIRA - Homem no toucador? Fora!

SEGUNDA - Há de ter os dedos dos pés cortados.

ALFREDO - Parece-me que tenho dois jequitibás na cabeça! Estão me levando a máscara. (Tira a máscara e deita-se encolhido no sofá da esquerda alta.)

DOUTOR ALBANO - Respeite-se a polícia da casa. Os homens não entram ali, mormente agora. (Amália, ouvindo isto, treme e vê-se tremer o reposteiro)

JULIANO - (Avançando para o proscênio com Júlia) Por que não se assenta um instante? Aqui estão somente amigos e todos do maior segredo, e sem isto?... Não tenha o menor receio; juro-lhe que ninguém o saberá. Tire essa máscara; rasgue a nuvem que encobre esse rosto mais belo do que a estrela matutina, do que o astro de todas as esperanças, que anuncia toda a formosura do dia. Oh! sim, por piedade...

JÚLIA - Juliano, não exijas de mim um impossível, depois desta prova. Contenta-te com ela, bem o sabes, e a quanto me exponho agora...

JULIANO - Como é cruel! Ah! Ver o céu, tocar com as plantas os penetrais da maior das delícias; sentir a mão de um anjo sobre o peito, como para acariciar o coração; ir segurá-la, e esta não dizer: basta, arreda, como se fosse a mão de um espírito exterminador a um condenado... Por piedade...

JÚLIA - Não sejas desensofrido. A mão que se precipita a colher rosa, pode ser ferida pelo espinho, ou pelo inseto.

JULIANO - E que importa a morte, quando o céu se mostra radiante de esperanças?

JÚLIA - Basta. Sabes que tenho deveres sagrados e que os não devo quebrar.

JULIANO - E eu não quebro os meus por este amor que me enlouquece?

JÚLIA - Mas eu sou amiga de tua mulher e não devo...

JULIANO - As leis do amor são excepcionais: o amor não é como a amizade. O amor é de luz, e a amizade de ferro. Não há paridade entre um fluído e a matéria.

JÚLIA - Lisonjeia-me muito ver que me preferes à mais bela das mulheres. Ela é bonita, virtuosa, jovem, não é assim?

JULIANO - Estátua das perfeições, que não compreende a vida, a vida que amo, a vida que desejo, aquela vida que sonho! (Amália espia com mais audácia) Não falemos dessa mulher, falemos de ti, luz da minha alma, coroa encantadora de todas as minhas esperanças.

JÚLIA - (Chamando Amália para o pé de si) Tanta injustiça esfria-me o coração! Oh! dize que é um capricho, uma veleidade, uma anomalia, um desses delírios da inconstância humana, mas não a trates com esse desdém... (Acena à irmã) Nem eu sei o que estou dizendo.

JULIANO - Não tens o coração nos lábios, sim; porque um raio luminoso me está penetrando a escuridão da vida. Não fales assim, porque sabes quanto te adoro. A simpatia é um segredo misterioso da natureza, que a fria razão não pode penetrar; é um arcano d'alma escrito no coração, o qual existe e existirá eternamente. (Amália se aproxima por trás dele)

JÚLIA - Mas por que te uniste a ela e lhe juraste fidelidade? Eu li os teus juramentos.

JULIANO - Pelo seu dinheiro. Não me dilaceres o coração com tais lembranças.

PRIMEIRA DAMA - (Ao ver Amália por trás dele) Temos sombrinha?!

DOUTOR ALBANO - Agora é que está o ladrão entre duas divindades!

JÚLIA - Adeus, até amanhã. (Ele a retém) Não ouves o que estão dizendo?

PRIMEIRO MÁSCARA - O caçador está firme.

PRIMEIRA DAMA - São requifes de principiante; depois...

SEGUNDO MÁSCARA - Ciência infusa, e eu que o diga. A Carolina não sabe vender o peixe.

JULIANO - Eu não vejo e não ouço senão a ti.

JÚLIA - Última palavra. Vai encontrar em casa o que não acharás em parte alguma. Deixa essas ilusões da. vaidade. Olha que sou tua amiga.

AMÁLIA (Baixo a Júlia) - Assim, assim.

JULIANO - (Forte) Já te disse que não amo essa mulher.

AMÁLIA - (À parte e comovida) Que estou ouvindo, meu Deus!

JÚLIA - Mentes, não pode ser! Já não creio em nada.

JULIANO - (De joelhos) Juro a teus pés, minha Clarice, e o juro por minha alma... (Amália geme e cai desmaiada) Quem é esta dama?! O que tem ela? (Alfredo, que a não viu, levanta-se espantado e segura nela)

ALFREDO - (Para Amália) Não creias, minha vida, que eu sou teu e o serei até morrer...

DOUTOR ALBANO (Examinando a dama) - Quase sem pulso?! Tire-se-lhe a máscara...

ALFREDO - Não consinto nisso.

JULIANO - E como socorrê-la? (Vai para tirar-lhe a máscara, Alfredo empurra-o)

ALFREDO - Esta dama está com máscara, está sagrada para quem é cavalheiro; e o que ousar tocá-la não sairá com vida! (Levantam-se todos da mesa em tumulto) E o que é cavalheiro, o que respeita uma dama no mais rigoroso incógnito, ajude-me a socorrê-la fora daqui.

JÚLIA - Juliano, faze o teu dever, mostra que és cavalheiro.

JULIANO - Mandas; mas quem é esta dama?

JÚLIA - Ninguém sabe e ninguém deve sabê-lo. Vamos, vamos.

UMA VOZ DE MULHER - Sabemos nós, não é assim, senhor Alfredo.

(Ao passarem pelas damas com o corpo de Amália, os homens conservam-se sérios e abrem praça; Júlia recebe das damas umas cortesias de galhofa e, logo que chega ao fundo da sala, ouve de todas essas mulheres perdidas uma dessas gargalhadas desafinadas, que denotam o seu estado de embriaguez e perdição.)

FIM DO SEGUNDO ATO