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Anexo:Imprimir/Vinte e cinco de março

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Vinte e cinco de março
por Manuel de Oliveira Paiva


ÍndiceEditar

O SonhoEditar

A VisãoEditar

Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
O Séquito


Lá vem... lá vem.., lá vem o esquife nauseabundo!...
Que silêncio, meu Deus, que silêncio profundo!
Uma legião de moscas tristes, silenciosas,
A três metros do chão abre as asas chorosas,
E vespas e morcegos, mochos e corujas
Voltejam sobre o ar meditativamente.
Anuns e bacuraus vão de casacas sujas
E como que sofrendo horrível dor de dente.
A dor transluz pungente assim como um punhal
No séquito disforme, eclético, infernal.
Nem um sinal se vê do ritual católico.
Tudo é tétrico, horrendo, frio, diabólico.
O firmamento é preto como as coisas pretas.
O mar escuridão. As nuvens grandes tetas
D'onde se escorre um sangue impuro, sifilítico.
O arvoredo é imóvel qual monte granítico.
E os rios vão correndo como uns cães mofinos.
A atmosfera tem uns cheiros fedentinos...
Lá vem.., lá vem.., lá vem o esquife pestilento!

E fui desanimando e fui perdendo o alento...
Senti um rude aperto. Era o espírito de Judas,
Que entrou a me explicar aquelas cenas mudas:
"Desperta, ó bom rapaz, sacode-te, olha cá.
O defunto é daqui, é do teu Ceará.
Aquele grupo nobre, de homens bem formados,
São negreiros do sul, comigo condenados.
Ouve. Começa agora um canto mavioso
De vozes guturais e de acento untuoso.
É terno canto-chão. São padres, são beatas,
Que foram virtuosos sendo escravocratas.
Não vês aquela fila que segue na frente
Levando, como cruz e lampiões sagrados,
Azorragues, chicotes, tronco e ferro ardente?
Pois são homens de Lei dos bons tempos passados.
Tu não verás assim enterro mais comprido!
Virgens, crianças, tropas, frades e cabido.
Qualquer classe acharás naquele funeral.
Lá vejo reis de Angola e reis de Portugal.
Não te horrorizes pois, rapaz, deste adjunto.
Há milhões e milhões de amigos do defunto.
Ele depois de andar mais de três séculos vivo
E sempre amado e sempre heroicamente forte,
Encontrou, afinal esse povo lascivo,
Esses cearenses brutos, sem cálculos, sem sorte.
Atravessou combates e traições e perigos.
Foi morto finalmente. Eis porque os amigos
Fazemos este enterro. E que ato mais sincero
Que a alma de Dionisio ir enterrar Nero?"

Passava então por nós o séquito hediondo.
Judas subiu a um tronco e um rouquenho estrondo
Saiu daquela boca escancarada e feia.
Senti-me vacilar e caí sobre a areia.
Começou a zunir a imensidão de moscas.
Tudo aplaudia as frases, infernais e toscas.
Ouvi o assobiar dos pássaros noturnos;
A reza dos besouros, tristes e soturnos;
Chocalhar as ossadas dos monstros humanos
Cruéis como um algoz, ladrões como ciganos.

Correu no espaço um cheiro imundo, deletério.
E vi como no ar um monstro cemitério.
Faltou-me então o solo e senti-me no espaço,
Caí como um caju maduro de três dias,
Como que arrebentando o meio do espinhaço.
E vi que foram sonho aquelas agonias.
Mas inda me zunia, ao meu ouvido humano,
A voz do orador, do Judas carcamano:
"Chorai, chorai, senhor! Chorai, chorai, senhora!
Morreu o Escravagismo, o enterro faz-se agora!"
E acordado ouvi a esplêndida alvorada
Em honra a Fortaleza, a pátria libertada.

Mas agora me lembro: do sonho terrível
Me ficou na lembrança um carro disponível,
Um carro sem ninguém, mas nobre, envolto em crepe,
Rico, tal noutro tempo um barco de Dieppe.
Judas me disse então: "Ajoelha-te, animal,
Pois não estás vendo ali o carro imperial?"

Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
Sepultação


Senti um pontapé desmesurado, elétrico.
Uma luz cor de enxofre e uma fumaça azul
Circundavam no espaço um personagem tétrico,
De cabelos de urtiga e cútis de paul;
Olhos como do cal das brancas sepulturas
E beiços cor de sangue. Duas dentaduras
Negras, pontudas, moles. Faces bem redondas
Tendo o mexer metódico do pêndulo e das ondas.

"Vamos fazer viagem. Mas só leves alma.
Pendura o corpo aí no torno do cabide.
Não receies o tempo, o inferno tudo acalma.
Eu te meto no bolso. Eia! A hora progride!
Deixa que tombe a chuva e que campeie o frio:
Nós somos invisíveis. Vamos pelo fio."

E entramos a girar num turbilhão medonho,
Ele o Judas tratante, eu o poeta bisonho.
Não sei por onde andei, mas em voltando aqui
Soube que fui parar no Itacolomi.
E era mesmo um monte, alto e muito alto.
Sobre um chão pedregoso calçado de alfato
A mesa se assentou. Dos antros da floresta
Saíram aos milhões os pares para a festa.
Eu vi que todos eles eram almas que
Como eu tinham deixado o corpo suspendido.
A muitos conheci, mas me ocultei (não vê!).

Andavam como a lesma. E todos como Judas
Tinham olhos de cal e unhas pontiagudas.
Se esparracharam logo em roda à mesa infinda.
Serviu-se fel de boi, graxa do Rio-Grande,
Doce de escarradeira e mel de sopa finda,
E tanta cousa mais... Depois o chefe expande
O peito chocalhento e fala aos conjurados:
"Quer sejais fazendeiros, condes, deputados,
Ou doutor, ou ladrão, ou monge, ou senador,
Ou bravo militar, ou mesmo imperador,
Todos sabeis bastante o motivo justíssimo
Que nos reúne aqui neste bosque escuríssimo.
Igual a nossa causa, incisiva, leônica,
Minha linguagem é, espartana, lacônica.
Eu digo pois devemos já e já e já
Como as secas torrar o povo do Ceará."

Foi um bater de mão, foi um bater de pé
E tantos juramentos sagrados, de fé,
Que a montanha oscilou, a Serra do Espinhaço,
Como quem leva um murro em cima do cachaço.
Mas pediu a palavra um tal republicano
Exigiu retirar-se o nome de um cigano
De uma conspiração tão digna de louvor.
E declarou que o nome era o de imperador.
Judas, porém, loquaz e bem experimentado,
Pula em cima da mesa, o punho arregaçado:
"Patife, sem-vergonha, vil especulador
Que depois de adular ao teu imperador
Vais reforçar o infame republicanismo,
Sabe que sem o rei não há escravagismo!!"
Então o presidente de toda a assembléia
Quer acalmar a Judas. Judas tem idéia
E sempre acalentou o amor da monarquia.
Saímos bruscamente abandonando a orgia.

Eis-me de novo a andar na imensidão horrenda...
O raio lá por cima encrusa-se, faz renda,
E calorosamente ferve a trovoada.
O frio corta o pêlo assim como uma espada.
Pervagamos assim turbilhonando à toa
E creio até andamos perto de Lisboa.
Num momento, porém, nós vimos lacerar-se
A nuvem sob nós. E do rasgão celeste
Nós vimos lá embaixo o mundo, esse disfarce.
O mundo estava esguio, esguio tal cipreste.
Judas levou a mão ao estúpido bestunto.
Pensou. Nós nos soltamos. Rolamos ao chão
Viemos embarrar no esquife de um defunto.
E Judas foi de ventas dentro do caixão...
Caí mais de terror do que de esfalfamento
Reconhecendo o horrendo e imundo enterramento.

O cadáver estava ainda não sepulto.
Via-se, ao fuzilar, o seu gelado vulto
Todo dilacerado e porejando pus,
Mas nem um ar de Cristo, nem um ar de cruz...
Quanto mais se cavava para ele a cova
Mais a terra se upava. Esforços inauditos!
"Enterre-o na pedra, no azul da corcova
Do velho firmamento. Os animais malditos
Que dele façam pasto. Atirai-o no mar.
Ou mandem-no meter num tronco secular.
Ide-o mergulhar nas águas do Amazonas,
Ou ponde-o de conserva em óleo de mamonas.
Levai-o para a Itália e num moderno forno
De boa cremação mande-o esturricar
E botai-o então para servir de adorno
Em redoma de vidro e ponde-o num altar..."
— Cala-te, rei Filipe, já estás amolando!
Tu pensas que é no tempo das Espanhas, quando
Tu pintavas o diabo e o clero te aplaudia?
O clero hoje não faz o que outrora fazia...
Tudo que ele aí disse já fizemos, Judas:
Tudo fez como a terra. Urge nos acudas!
'Ô meu senhor Cão-Coxo, eu já não sou moderno.
Por isto penso bem. Guardemos lá no inferno
O cadáver precioso — Escravidão Cearense.
Que siga em corpo e alma. Ele não nos pertence?
"Ninguém o quis por lá! Houve muito barulho"
Quase que há muito pau, quase que há sarrabulho."
Judas pôs-se a pensar. Por fim pediu um cento
De possantes diabos. Nas ondas do vento
Ei-los com o cadáver às voltas. Eu fico
Porque na grande queda arrebentei o bico.

Cá de baixo o Cão-Coxo aplicando a luneta
Como quem observa o rabo de um cometa
Num céu sem resplendor, sem curva, sem azul,
Entrou a perguntar: "Ó Judas, onde o levas?
"Aos áureos conjurados negreiros do sul
Que são mui bons Adões e muito boas Evas.
Eu deixei-os há pouco em bela contradança,
Devem, ter bem disposta a excomungada pança!
Que melhor, respondei, demônios brasileiros,
Túmulo da Escravidão que o bucho dos negreiros?"

Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
Memoração


Foi no recinto antigo, nobre e vitalício,
Que eu vi se reunir o infernal comício.
O campo de Sant'Anna, a sós, despovoado,
Via o entrar das almas no velho senado.
Lá estava presidindo o grande Dom Mefisto
E era secretário o frade Dom Tartufo,
Que tem lábios de mel e tem boca de quisto.
Em vez de campainha se batia um rufo.
A sala foi se enchendo. E as pálidas paredes
Fugiam pouco a pouco e a sala foi crescendo.
As táboas do soalho, assim como umas redes,
Balançavam, cresciam, com ruído horrendo.
Uns diabos que haviam chegado da rua
Traziam cada qual um pedaço de lua
Espetado na ponta de esquálido bambu,
E essa era a luz. Estava tudo nu.
O Sr. secretário preparava a ata,
Com toda a precaução, de uma sessão transata
O papel eram peles frescas arrancadas
Do lombo escravo e bem curtidas e pautadas;
Servia de tinteiro o crânio de Guiteau;
A pena era a tal com que o Czar assinou
A sentença de morte aos bravos regicidas;
A tinta, santo Deus, saíra das feridas
Quentes ainda até dos escravos no tronco...
Ouviu-se pelo chão o perpassar de um ronco.
Era Satã que vinha em traje de doutor.
Tomou assento. E houve um palmejar de horror...

Desenrolando um maço de papéis imundos
Fitou na imensidão os olhos negrebundos.
Começou a girar a casa da assembléia.
— Fui eu mesmo em pessoa fazer inspeção:
Estou pronto a jurar que nem sequer diarréia
Causou o Ceará em dame Escravidão...
— Enganas-te, Satã. Tu és um animal.
Nada viste ferido, nada fraturado,
E ela tem por dentro um saco aneurismal!
A princesa, coitada, a luz do teu reinado,
Sua Alteza a Senhora Escravidão Brasilea,
Já não há de querer que o meu saber quisile-a.
Mas foi ela composta de Escravidõezinhas:
Acontece que o morto Escravidão Cearense
No todo imperial era uma cavazinha
Que os médicos a quem o teu saber não vence
Damos o nome simples, natural, de artéria.
É fácil de quebrar. Quebrando-se, adeusinho!...
Não te lembras daquela sepulcral miséria?
Pois era o Ceará no clirvsol, no cadinho.
"Blasfêmia! Excomungado! Seja pronto expulso!"
Seguiu-se no recinto um barulhar convulso:
Agarraram no pobre, franco Triboulet
E o lançaram de um soco no mar de Guiné.

Entrou-se a discutir como devia ser
O monumento que eles deviam de erguer
Para rememorar o nome do finado.
Então foi que houve pau nos bancos do senado.
Já a casa corria as vastidões do ar
Roncando como um touro ou como um forte mar.
Nada puderam pôr, naturalmente, a votos.
Pois as almas dos vivos formaram partido
Contrário ao dos defuntos, velhos, ignotos.
Era uma ruim mulher ao pé de um ruim marido.
Judas, que sempre foi excelente político,
Faz este requerimento exótico, mefítico:
"Duas opiniões se ouça mais diversas
(Time is money. Dinheiro. Tempo. E não conversas):
A do bom monarquista e mau republicano
Que já não quer o rei que é para ter escravos
E a daqueles, senhores, moços muito bravos
Que assinaram febris, heróis a todo o pano,
A grande panacéia — o podre Manifesto,
Que serviu de toalha e hoje é lava-pratos...
Que almas do lado oposto vão dizendo o resto,
Que eu não falo por mim — eu falo por boatos.

Havia pelo ar um cheiro tão imundo
Como se uma latrina ali quebrasse o fundo.
Era cada vez mais espatifada a ordem.
Uns já trocam bofetes, outros já se mordem.
Giram em turbilhão pelo crivo das serras.
Já pelo alto mar, já pelas altas terras.

E eu, desamparado pelo amigo Judas
E me achando a lutar aos beijos com a morte.
Enxerguei no horizonte umas luzes agudas
Que iam para o Sul, que vinham lá do Norte.
E seguiu-se o clangor de milhões de clarins
Tangidos por soldados da cor de alfenins.
Pelo alto dos céus vinha o cortejo imenso.
Soldados a cavalo em pássaros alvíssimos
E nuvens exalando ao ar sublime incenso.
A luz tinha um vislumbre, uns raios ferocíssimos.
Um bando de crianças derramando flores
E um coro de virgens decantando amores.
O ar que arrodeava-os era cor de rosa.
Cabelos de negror. Pele a mais cetinosa.
Calçavam de rubi, trajavam de diamantes.
Treluziam na luz armas coruscantes
Do esplendoroso, etéreo, enorme batalhão,
Um cavaleiro idoso, barbas a Moisés,
Olhos de seta audaz e músculos de leão
Tinha nos pés e mãos a marca das galés
E tinha no pescoço a marca de uma corda.
E no corpo infinitos rastros cor do sol.
Como que de seu todo o ânimo transborda,

Deixa depois de si como que um arrebol,
Tem a severidade justa de Licurgo,
Tem a bravura bela dos sublimes Gracos,
O misterioso olhar de um grande taumaturgo
E é capaz de partir um trono quatro nacos.

Diante dele foge a reunião negreira.
Os diabos se despenham, zunem na carreira.
Vão de pernas pra o ar, vão dando cambalhotas,
Um perdeu a barriga e outro perde as botas...
Ouve-se um trovejar e um ranger de dentes...

O Corcovado inquire às luzes—Quem vem lá?
— Senhor, é o sempre heróico mártir Tiradentes.
Vem do Norte do império, vem do Ceará,
Onde foi, informado por Pedro Pereira,
Ver a primeira pátria livre brasileira.

Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
A Ilha da Quimera


É quase inacessível. Dorme num penhasco.
O mar em derredor é negro. O ar, sombrio,
É para os habitantes horrido carrasco.
O ceu é achatado. O arvoredo esguio.
A vista em vão perfura o seio dos abismos:
Céu e mar, céu e mar... nada mais, nada mais.
A onda está constantemente em paroxismos.
Nem nuvem, nem navio ali passou jamais.
Não há peixe no mar, nem ave no ambiente.
Tem risos de chacal ao ver o sol ardente
E mostra a ossada suja, descarnada, nua,
Escancara-se até, imoralmente, a lua.
Todos que lá têm ido, poucos, muito poucos,
Só viram lá por dentro escuridão espessa.
Tiveram de sofrer o título de loucos.
Quase que não é ilha — quase que é uma eça.

Pois é naquela rocha tétrica e tão feia
Que está preso o futuro e que está presa a idéia.
As leis da matemática, observações da física,
A experiência química, a bela astronomia,
Quer as divagações da velha metafísica,
Quer as afirmações de dame teologia,
Ou seja a biologia — filha do transformismo,
Ou a sociologia, ou o parlamentarismo,
Venha a lei de Moisés, venha a lei indiânica,
Ou venha a escola clássica, ou siga-se a germânica,
Venha monsieur Hugo, venha monsieur Zola,
Que a vida passe além, ou que fique por cá...
Todas as grandes molas o ideal do homem,
Que os tempos fazem vir e que os tempos consomem,
Antes de vir ao mundo, numa certa era,
Estavam prisioneiras. Foram conquistadas
Pelo Gênio feliz à ilha da Quimera:
Foi bala o pensamento e lanças e espadas.

Corria na amplidão um vento desbragado,
Rijo como Catão, cruel como um soldado:
Vinha enrolando a nuvem, distendendo a vaga,
Cantando uma canção, uns versos de Gonzaga,
O relâmpago fere a escuridão terrível
E rompe a trovoada em coro irresistível.
Cai uma chuva estranha, bela, misteriosa,
Feita de pingos de ouro e muito luminosa,
A ponto de inundar de luz a atmosfera.
Via-se então o mar bramir como uma fera.
Ouviu-se pelo ar uns sons muito esquisitos,
Divinos, imortais, mesmo muito bonitos.
E lá por cima, um pouco abaixo das estrelas,
Via-se coisas lindas, via-se coisas belas.
Tiradentes voltava com muito maiores
E muito mais luzidos, fortes batalhões:
Bravos do Paraguai — monstros como condores
E os grandes heróis de nossas revoluções,
Mais digno cada qual da pena de Esquiros.
Era uma passeata celeste a flambeaux.
Washington, Bolívar e Lincoln e Juarez
Vinham cantando um hino um pouco marselhês
Vinha o Pedro Pereira e vinha o Rio Branco,
Montando cada qual o seu pássaro branco.
Ferreira de Menezes, o pardo Luiz Gama,
Um no dorso do vento, um nas asas da fama.
E vinha imensidão de virgens formosíssimas
Que cantavam nas harpas canções celestiais.
No ambiente havia ondulações dulcíssimas,
Amenas como um beijo, moles, sensuais.
Como que aquela enorme imensidão de gente
Vivia de harmonias, respirava hinos.
Corria em derredor um cheiro enlanguescente...
Ferozes como leões, mansos como meninos,
Em todos pervagava um riso genial.
Tinham as expressões perfeitas do ideal.
E como as mutações de cena teatrais
A ilha se mudou. Vastas arcadarias,
Como costumam ter as grandes catedrais,
Iam perder-se além na curva do oceano.
E salas e divãs e mesas e iguarias
Tudo com luxo além do pensamento humano.
Torres com seus faróis, jardins com suas flores,
Homens com seu poder, mulher com seus amores.
As roupas insulares eram ricamente
Feitas do que há macio, belo, reluzente,
No centro havia um vasto e lúgubre salão.
Foi lá que houve discurso e houve recepção.
Falou primeiro em prosa o moço Rocha Lima,
Depois recitou versos o Joaquim de Souza.
Que doce que era o metro e que florida a rima!
Um quadro que arrebata, um quadro que endeusa!...
Belíssimas mulheres vimos ante nós,
Que angélicos olhares, que divina a voz!

Estavam quase todas presas, algemadas!...
Se via as carnes finas meio arroxeadas.
Algumas conheci: A Paz e a Verdade,
Navegação Aérea, Porto do Ceará,
Casamento Civil, a Lei, a Igualdade,
E outras muitas mais, que todas estão lá.
Então o Rio Branco disse a uma delas
Umas palavras santas, ricas e singelas.
Disse que vinham dar um parabéns fecundo
A ela, a mais bonita, a ela — a Liberdade,
Porque no Ceará matou-se o bicho imundo
Causa primordial de sua infelicidade.
A carcereira veio cuidadosa então
E quebrou-lhe os grilhões do lindo pé direito.
Chama-se a carcereira dama Evolução.
Veio depois um velho, operário, bem feito,
Sob o pó do trabalho e respondeu assim:
"Obrigado, senhores. Despende de mim.
Minha filha vivia livre na floresta.
Mas chegou no Brasil o tal Escravagismo
Convencera ao rei (que é sempre muito besta)
Que a devia exilar aqui para este abismo.
Para que ela volte um dia a sua pátria amada
Talvez seja preciso o golpe de uma espada.
Começais a matar o pior inimigo,
Mas depois inda há outro. O tempo chegará.
Façamos a saúde: Eia! Todos comigo!
Bebamos a saúde do heróico Ceará!
Há de vir, há de vir no futuro uma era
Em que não morarei na ilha da Quimera.
Tende-me sempre a mim dentro do coração:
O pai da Liberdade, o velho Revolução."

Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
Pátria


Eis-me aqui de calção e jaqueta de cor
E tudo o que é preciso ao traje de um criado.
Oh! Muito pode a idéia, muito pode o Amor!
Que havia de fazer? Fiquei apaixonado...
Enquanto os oradores faziam discursos
Eu num canto arredado inventava uns recursos
Para ficar na ilha. Ao menos eu veria...
Assim adormeci. E quando eu despertei
Vi ao redor de mim a noite horrenda e fria.
Confesso, tive horror e sem querer gritei.
Deixaram-me ficar. Mas com a condição
De servir de criado às virgens da prisão...
Mas aquele rochedo era tão singular
Que a gente era a dormir... era logo sonhar
Cousas extravagantes, lindas, engenhosas!
Eu travava, sonhei, discussões calorosas
Com a amável senhora dona carcereira.
Assunto principal — a pátria brasileira.
Pátria, querida pátria! Eu vejo-te de longe
A divagar nas praças ocas do porvir.
Pensas como Platão, meditas como um monge.
Vejo-te soluçar, vejo-te sucumbir.
Se a minha doce Ela, a virgem Liberdade
Te pudesse abraçar em plena liberdade...
Mas tudo é sem caráter, gélido, sem cor.
Há duas prostitutas corrompendo o Ódio,
Há duas prostitutas corrompendo o Amor.
Uma é o cativeiro, híbrido, serôdio;
A outra é a coroa, inútil, corruptora,
Ela afoga o civismo, ela torce o talento,
Mente como um ladrão, engana, ilude, gora.
Com estas duas bestas haverá jumento
Que faça vir ao mundo um asno assaz possante
Capaz de carregar o peso de um gigante?...
Há gêneros nacionais, boas mercadorias,
E basta de importar da Europa as dinastias.

Pátria, querida pátria! Faça-se a política.
Mas não esta que existe, amarela, sem crítica,
Que cifra-se em berrar no exílio a oposição
Enquanto a outra lambe os cobres da nação.

E não se há de mudar? Querem viver assim?
Quem é filho de Adão só pode ser Caim?
Não teremos história e nem literatura
Enquanto houver o rei e houver escravatura:
A imprensa há de ser sempre flácida e inútil,
A Representação engodo triste e fútil,
E o povo sempre besta, pobre basbacão,
Porque não há partido sem a opinião.
Não vistes inda há pouco o coroado chefe,
Incapaz de afrontar o áureo magarefe,
Adocicar tão bem os lábios dos jornais
Mostrando uns pretextinhos, fúteis... imperiais,
Negando-se assistir a festa do Ceará?...
Se há Luiz XVI há de haver um Marat.
Pátria, querida pátria! Vê que tu não podes
Amar a um rei Pilatos. Ele como Herodes
Pode fazer de ti um mártir João Batista...
Pátria, querida pátria! Pois não vês a lista
Hedionda, repugnante, das traições havidas
Dos que, pelo egoísmo, deram suas vidas?...
Amo o azul dos céus e o rubor da pitanga
Irisados no albor da casta madrugada.
Antipatizo as duas cores do Ipiranga
Que têm assim uns tons de moeda azinhavrada.
Pátria, querida pátria! Hás de querer, tu,
Que após o patriotismo e sacrifícios feitos,
Nós fiquemos fossando, estúpido tatu,
Nos restos fedorentos, pútridos, desfeitos,
Das velhas monarquias, frígidas, malucas?
Não é assim que pensas, nem assim que educas.





Ouvi por trás de mim uma voz de cristal.
Vi. Era a Liberdade sorrindo, sensual.
Eu vim com Ela até o frio pedregulho
Onde espirava o mar com um surdo barulho.
Como estava bonita a minha doce ama!
Recosta-se ao meu ombro em languido cismar,
Recuo com respeito, fujo, ela me chama,
Senta-me ao pé de si. Torna-se a recostar.
— Senhora, desculpai; mas sou simples criado...
Temo por vós, senhora, e serei dispensado...
— Oh! tu não sairás! Meu pai gosta de ti.
Tu prometes ficar? tu prometes? devera?
— Enquanto estiverdes prisioneira aqui,
Senhora, eu ficarei na ilha da Quimera.
Eu vos amo, senhora! E saberei morrer
Por vosso amor, donzela. Que estéril viver
Eu passava sem ver-vos! Oh que doce dia!
Me sinto reviver! Minha alma se extasia!





Ligados pelo Amor, fortíssimo cadarço,
Ao calor do eternal VINTE E CINCO DE MARÇO,
Alegres como hebreus voltando a Jerusalém,
Ambos adormecemos. Ela e eu também.