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Mistério do Natal
por Coelho Neto


͍ndiceEditar

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo I: A partida


Era a hora silenciosa e triste do crepúsculo.

Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o horizonte abrasado. Abriram-se as primeiras estrelas. Subiam da terra, como o fumo das aras, panos alvos de névoa.

Pelos caminhos esbarrondados, em áspero aclive, beirando gotas espontadas de cardos, urna ao ombro, as túnicas arrepanhadas à cinta, desfilavam donzelas conversando e rindo.

Juntas, em passo miúdo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e de silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanho. Um rude e mazorro pastor seguia-as cabisbaixo.

Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria apareceram no limiar da casa prontos para a longa jornada, por vales e montanhas, em direção à terra farta de Belém onde iam cumprir a lei de Augusto.

Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela saudade.

O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e logo, limpando os olhos que as lágrimas nublavam, a donzela surgiu.

Ele grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do ofício, falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe forma e lustro. Ela, meã de altura, fina e frágil.

Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum límpido verde d’água, e como dois lagos puríssimos num areal, ao sol; e os cabelos escapando-se do cairel do manto, punham-lhe ma fronte uma frisa de ouro.

Mal se lhe adivinhava o colo abotoado.

Os pés, alvos e pequeninos, assentavam em sandálias e toda a sua riqueza consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam graciosamente os pulsos finos.

Trilhando a estrada que ia ter à fonte e seguia direita aos campos, paravam para falar às moças, companheiras e amigas de Maria, para corresponder à saudação dos homens, para atender às crianças que deixavam os seixos tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das terras de além conchas, como as de Ascalon, que conservam no bojo o soluço das ondas.

E Maria, comovida, chorava sobre o sorriso.

Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pálida folhagem faziam no encosto das colinas como estendais de névoa.

Ainda havia quem trabalhasse a leira na ânsia do fruto. Chiava um carro de lavoura, o guieiro falava aos bois animando-os no lance abrupto de uma rampa.

Chegando ao planalto estéril, que dominava os horizontes e onde o vento zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos montes.

Lá ficava Nazaré no vale feliz, com o seu casario, em cubos brancos, como um pacífico rebanho adormecido.

Ao longe tudo era carregado e lúgubre.

A noite chegava primeiro às alturas.

Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Tabor era como um peito de gigante onde houvesse espirrado aquela gota de leite.

Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado além da fronteira da terra natal. Alongando os olhos pela vastidão que a vista alcançava, montes, várzeas, esplanadas desertas tristes, sentia-se mesquinha e com medo.

Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranqüilo recanto que sempre vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixara; raros lumes picavam a treva. Ouvia-se vago murmúrio, como escachôo d’águas, subindo do fundo obscuro onde jazia a cidade. Saiu-lhe do coração um suspiro magoado:

- Onde fica Belém? José levantou o braço e estendia o cajado na direção da terra de Davi, quando uma estrela fulgurou, iluminando radiosamente o céu profundo.

- Ali! Disse o patriarca, numa voz que tremia, compreendendo, maravilhado, que aquele astro surgira dentro da noite como uma resposta de Deus à moça predestinada.

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo II: O anjo


A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o fragor de ramagens estortegadas e d’águas precipitosas que se desenhavam, aos jorros, pelos algares. Nas chãs ainda o trânsito era fácil, sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes, como a impedir-lhe a marcha; mas nas gargantas, entra alcantis, as lufadas, abocanhando à entrada, esfuziavam desabridas, uivando com a fúria de alcatéias famintas em ronda ceva, a faiscar redis.

Todas as estrelas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como lumaréu de vigília em torre, a que surgira e brilhava sobre Belém.

Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho seco.

Um ramo que bulisse, o lento defluir de um fio d’água por entre pedras levantavam ruídos temerosos.

Às vezes José detinha-se, hesitando na bifurcação de duas trilhas, mas pouco durava a dúvida porque uma das veredas enegrecia ainda mais, ao passo que a outra rutilava fúlgida, como calçada a diamantes, oferecendo-se, clara e segura, aos peregrinos.

Como entrassem em sinuosa e augusta passagem murada de rochas anfractuosas, eriçada de agaves e ecoando como o âmbito de uma caverna, ouviram leve, frouxo ruído como de esfrolar d’asas.

Uma águia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, atenta, alargando as asas, ficara em atitude hostil pronta a arremeter em defesa do ninho.

O patriarca, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve, apertou com força o cajado e levantou os olhos.

Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, tímida e trêmula, uma oração ao Senhor. O receio de um ataque em sítio tão desolado, longe de toda habitação, onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.

Os corações batiam. Nela era o pavor do desconhecido, o grande medo trágico das sombras do Scheol, que erram, à noite, pelos descampados; nele era o temor por ela.

Não falavam, de olhos muito abertos, quietos, imóveis como os rochedos que os emparedavam.

De repente um clarão fulgurou. A passagem iluminou-se, as pedras cintilaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E eles viram uma grande luz à flor da terra e clareando as rochas.

Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.

Levantando o olhar, viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria retardava a marcha.

A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de emoção, não se atrevia a encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de luar. E as asas aflavam docemente no silêncio.

A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudara com as palavras misteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissário que lhe aparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a inocência de Maria, em cujo seio, como em corola de flor, a Graça perpassava em gênese imareável, fecundando-o como o sol fecunda a leiva, eternamente pura.

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Capítulo III: Lírios


Clareava.

Manhã opaca, envolta em bruma que algodoava a terra, flutuando com um lento ondular, fluindo em frouxéis alvíssimos como penugem, esgarçando-se, diluindo-se em fumo tênue que se esvaía no ar silencioso.

A espaços frondes boiavam, ramarias excídias irrompiam.

Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.

Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.

A terra dava-se avaramente, a trechos curtos, à medida que os viajantes avançavam e o caminho percorrido, como os da vida, eram logo fechados em branco pelos nevoeiros.

ranco também era o céu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.

Pássaros piavam nas taliscas, ocultos; vozes de gado, longínquas, evocativas, anunciavam casais.

Maria tiritava.

A túnica pesava-lhe nos ombros, úmida, e as faces, rorejadas, tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor carinhoso daquela mocidade pura.

José distraia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando.

Todos aqueles atalhos tortuosos, aqueles carreiros ínvios haviam sido, em tempos remotos, trilhados por patriarcas.

Ali haviam-se travado batalhas sangrentas; ali alvejara a tenda, crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas de Iahve onipotente.

Por ali andara Elias trovejando oráculos. Judite afiara o gládio libertador nas arestas daquelas penhas.

Em poeira de ouro foi-se mudando a névoa: era o sol.

Já aparecia uma nesga de azul; árvores, moitas destacavam-se. A mortalha rasgava-se para a ressurreição.

Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a vitória da Luz. E Maria, contente, d’olhos em êxtase, esperava o astro anunciado pela fulguração das nuvens.

Num recanto, entre mirradas árvores de troncos retorcidos, uma água escura e quieta reluzia.

Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.

Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de sono, sentou-se tão perto d’água que ela toda refletiu-se na superfície espelhenta.

Viu-se, sem vaidade, com a mesma inocência com que revê o pássaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.

Quis José repreendê-la, vendo-a, porém, sorrir, sorriu também.

Gotejando saíram as pequeninas mãos da água que tremia.

Olhavam os dois os círculos que se abriam quando viram dias flores subirem à tona, brancas, abertas em cinco pétalas, eretas em finas hastes, como se o reflexo das mãos da Imaculada se houvesse materializado em memória da ablução ligeira.

Eram lírios e trescalavam.

Virtude, brilho das almas, que importa que desças à vasa? És impermeável como a luz, purificadora como o raio de sol.

Não perdes a límpida pureza e, se entras no vício, fazes desabrochar a graça; se afundas no crime, tiras o arrependimento.

O pântano era lôbrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o aflorarem, tanto o purificaram que dele nasceu o lírio sem mácula, símbolo formoso e cândido da inocência.

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Capítulo IV: A refeição


Suave som de flauta pastoril deu a Maria o encanto de um égloga. Voltou a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.

Trazia-o um menino, guiando-o por entre as heras de aroma. Um lindo menino, tão alvo que não despedia sombra, como as naves que os raios de sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.

Vinha a flauta soando em suaves acentos e atraídas, enlevadas na música, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos; um pela terra verde, outro pelos ares claros.

Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo.

Como devia saber aquele leite que era a metamorfose das flores dos silvados! Como devia recender na boca e aquecer a fartar!

Calou-se a flauta e o menino, fitando os olhos meigos do casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animais pararam.

Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um velo e as abelhas, zumbindo, puseram-se a esvoaçar em torno dos lírios alvos.

José adiantou-se e, oferecendo um óbolo ao menino, pediu-lhe um pouco de leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.

Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ansioso. Balavam todas oferecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.

Foi à primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em um fio; outra chegou, depois outra e a todas ele atendia para que nenhuma ficasse preterida.

Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes.

Sorrindo, aceitou Maria a oferta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de José.

Refeito, o patriarca insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a recebê-la:

“Que era um gole de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.”

Saudou-os, e, pondo-se à frente das ovelhas, levou a flauta aos lábios.

Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho prosseguiu. Foi então que Maria viu que as abelhas, tantas que ocultavam os lírios, deixavam as flores voando à música de flauta.

- Lindo pastor! Lindo rebanho! Disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se às abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão elas buscado nas flores d’água?

- O aroma e o néctar, explicou o patriarca.

Chegaram-se os dois às flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel cristalino e louro como o âmbar precioso e tão perfumado como se contivesse toda a essência das flores.

Tomou José um dos lírios e deu-o a Maria; a Virgem ofereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplavam-se felizes.

- A flauta já não soa, vai muito longe o pastor, disse Maria.

- Vai muito longe! Repetiu José contrito, levantando os olhos para o céu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas.

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Capítulo V: A Nuvem


Sob a irradiação do sol a terra seca abrasava, exalando um bafio de rescaldo.

Triste, flagelada Samária pagã!

Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a temperar a fé, de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre rochas úmidas.

Ermo o sagrado monte, esquecido o santuário antigo, as lavouras mirravam e um sol mais árdego crestou as ervas, sorveu as águas outrora copiosas.

Nem as torrentes ligeiras, conseguiram, fugindo, escapar à inclemência e os leitos dos córregos, em lodo seco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas.

Um fio d’água rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.

Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias tórridas onde víboras esfuziavam, entaliscando-se.

De ponto em ponto uma cisterna funda oferecia ao caminhante a sua água salobra.

Às vezes o terebinto forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno.

Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia cantar um pássaro – só o gipaeto atravessava o espaço fulgurante ou grandes águias hostis, pousadas nos cabeços das penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.

Maria ofegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o sol abrasava-lhe a cabeça.

Caminhavam como através de chamas, sem que os olhos avistassem um colmado, a grata ramagem duma árvore.

Ó terras férteis da Galiléias! Vales alfombrados e frescos de tanta beleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiéia.



Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivais.

Seria melhor esperarem a tarde, prosseguirem com a brandura do crepúsculo, mas a pressa que levavam não lhes permitia demora.

José mais robusto e afeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava a sentir-se atordoava: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.

- Chega-te à sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarca. Ela obedeceu. Mas o sol zombava da misericórdia do amor e Maria continha as lágrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o esposo sofresse com o seu sofrimento.

O sol subia, aumentava o calor e o ânimo da Virgem desfalecia quando uma nuvem cresceu acima do monte Ebal.

Era escura como os nimbos e apressava-se como impelida por um grande vento.

arulho surdo anunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de verão.

A terra entenebrecia à passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal.

O ruído aumentava tornando-se como o escachôo das catadupas.

Detiveram-se de dois pálidos, tolhidos de espanto.

Súbito Maria sorriu:

- São pombas, disse. Eram, efetivamente, milhares de pombas azuis que, muito juntas, formavam as nuvem escura. Pairavam, ficavam adejando sobre eles, com rumoroso arrulho e o sol quebrava-se-lhes nas asas estendidas.

José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que ele, em êxtase, adorava-a.

Então prosseguiram à sombra do imenso pálio azul e fora da nuvem viva a terra, quente e rútila, ardia e faiscava ao sol.

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Capítulo VI: Ao pôr do sol


No céu desbotavam, esbatiam-se as cores vivas, o ouro e a púrpura fundiam-se em violeta e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava as almas. E Maria perguntou?

- Por que é mais triste que a noite o breve instante do pôr-do-sol?

- Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é o morrer.

A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena , tem a imobilidade do cadáver.

Quantas sombras havia na terra? Tantas quantas são os seres e as coisas que existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua autonomia para o bem ou para o mal.

O homem tem a sua sombra, como a formiga. A cordilheira escurece uma região e o grão de areia destaca a sua mancha.

A noite condensa na mesma sombra todo o universo.

No instante da agonia a lama, como o saltador que recua para ganhar impulso na corrida e formar o pulo, regressa na reminiscência recordando a vida, desde os primevos até a hora suprema.

O crepúsculo que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recuo à madrugada para o salto dentro da noite.

- Aquele clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma lâmpada que o sol deixa acesa quando parte. Como a noite é linda!

- E purificadora. O sono é um mergulho na eternidade.

- Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e só depois de rezar conseguia adormecer.

- Porque a fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que não crê é como o cego que anda tateando, sempre arriscado a perigos bastando resvalar num talude para precipitar-se no abismo.

A fé é como uma lâmpada dos templos: sempre acesa e fulgurando.

O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O horizonte do crente é Deus.

- Por que bate com mais vigor o coração à noite?

- As águas murmuram mais alto no silêncio? Não, a voz é a mesma, a calma é que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas à sombra da vinha ouves balar o rebanho? Não, entretanto, à noite, soergues-te do leito à voz lamentosa duma ovelha perdida.

O coração parece pulsar com mais ímpeto nas horas de recolhimento.

Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estilicídio é uma gota que faz ruído. É essa uma das vantagens da noite – estabelecer o silêncio, a quietude na alma para que a consciência faça o seu ato de contrição.

- E as estrelas? Quem as acende no céu?

- Aquele mesmo que abre as flores na terra.

- Ninguém o vê.

- E o pensamento, quem o vê? Enunciado é um relâmpago, realizado é um esplendor; a sua essência é um gênio, que gera a ordem. O mundo é a realização do pensamento de Deus. As obras efêmeras do mundo são a consubstanciação do pensamento humano. O homem constrói, é o artista. Deus creia, é o Verbo.

- E eu?

- Tu és Maria, disse o patriarca, afagando-a paternalmente.

Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo os dizeres do ancião:

... cheia de graça, o Senhor é contigo,endita és tu entre as mulheres.

Ela deteve-se assustada e interrogou o esposo, trêmula:

- Que dizes, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu:

- Digo que és uma criatura de Deus, como a flor, como a estrela.

Os chacais latiam no deserto ao doce clarão da lua.

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Capítulo VII: A tentação


Numerosa estropeada de inúmeros corcéis atroou o silêncio; tubas clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas penhas, que o luar vestia d’alvo, viram altos pilonos de basalto, sarapintados de hieróglifos, ante os quais esfinges monstruosas, deitadas sobre estelas negras, leivadas de sanguíneo, com os bicos dos rijos peitos incrustados de rubis, cravaram no céu os olhos misteriosos.

Mal chegaram à entrada portentosa logo uma luzente guarda de catafratos , com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas rastejantes, hasteando lanças que alumiavam, formaram duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma serena pulverização de aromas.

Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirífica, toda em mármores e pórfidos, com enormes templos, palácios que eram cidadelas, jardins de redolentes aléias, rios beirados de árvores, com as rampas em alcatifa de flores, rolando alisadas águas sobre as quais rebrilhava, em tremulina, o luar.

arcos de proas curtas, transbordando brocados, cruzavam-se com músicos sob dóceis de seda.

Nos bosques que os cisnes percorriam, alvos como vivos mármores, mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva ou balançavam-se em redouças.

Os zimbórios dourados, os frontões dos templos tauxiados de ouro, as escadarias largas, de zebrados degraus de cipolino, subindo a pátios de mosaico, esplendiam.

Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa variedade de trajos multicores.

Passavam palanques sob flabelos empunhados por grandes negros vestidos de saios rubros, com franjas de prata, adagas à cinta, emplumados turbantes à cabeça.

Plaustros rodavam com crepitações levantando uma névoa loura.

Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de ônix canelado, mole serpente de escamas de ouro, vibrando a língua bífida, enroscava, em lentas espiras, ficando, às vezes, pendente, a oscilar como uma grossa liana.

José olhava pasmado e Maria encolhia-se tímida, contemplando, deslumbrada, a cidade fulgente.

Não era a triste Sichem nem a sombria Jericó. Que cidade seria aquela tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?

Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as portas do templo maior e um grave cortejo apareceu no peristilo e vagaroso, solene, pôs-se a descer a fulgida escaleira.

Vozes, ao ritmo de instrumentos litúrgicos, entoaram um cântico glorioso.

O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.

Cerúleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas lampejaram em meneio heróico e toda a turba templária formou no átrio, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir argentino de armilas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois cornos de luz purpúrea ardendo-lhe entre os cabelos crespos, surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria estática.

A voz com que a chamou reproduziu-se em eco no silêncio místico; o seu olhar ardia e, em torno do seu corpo torreado, relumbrava um halo como se o emuldurassem chamas.

- Vem! O meu amor esperava-te ansioso. És a eleita de minh’alma. Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos são açucenais extensos.

Eu pus em ordem a natureza para as nossa núpcias. Vem!

A terra em que pisas nunca recolheu cadáveres. Entraste no reino da ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braços que alumiavam como caudas d’astros.

Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que ribombava e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos, cruzaram as lanças formando uma abobada de cintilações.

José olhava, mudo e receoso, acolhendo ao peito a tímida donzela. Um galo cantou em alguma herdade próxima.

Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os seres que a animavam subverteram-se.

Os ares ficaram nublados de fumo, estriges chirriaram.

De novo reapareceram os campos rasos, ermos, estéreis, calados, ao luar lívido.

Maria, com o coração sobressaltado, murmurou:

- Que lindo sonho, meu senhor.

- Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarca. Vamos! Os lírios trescalam, os grilos cantam. É a madrugada que vem.

Puseram-se a caminho.

E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme, monstruosa, com dois cornos que coruscavam.

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Capítulo VIII: O milagre das lágrimas


A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com aceitosas sombras de sicômoros e de amendoeiras, era toda orlada de anêmonas vermelhas e de margaridas brancas e amarelas.

Os khans sucediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tiro ou do Líbano ou subiam de Jopé, comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de Engadi, enquanto os dromedários soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostálgicos à vívida fulguração do sol.

Casas misérrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivais.

Caravanas desfilavam – os homens à cavalo, com as lanças altas, o albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.

Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths vibravam, frutas desferiam e os cavalos alegres faziam caracolar os ginetes, as mulheres punham-se de pé nos carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam túmulos.

José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, metendo por atalhos para evitar a chacota da gente nômade.

Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.

Pós ela uma pequenita, já com abundância de flores, ainda varejava os matos procurando anêmonas.

Vendo-as, a mísera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos d’água, perguntou:

“Se ainda distava muito Edor, onde vivia Burac, o nazir, que conhecia a virtude das ervas e realizava curas maravilhosas. Vendera as ovelhas e levava oito ciclos de prata e um colar de ouro comprado em Jerusalém e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saúde do filho.”

José estendeu o braço na direção do levante:

- Era além, muito longe, através da montanha, num vale sombrio, a horas do Jordão.

Maria, comovida, quis ver o infante.

A mãe descobriu-lhe o rosto.

Era lindo!

Os cabelos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos sob as cúpulas tumbais das pálpebras, com os longos cílios repontando como a erva que fica no abandono.

A boca, de lábios cerrados, lívida, era como o leito seco de uma torrente que o sol exauriu e estalou.

Não se movia e, tão rígido, tão frio estava que só a ilusão do amor podia ainda emprestar-lhe vida.

A pequenita continuava a rebuscar anêmonas cantando.

- Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse comiserado o patriarca, acrescentando: Burac pode sarar enfermos, mas só Elias ressuscitava os mortos.

- Quereis dizer que ele está morto!? Exclamou a mulher tremendo. Se, ainda ontem, o embalei nos braços... Se ainda estou com peitos cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das colinas.

Ai! de mim... Bem que eu não queira cantar a cantiga tristonha!! Foi o canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim!

Adormeci-o para sempre.

E agora? Quem terá piedade da minha solidão? Era ele só...

Nasceu em noite de luar, finou-se em manhã de névoa. E hei de o deixar na terra justamente quando o inverno chega! Ai! de mim...a saudade mudará o leite dos meus peitos em lágrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim!

E a moça deixou-se cair à beira do caminho apertando nos braços o corpo do filho morto.

A pequenita continuava a rebuscar anêmonas.

Maria inclinou-se compadecida sobre o cadáver e duas lágrimas da sua piedade rolaram na fronte gélida do defunto.

Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azuis, cor do céu; renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no colo materno.

O espanto emudecera, imobilizara a moça.

Súbito, ergueu-se com um grito d’alma, pôs-se a rasgar a túnica na pressa de amamentar o filho.

Os peitos saltaram túmidos. O pequeno abocou avidamente e a mãe, sentindo-o sugar, contente e com lágrimas, ajoelhou-se e, d’olhos no céu, ficou como petrificada.

Maria chorava por vê-la chorar venturosa e, com as suas lágrimas na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando como acima d’água borbulham, às mil, as bolhas de ar.

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Capítulo IX: Caminhando


Maria caminhava em silêncio, pensando naquela mãe que, repentinamente, passara da maior desventura à maior felicidade pelo prestígio das lágrimas misericordiosas.

- O pequenito dormia e a pobre mãe tinha-o por morto. Foi bastante que eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos.

- É que o despertaste, disse o patriarca sem aludir ao prodígio que testemunhara.

Ele ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se realizavam à passagem da Virgem; ribeiros que sustavam o curso oferecendo o leito enxuto para a travessia; árvores que se cobriam de flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes que murmuravam; veios límpidos que rebentavam das pedras e, durante os curtos sonos da donzela não lhe passavam despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos aveludados.

A mais e mais se lhe firmava n’alma a certeza de que as palavras que ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do céu.

Aquela era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de Judá, da qual devia nascer o Messias das gentes.

Ele acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de joelhos quando a via adormecida.

Ela ignorava tudo. Sabia apenas que era mãe porque sentia no seio os movimentos do Ser Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.

Já lhe crescia o colo, pesando, arredondado e túrgido.

O amor preparava o alimento para aquele que se nutria de mistério.

- As mães sofrem tanto pelos filhos!... O amor das mães é como a rosa que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não sofra enquanto for pequenino.

As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dor, de sorte que a gente não sabe como as há de aliviar quando sofrem.

- As mães adivinham.

- São tão fracas as criancinhas que tudo é perigo em torno delas. Tremo quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, tão franzino e tão pobre. Onde o agasalharemos nós?

- Entre os nossos braços, como os pássaros resguardam o ninho entre os ramos.

- E o frio?

- Temos o nosso calor.

- E a fome?

- Os peitos maternos são dois celeiros sempre cheios.

- Haveis de amá-lo, senhor, e ajudar-me enquanto ele carecer de nós?

- Por ti, por Ele, por todos, disse José enlevado.

Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de musgo.

Um velho cego repousava à sombra, ouvindo cantar uma criança que brincava sentada nas folhas secas.

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Capítulo X: O cego


O velho era Jericó.

Esperava naquele retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a Jerusalém e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras ou um esgarçado albornoz em que se enrolava, bendizendo com palavras humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recomendando-os ao deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos montes.

José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria adormeceu revendo, em sonha, a sua alegre Nazaré, as moças à beira da fonte, os pastores nos cerros, à hora macia da tarde, quando as cotovias baixam e desaparecem nas searas e as águas das levadas cantam.

Conversaram os dois velhos – José falou da sua viagem, o cego falou da sua cegueira.

- Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sicômoro. Já se habituara à treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao cárcere.

Um mágico de Suza oferecera-se para curá-lo. Pedira cem dracmas, baixara a cinqüenta; faria por vinte se ele lhas oferecesse.

Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria uma soma, mas, pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou:

- Ilude-se que julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará as coisas como deixou: as próprias pedras modificam-se e não são várias como as almas.

Quando me anunciaram a morte de meu filho, pedi que me pusessem junto do cadáver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levavam a enterrar, mas não vi o enterro.

Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, ainda hoje, vou sentar-me no sítio em que ele avultava e sinto-me agasalhado pela ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos passarinhos de outrora.

As coisas foram desaparecendo uma a uma; eu mesmo envelhecia, mas a cegueira conserva a visão do passado.

O sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de Jericó à voz do batalhador.

Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animais, as árvores, os lugares com suas cabanas e os seus campos floridos.

Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha senão a limitada paisagem que fica em torno da sua vivenda triste. Soltai-a, esvoaçará atordoada e, se não regressar à prisão, morrerá de fome perdida nas florestas frondosas, se não cair nas garras dos abutres.

O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? Para eu morrer de saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não!

Vivo no passado, o meu tempo já foi.

Não caminho para a morte. Espero-a, sentado no limiar da mocidade, ouvindo o rumor do tempo devastador, sem ver os desastres, sem ver as lágrimas, sem ver os enterros.

Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nela vivo. Já agora estou habituado à sombra. Para que hei de sair se, lá fora, me esperam ossadas? Se o próprio Deus me oferecesse a luz eu lhe pediria a morte.

Voltar atrás...! A erva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as nossas pegadas.

O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente envelheceu ou morreu. Só há um meio de não caminhar chorando – é seguir sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e cegaria de novo com os olhos afogados em lágrimas. Aonde vos dirigis?

- A Belém.

- Casa do pão. É ali que deve nascer o Anunciado. Casa da abundância, celeiro do Senhor, Belém da fertilidade! De lá é que nos há de vir o Messias. O campo de Booz dará o trigo que há de fartar as almas.

- É para lá que vamos.

- Que as estrelas vos sejam propícias, como foram a Ruth, a moça de Moab.

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Capítulo XI: Dentro da noite


Maria abriu os olhos quando as estrelas nasciam.

O cego já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vésperas.

José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.

As últimas chamas do sol apagavam-se no ocaso e a névoa polvilhava os ares como uma cinza.

Monstruosos penhascos, talhados a pique à beira dos precipícios, avultavam temerosamente na sombra.

Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação retorcida, com as raízes à flor da terra, agarrando-se nervosamente às arestas dos penhascos, parecia recear aqueles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um escachôo soturno d’águas constrangidas.

Escurecia. Os montes áridos da Judéia apresentavam-se hostis aos peregrinos.

Os caminhos, aos torcicolos, confundiam-se augustos, escavados em brocas, eriçados d’aspas calcárias, orlados de intensos espinheiros que, às vezes, como garras, detinham os viajantes pelas túnicas.

Estriges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lúgubres.

José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo Maria, buscando tranqüilizá-la com palavras carinhosas.

Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a sombra. Julgando seguir a estrada direita, o patriarca estendia a mão e sentia a aspereza das penhas.

- É imprudência insistirmos em prosseguir em tal escuridão, disse Maria com medo. É Deus que nos retém.

José deteve-se. Parecera ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de ramos secos, como se viessem outros caminheiros. Escutou atentamente.

Era o vento que agitava o folhedo e eram as águas profundas que referviam nos algares.

Mas um clarão suave acendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de um facho. Uma centelha passou na escuridão, outra girou nos ares, as folhas, os ramos de árvores ficaram incrustados de brasas.

Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a espessidão estrelou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rútila umbela pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto.

Eram pirilampos que voavam em ordenada falange alumiando os caminhos obscuros.

E os dois, sob o relume dos insetos, continuaram a viagem dentro dum reverbero que só ao clarear d’alva desapareceu nos ares.

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Capítulo XII: Piedade


Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de peles, as pernas enroladas até os joelhos em velo sórdido, entraram em Jerusalém pela porta do mercado, à hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.

José procurava distrair Maria mostrando-lhe as grandes belezas, a magnificência da cidade; nomeava os edifícios, alguns longínquos, esfumados nas primeiras sombras da noite.

A Virgem, porém, seguia calada, sem ânimo de levantar os olhos, com o coração cerrado em tristeza universal.

Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo à cinta; fenícios cobertos de jóias, com enormes colares de contas de ouro e braceletes de marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, com a túnica colida ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.

Mulheres mostravam-se às portas das casas, encostadas languidamente aos umbrais, olhando em êxtase, com um sorriso nos lábios cor de púrpura.

A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das túnicas; outras, reclinadas em leitos marchetados, cerravam molemente as pálpebras gozando o frescor dos flabelos que escravas agitavam.

Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.

Estranhas músicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um barbariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quais, em corridinha airosa, moças iam e vinham com ânforas e crateras.

O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.

A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha fama pelo seu anho tenro e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e não recebia mulheres, não seriam incomodados pelos legionários que, à menor agitação invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lança.

Era um rancho paupérrimo, entre sebes de espinhos, onde se aboletavam mestairais e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel, resinas, bálsamos e raízes.

O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lôbrega que uma candeia alumiava.

Rústicos bebiam, jogavam e fora, junto a um Monet de pedras, um velho resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudela.

Era um leproso nojentamente abostelado de úlceras.

Às chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorrompesse aos berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.

O hospede tranqüilizou-os e, saindo ao terreiro, pôs-se a assobiar.

Enorme cão saltou da sombra rosnando. O taverneiro açulou-o contra o leproso que se encolhera estarrecido.

Vendo o cão investir, Maria caiu de joelhos, juntou as mãos frias e, trêmula, d’olhos no céu, implorou pelo infeliz.

O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam no ante-gozo da cena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara, pôs-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo.

E Maria, estática, não via a doce misericórdia que imobilizara em espanto os hóspedes do albergue.

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Capítulo XII: Cântico messiânico


Ao romper d’alva quando, do lado do templo as cegonhas partiam em direção ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o grão que transbordava das seiras, o patriarca despertou Maria e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As buzinas romanas ressoavam na serenidade.

Legionários recolhiam cansadamente a Makeros.

Pobre, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos.

Num pátio, entre muros de maceira, espontado de ervas silvestres, mugiam bois e homens bradavam.

Corvos rondavam os ares atraídos pelo cheiro de sangue.

Quando passaram as muralhas, saindo do Campo do Oleiro, o sol brilhava nas pastagens úmidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.

Maria caminhava d’olhos altos, como enlevada. Inefável sorriso iluminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante.

- Lá está Belém! disse José estendendo o cajado na direção dos montes ainda enfaixados em névoa.

Maria empalideceu e, d’olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de Davi, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo inspiradamente as palavras que lhe saiam d’alma:


“Espírito Perfeito, ânsia das almas míseras, se és Tu que em mim assistes, bendita seja a carne frágil em que Te encerraste e de onde deves romper, germe da Redenção, em Flor de Misericórdia.

Espírito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lâmpada, que o Teu clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o amor no coração dos homens.

Espírito Perfeito, fonte de copiosas águas benfazejas, bendita seja a dor que me lançou na vida, benditas sejam as lágrimas que por Ti hei vertido.

Espírito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que hei de Te dar, bendita seja a aflição e minh’alma na hora atormentada em que, inocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade.

Espírito Perfeito, se És a redenção anunciada, bendigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trâmite e prostro-me ante a Tua Graça e exalto a Tua beneficência.

Espírito Perfeito, Ser do seres, não nado ainda, glória a Ti e à Tua origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que não se macula por transmitir ao corpo a visão.

Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que ele alumia, entra, pelo olhar, no cérebro.

Eu sou a pupila que comunicara ao universo a Claridade Magnífica.

Espírito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua virtude e pela Tua excelência. Sabes da carne mortal sem trazeres pecados: passas por ela como uma imagem que se reflete n’água.

Espírito Perfeito, Graça de Israel, Esperança da Gentes, Messias... Meu coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o cativo que almeja a liberdade.

Eu sou a fraqueza humilde chamada mulher. Sou a escrava que gera o seu libertador, a sombra de onde sabe a luz, o pecado que floresce em perdão...”

José ouviu-a com os olhos rasos d’água.

As cotovias cantavam na altura luminosa.

Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Belém, entre outeiros.

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Capítulo XIV: O campo de Booz


À hora cálida, abafada, em que as folham dormem e as ribeiras murmuram de leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda asa encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo réptil encova-se na terra mais úmida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moças juntavam gavelas, cantando, enquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes no chão, na raiz do trigal.

Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquela messe de ouro e na alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos altos, onde os seareiros desapareciam, como se fosse o próprio campo que cantasse o louvor do sol.

Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direto a uma palhoça onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando.

Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando ele saudava o ancião.

- Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta alegria?

- A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador.

- Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem bom, que a amou?

- Sim, foi aqui. Esta é a leira de Efracta, a mais fértil entre as mais abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raça robusta dos reis de Israel.

Aqui nasceu Davi, tronco forte, estirpe augusta de que há de sair a imarcessível flor anunciada, cujo perfume encherá as almas de inefável ventura. Este é o celeiro de Iahve. E vós vindes de onde?

- De Nazaré, na Galiléia.

- E ides?

- A Belém. Urge que lá cheguemos antes do pôr-do-sol.

- Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que tenho dá para repartir convosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem fatigada. Que descanse um instante à sombra, gozando a sesta. Entrareis na cidade com a fresca da tarde.

Aceitaram os peregrinos o convite hospitaleiro: sentaram-se e comeram do pão molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.

Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.

As moças cantavam na eira levantando moedas de ouro e, sob o sol escaldante, no alto céu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na distância, esmoreciam perdidamente.

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Capítulo XV: Na estrada de Belém


Frio e pálido, esfumado em brumas, o crepúsculo baixava na tristeza da tarde silenciosa.

No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras imóveis pareciam gravadas em negro no fundo dourado do ocaso. Aves esvoaçavam caladas.

Docemente, com um trêmulo murmúrio, fluíam pelos canais de rega as águas levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, devagar, no campo restolhado, soavam como gemidos.

Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anêmonas.

Maria parava de instante a instante, arfando.

Amolecida, alquebrada, olhava com desânimo os outeiros ainda longínquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cansaço.

José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso:

- Estamos a chegar. Lá aparecem as casas de Belém; as luzes brilham por entre as árvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.

Ela parou, ficou a olhar o céu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem.

- É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que não sei se poderei acompanhar-vos até as colinas de além. toda eu esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas ervas, e dormir um sono grande.

Nunca me pesou tanto o corpo, o próprio espírito pesa-me, tão carregado está de medo e de cuidados sombrios.

Que será de mim e d’Ele ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de tudo, à friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal?

O chiar de um carro levou-lhes a atenção para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda:

Ervas do campo florido,
Que aroma! que trescalar!
Bem se vê que o seu vestido
Andou por vós a roçar.
 
Outeiro em flor, o teu velo,
Verde e fino, ao meu ciúme
Confessa que o seu cabelo
Deixou nele o perfume.

O carro apareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acácias.

José dirigiu-se ao carreiro, robusto e moço, e pediu-lhe passagem para Maria, mostrando-a, prostrada e lânguida, entre o rosmaninho cheiroso.

O moço acedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram.

E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d’aguilhada ao ombro, olhos fitos no céu, insistia na égloga:

Ervas do campo florido,
Que aroma! que trescalar!
Bem se vê que o seu vestido
Andou por vós a roçar.

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Capítulo XVI: Na caverna


Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse:

- Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e fácil, guia-vos a Belém. Seja o Senhor convosco.

Sem esforço, José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E ele, galantemente, respondeu:

- Trouxe a flor viva do trigal ceifado, e, com tão jeitosa resposta, despediu-se e foi-se, aguilhada ao ombro, devagar, à frente dos bois, cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.

Os dois caminharam alguns passos. Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida de sofrimento; mas não pode ir além da caverna e deteve-se.

O áspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao trêmulo flamejar duma fogueira junto à qual um velho pastor, de mãos estendidas ao lume, cantarolava baixinho.

Ovelhas ondulavam na sombra.

Logo à entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma manjedoura. Um jumento dormitava e, junto dele, ruminando, jazia deitada uma vaca com o seu novilho.

Disse José à Maria:

- Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em alguma estalagem. Ela sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos foram para a caverna.

O patriarca, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor.

- Seja o senhor convosco!

- Bem-vindo seja o que chega e desce com os olhos até a minha humildade.

- Hóspede na terra, venho de longe e comigo, em estado que não consente esforço, trago minha esposa, que aqui vedes. Se permitirdes que ela fique um momento convosco enquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos há de louvar.

O velho pastor, de fartas barbas amarelecidas, longos cabelos espalhados pelos ombros, que um melote cobria, soergueu-se e falou:

- A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar.

- Ela fica, eu sigo pela pousada. Maria tímida, entrou. Logo o pastor acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha.

E o patriarca partiu.

Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, que não lhe foi difícil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.

Logo à entrada, sob o vasto alpendre, viu as altas pilhas de fardos, e, em volta, estendidos em peles, mercadores e recoveiros.

O hóspede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:

- São homens que se aboletam ao relento, por falta de cômodos. Dificilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas atraíram grande mó de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José prosseguiu.

Nas vielas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras.

Debalde o ancião entrava nas estalagens. As próprias choupanas recebiam hóspedes e, pelas colinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem êxito

Já o silêncio anunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo à caverna.

Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo asas largas, diáfanas, feitas como de névoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a noite.

Entrou. O velho pastor velava diante das brasas vividas e, entre ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena.

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Capítulo XVII: Natal


O esplendor é mais impenetrável que a treva e foi uma muralha fulgurante que encobriu Maria quando se realizou a profecia do bem.

Na hora em que os galos cantaram a primeira vez, súbito clarão resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que atravessou o sono em que jaziam o patriarca e o pastor.

José soergueu-se d’ímpeto, firmando-se nas mãos, ofuscado pela claridade vivida que irradiava em estalactites de um brilho augusto, mudando em rútilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo áspero solo, eriçado em pedrouços, uma área esplêndida como se fosse embutida de gemas lapidadas.

O pastor, atônito, deslumbrado, arrastava-se tateando e a caverna, a mais e mais aclarada, parecia toda uma chama alva como se um luar maravilhoso a enchesse magnificamente.

Os dois homens, atordoados, não falavam – estendiam as mãos e os seus dedos chameavam como raios d’astros e da luminosidade desprendia-se um perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.

Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrelas. Pode o pastor arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgiam como o de uma salamandra.

Trêmulo, chegou à entrada, respirando a largos sorvos, o ar frio que vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.

Escada altíssima, de cintilantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao céu aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com cintilações de pedrarias.

Não pode olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmúrio das asas.

Não disse palavra, imóvel, tolhido de assombro, sentindo a transfiguração da noite.

José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente através do esplendor.

Maria apareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as palhas onde um menino infante, com as mãozinhas na boca, os olhos cândidos abertos, parecia contemplar a Virgem que sobre Ele inclinava-se.

Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam três figuras de incomparável beleza.

Uma, as mãos diáfanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos, concentrada, rezava. Outra, d’olhos enlevados, com uma palma verde na mão débil, sorria. A terceira, de joelhos, aquecia com o hálito, envolvendo-o nos seus longos cabelos louros, o corpo recém-nado.

Por onde teriam entrado os três seres? Que anjos seriam? Não os pode reconhecer o patriarca, mas chegando-se à Virgem tomou-lhe a mão e beijou-a.

Ele mostrou-lhe o filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não pode por si só exprimi-la e lágrimas correram.

Assim deram os olhos, d’uma só vez, todos os seus tesouros: o brilho do olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor.

Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna.

As virgens desapareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços, chegou-o ao colo, aqueceu-o, afagou-o.

Foi mãe antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu as vozes que atroavam a noite:

“Glória a Deus nas alturas, paz aos homens na terra de boa vontade.”

Ocorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o ser nascido do seu seio era o Deus da promessa.

Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o.

José, afastado do grupo, prestava culto à Virgem e ao infante e o céu, pala voz dos espíritos eleitos, saudava a vinda do filho do homem, portador da piedade.

Ergueu-se o pastor, olhou o céu e, ouvindo os anjos, saiu a correr bradando inspiradamente a Boa-Nova.

E os galos puseram-se a cantar anunciando a maior e mais bela madrugada do mundo.

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Capítulo XVIII: As três virgens


Quando o menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe baixinho: “Se vira as três virgens que cercaram o infante ungindo-o de luz?”

A Imaculada respondeu no mesmo tom discreto:

- Logo que sai do sono, ainda antes de ver meu filho, dei com elas, imóveis, aclarando toda a caverna, de joelhos diante do recém-nascido.

Não falavam. Não sei quem são. Desapareceram de repente como as estrelas desaparecem.

- Seriam anjos? Uma serena voz, saindo das pedras, falou no silêncio:

- A primeira é toda a crença do homem: é a virtude que leva a alma à presença do Altíssimo.

Antes da vinda do Messias era a névoa indecisa que resplandecia e obumbrava-se; agora é a luz pura e perene, a luz viva que guia ao paraíso através de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos sofrimentos, vencendo as mais perversas tentações, sempre direita, inflexível e segura. É a fé.

O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é Deus. É a mais forte da três. A segunda é uma consoladora. Parece um reflexo da primeira: É a esperança.

Veste-se de ilusões, recama-se de sonhos para distrair a alma, livrando-a do desespero. É como o ramo verde que se inclina à borda dos abismos. É a divina miragem que, através das agruras da vida, reanima o coração combalido, criando perspectivas venturosas.

Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada à fé é a precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.

Sem ela a miséria seria um flagelo, a dor seria intolerável. É uma força feita de sonho. Isolada é a fantasia.

A terceira é o amor, é a lágrima que se converte em misericórdia, é a bondade onipotente, a meiguice que salva, a resignação que remite, a paciência que conforta, a lã que agasalha, o linho que estanca o sangue, o lume que aquece.

É o conjunto amoroso de todas as beneficências – a caridade.

São as três irmãs que acompanham o Messias.

Ele tomou-as ao paganismo e converteu-as transmitindo-lhes a sua essência.

Eram as Cárites, são as Virtudes. Foram as Graças, são as beneficiadoras.

Com elas Jesus fará a redenção do homem.

Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe os humildes.

Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados.

- Não ouviste falar?

- Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se também procurassem o misterioso interlocutor.

Mas o menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou.

Presto, Maria tomou-o ao colo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto.

- Deve ser frio, disse José.

- Fome, talvez, disse Maria, ansiosa por dar o peito farto ao pequenino filho.

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Capítulo XIX: O primeiro leite


À primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dor aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime martírio, com a alma a brilhar nos olhos que a dor orvalhara de lágrimas.

Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava paragens como a torrente que se despenha de altura vincando a terra e arrastando o que se lhe antolha à levada.

O Divino alimentava-se do sofrimento humano e naquelas opalinas góticas de leite – sangue e água fundidos em candura – o céu comungava na terra.

A carne mortal nutria o espírito perene, o efêmero transfundia-se no eterno: as duas colinas alvas tocavam o infinito, que era a boca de Jesus, de onde deviam jorrar, em caudais, as leis santas, os sábios julgamentos, a benção e o perdão.

A Virgem sorria e o seu colo túrgido ondulava de ventura, enquanto o patriarca, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira, cuja chama ressurgia ao sopro da brisa noturna.

Fora ressoavam cânticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.

Por vezes um clarão relampejava diante da gruta à esplêndida passagem rápida de um anjo.

Maria, inclinada sobre o filho, só a ele sentia, ouvindo apenas o lento gorgulhar do leite que ele sugava sôfrego.

Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com seus vergéis floridos, o céu com as suas estrelas fúlgidas.

Que lhe importava a aurora se na penugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho, ele via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mãe!

Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupilas da criança, via dois pequeninos serafins alegres!

Que lhe importava a imensa alegria universal, se o seu coração transbordava de felicidade com aquele amor!

Levantou-se um alarido fora, na estrada obscura. José saiu ao limiar.

Um bando de homens corria em tropel em direção ao abrigo agreste. À frente deles, voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das asas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames claros.

No cimo dos cerros grupos resplandeciam.

Súbito uma gaita atroou o silêncio.

4iblio“Hosana! Hosana!”

O pequeno adormeceu docemente com a boca colada ao peito materno. Maria beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.

“Hosana! Hosana!”

bradavam fora. Ela sobressaltou-se e chamando o esposo, perguntou:

- Quem clama assim, meu senhor?

- Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o infante. E ela, cuidadosa:

- Contanto que o não despertem...

E aconchegou-se ao colo agasalhando-o junto do coração.

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Capítulo XX: Dor


Tomando a urna, ao clarear d’alva, quando o velho pastor saia com o rebanho, José acompanhou-o para que ele o guiasse à fonte.

Logo que os dois homens desapareceram, as ervas que ourelavam a caverna cresceram prodigiosamente, emaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada.

A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, ficava em êxtase contemplando o filho,cujo hálito débil cheirava docemente a leite. Posto que apenas tivesse horas, já ela lhe havia descoberto todos os encantos e se lho arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil crianças, reconhecê-lo-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no coração gravado.

Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de sobressalto enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com ele, comovidas.

Tomou-o Maria ao colo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder aliviá-lo, pôs-se a chorar aflita e, sobre a divina face as suas lágrimas caiam gota a gota como o orvalho cai das folhas sacudidas pelo vento.

Ai! dela, como se julgava culpada e infeliz vendo sofrer o pequenino amor, tão novo, tão inocente, tão sem culpa e já suportando as torturas herdadas da carne.

Começava a divindade a visitar o sofrimento; a peregrinação de Deus através da agonia anunciava-se pelo primeiro choro.

Ele havia de conhecer todas as dores, todas as angústias para poder julgá-las aliviando o homem, cuja redenção trazia.

Teatro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava apenas – era a iniciação.

Outros maiores tormentos formavam a falange suplicante, a alameda trágica da existência, onde a alegria é como o nimbo solar que passa dificilmente por entre as frondes compactas.

Que fazer? Deu-lhe o peito. Pôs-se o infante a mamar vagindo, estremecendo a ela, relanceando em torno dos olhos úmidos e aflitos, implorava o mistério.

Tudo era silêncio em volta, ninguém que a socorresse. E os anjos? Já haviam regressado ao céu.

O infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrara desacompanhado

no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se na humanidade.

Só lhe valeram os carinhos de Maria; o calor do colo, o enlace amoroso dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, aliviando-o e, de novo, adormeceu tranqüilo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno.

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Capítulo XXI: Receio


Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de ouro em torno da cabeça do infante adormecido.

Todas as aves chilreavam, gárrulas moças passavam na estrada. Às vezes eram récuas de dromedários desfilando em ruidoso atropelo.

Maria prestava atenção ao rumor, receando pelo filho. Tomou-o muito ao seio e, quase de rastros, aprofundou-se na sombra escondendo o seu tesouro com amorosa avareza.

Tão lindo! quem não o desejaria! E se um daqueles homens, descobrindo-o, investisse para arrebatá-lo, quem o defenderia?

Na treva ficava a coberto de todos os olhares.

No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gota do estilicídio respondia um som lacrimoso.

O ar era frio e úmido, as paredes luziam lutulentas e, fora, o sol brilhava, alegre e tépido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas agudas da abóbada escabrosa.

Quando José reapareceu, a erva da entrada subitamente esmarriu. Vendo deserta a palha estacou, olhando espantado com apreensões de desgraça.

Que seria feito deles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, tremia-lhe a urna ao ombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu esconderijo:

- Aqui, meu senhor. O patriarca adiantou-se e, sentindo a friagem do sítio, ouvindo o triste gotejar na laje, perguntou:

- Por que buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega? Lá fora há um calor macio e sente-se o aroma da ervas vivas, ouvem-se as vozes alegres. Aqui há o silêncio e a melancólica espessidão dos túmulos.

- Eu estava só, meu senhor e o coração, dantes tão animoso, é agora tão tímido que eu viveria, de boa mente, num subterrâneo só para que os olhos maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o.

Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. Ouço-a a todo o instante.

Dizem-me os anjos que ele é Deus. Não me passaram despercebidos os prodígios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh’alma ordena-me que o resguarde, que não o perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez porque é pequeno e fraco.

Não sei se peco com a presunção de defender quem é onipotente, mas como hei de lutar contra mim?

- Mas se o céu nos diz e prova que ele é o filho de Deus, por que hás de recear os homens?

- É o coração que receia.

- E entre o que diz o coração e o que afirmam os anjos hesitas, Maria?

- Senhor, os anjos falam pelo céu, o coração fala pelo meu amor. Se Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo.

E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.

Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nela e, como se quisesse responder, sorriu.

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Capítulo XXII: O sono


Maria mal umedeceu os lábios à borda do tarro de leite de ovelha que o pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apreensiva. Se o filho estremecia sobressaltava-lhe o coração, se o via imóvel, dormindo, temia que houvesse morrido e logo, ansiosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o.

- Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarca, o sono é necessário à vida, é a sombra em que a alma repousa.

O espírito das crianças refugia-se no sono como o dos velhinhos – o primeiro porque dele saiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.

- É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando ele assim fica, meu coração pára retransido.

- É a serenidade. Só o sono dos maus transmite ao corpo a convulsão do pesadelo.

O sono é uma visita à morte. Os inocentes fazem-na sorrindo, os pecadores fazem-na espavoridos.

Não receies que ele passe tão cedo à eternidade de onde veio. Ainda que não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse ele tão da terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.

Não desenterras a semente por não a veres à flor do solo, deixas que ela venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça.

O sonho é uma incubação. Por que não sonha? porque não tem impressões. O sonho é como um reflexo em que há eco, é a reprodução confusa da vida com a repercussão indistinta das vozes e dos ruídos.

Há quem veja presságios no sonho como o nômade vê realidades na miragem.

Com que há de sonhar quem não tem consciência da vida? Deixa-o dormir.

É a noite que a floresta cresce e a criança é como a árvore.

O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigília, uma túnica diáfana sobre a treva – não desperta. As estrelas são meigas porque a noite deve ser tranqüila para que a natureza descanse. Deixa-o dormir.

Conserva-te imóvel e calada, não perturbes a vida misteriosa. Demais, ele é o Eterno. A morte passa por ele como a lâmina de uma espada por um raio de sol. Deixa-o dormir.

em sei que o egoísmo das mães chega a insurgir-se contra as leis de Deus; não te insurjas tu, que o geraste. Ele precisa rever a humanidade entrando pela vida e gozando, saindo, talvez, pela morte com sofrimento.

- Meu senhor! Exclamou a Virgem estendendo as mãos, comovida.

- São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oráculos sobre aquele que tem o destino da vida em sua mão direita!

São palavras que digo. Deixa-o dormir.

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Capítulo XXIII: Palavras de Maria


Como eu agora compreendo que se viva escravizada a um sorriso!

Quando tenho meu filho ao colo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a cor da púrpura e veste-se de branco para não macular os lábios inocentes, toda a minha vida nele se concentra.

A felicidade e a desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento que me alvoroça e nos presságios estranhos que me ocorrem.

É preciso ser mãe, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.

A alma sai-me do corpo e fica junto do infante. Se me arredo um momento sinto-me logo atraída como por uma pesada corrente que se me prende ao coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com ele dentro dos olhos como quem fita um objeto ao sol e depois o vê em toda a parte, ainda na treva mais densa.

Dantes, quando as mães falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava exageradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!

O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: “Meu filho!” São as que o coração me inspira, são as que me agradam ouvir.

Elas fazem um giro alegre como um casal de passarinhos brincando. Saem-me dos lábios, entram-me pelos ouvidos cantando, circulam o meu coração e me tornam à boca.

Meu filho! E não há todo um mundo de amor dentro delas? Que mais é preciso para a ventura?

Quando as suas pálpebras se descerram inclino-me e busco ver nas suas pupilas – que são agora os meus espelhos – o que elas contém.

Fico tão perto que elas só a mim reproduzem.

Do mais tenho ciúme, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.

Quando ele estremece, tremo. Quando ele sorri é tão grande a minha alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e choro e rio.

Ai! de mim quando ele chora.

Não tendes notado que eu sou agora como uma faminta perdida que não se sacia de alimento?

Não é que tenha fome, não; mas penso nele e, como é preciso que ele encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celeiro.

Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que ele faça surpreendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o, procurando readormecê-lo ou acalentando-o, se chora.

Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que vivo no mundo, só dele me lembro. Onde ele está aí é que me apraz viver.

O seu berço é o oásis em imenso deserto.

Dizeis, às vezes, que me distraio porque não vos respondo de pronto. Não é distração, é que alma está junto dele – o corpo fica vazio como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara.

Disseste uma vez: “As mães adivinham.” Como conheceis o coração materno!

E há mais que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem guiar na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem ver sem a luz? Como não soçobram no pranto? Eu...

- Por que choras, Maria?

- Porque sou feliz, meu senhor...

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Capítulo XXIV: As duas mães


Junto a uma velha figueira, que ficava a dois passos da caverna, onde a estrada, bifurcando-se, dava uma sinuosa trilha para os montes e um caminho direito para os campos, sentara-se Maria com Jesus ao colo, gozando o frescor da manhã serena e vendo os pombos revoarem, com um rumoroso ruflo d’asas, passando, repassando em torno.

José descera à fonte.

Zagalejos passavam soprando frautas e o sol, acendendo as camarinhas do orvalho, fazia da paisagem uma extensa cintilação.

A Virgem entretinha-se, enlevada no pequenito que acompanhava a ronda alígera das aves, quando uma pálida mulher, andrajosa e descalça, os cabelos desgrenhados, os olhos fundos, a caveira estalando a pele seca, apareceu no caminho, tão lenta e tão alto e angustioso arquejo que foi por ele que Maria sentiu a aproximação da infeliz.

Era ainda moça, conservava na miséria um resto de emurchecida beleza.

Os olhos negros ardiam febris como dois carvões em que faiscassem fagulhas; as rosas das faces haviam amarelecido, os lábios, ressecados e lívidos, estalavam em fendas como golpes.

Trazia nos braços, envolta em grosseiras faixas, uma criança que vagia.

Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d’água e, parada, tremendo, estendeu a mão magra a pedir.

Maria encarou-a compadecida e, como não possuísse moeda, não respondeu à infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluçou:

- Não é por mim que peço, é por ele. Tenho-o, desde ontem, ao seio, bebendo sangue – não é o peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do pobrezinho está da cor da anêmona.

Não lamentaria a dor com que a sua fome me apunhala se o visse saciado, mas o sangue não farta e, ainda que eu não lhe recuse o que me resta de vida, sinto-o enfraquecer a mais e mais.

Já não chora, nem abre os olhos, começa a agonizar, como a planta que o sol mirra na terra adusta.

Dai-me o bastante para que ele viva um dia, só enquanto eu viva. Que ele morra depois de mim para que eu o receba na morte.

Maria fez lugar junto à figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus, tomou o pequenino moribundo. Pôs-lhe na boca o peito túrgido e logo o sentiu sugar avidamente.

A mísera mulher embalava o divino infante, apertava-o ao colo com medo de que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia.

Tão enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus peitos, junto aos quais Jesus agasalhava-se, enchiam-se, apojavam-se. E toda ela refazia-se: a carne renovava-se-lhe robusta, voltava-lhe a cor ao rosto.

Satisfeita, a criança adormeceu ao colo de Maria e da boquinha entreaberta escorreu, rolou na grama uma gota de leite, caindo, como uma pérola, na raiz da figueira.

As duas mães olharam-se caladas porque as crianças dormiam. Trocaram-nas tomando, cada qual, a que lhe pertencia e a miserável, agradecendo a esmola, foi-se por entre as margaridas do caminho.

Perdeu-se no meio das árvores, reapareceu no lançante do cerro.

De repente, já no cimo, envolta em luz, estacou derreando a cabeça como para olhar o céu e súbito, lançando os braços, tombou sobre os joelhos.

Dera, sem dúvida, pelos peitos cheios.

Maria, para segui-la com o olhar, levantou-se e, como se apoiasse à figueira, uma folha caiu. Sentindo os dedos úmidos mirou-os – estavam molhados de leite.

De onde proviria? da fina haste da figueira de onde se destacara a folha.

A árvore sorvera a gota de leite que rolara da boca do pobrezinho e sempre a verte mostrando-a aos incrédulos, mal se lhe arranca uma folha ou se lhe golpeia um galho, como uma prova da misericórdia suave.

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Capítulo XXV: A estrela


Ao declinar do sol, quando cessava a alegria rural e, quietos, em mangotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em estribilhos tristes, José, à entrada da caverna, as mãos cruzadas sobre o cajado, contemplava o céu macio, barrado de ouro no ocidente, onde os outeiros pareciam arder como altas piras sobre as quais flamejasse um lume votivo.

Um mole, lânguido quebranto prostrava a natureza.

As árvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros pássaros aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal.

Nas alquebradas sombrias crescia a voz das águas borbulhantes, saltando, escachoando de pedra em pedra até fluírem massas sob as pendidas ramas que pareciam tremer de frio.

Longe, na cidade, ressoava o tumulto humano. Grossos rolos de fumo negro subiam nos ares, fundiam-se, dissipavam-se e, à medida que a noite conquistava a paisagem, apontavam pequeninas estrelas esmaltando o céu.

A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o encantamento maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia.

O patriarca, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para o lado do oriente obscuro, viu um como fúlgido alfanje chamejando na treva.

Tremeu e, fitando o olhar na estranha aparição, notou que avançava no céu vagarosamente.Era uma estrela enorme, de brilho coruscante, que parecia haver atravessado a teia da Via Láctea, tendo dela trazido um rútilo farrapo que a seguia através do espaço.

O astro subia em marcha grave e as demais estrelas esmoreciam à sua passagem como se se retraíssem tímidas.

Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam atônitos olhando o prodígio.Alguns, atemorizados, invocavam deuses, rojando-se por terra; crianças choravam espavoridas.

E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flamejante cauda aberta, pairou no céu, sobre a caverna, como uma palma de luz que assinalasse o berço do Messias.

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo XXVI: Epifania


Pastores, que faziam a vigília no campo, contemplavam embevecidamente a estrela maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.

Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, à luz de archotes, cujo clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.

Os animais pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho era o fulgor que irradiavam nos cabelos árdegos em que vinham.

Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e três dromedários enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas por cavaleiros robustos.



Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o ritmo da marcha. Vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que tresmalhavam metendo-se pelos matos.

Os cães de guarda, atentos, d’orelhas fitas, conservavam-se silenciosas como se reconhecessem os chegadiços.

Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos archotes, a caravana aproximava-se.

Na planície, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.

Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos, fincaram cepos e, em pouco, tendas retesaram-se.

Os animais, aliviados da carga, deixaram-se na erva fresca, espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavaleiros cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrelas.

Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para ver de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.

Um deles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia às costas, suspenso duma corrente, um dardo de ferro.

Sem tempo de fugir caiu em poder do vigia que logo o conduziu à tenda mais suntuosa, toda alfaiada de seda e púrpura e nublada de aromatas .

Lampadários de ouro iluminavam-na. A erva desaparecia sob tapetes altos, escudos lampejavam e, como o, negro o impelisse, viu-se o pastor na presença de três homens, ricamente paramentados com fotas na cabeça rutilantes de gemas.

Eram magos das terras remotas.

Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito cintilante de pedrarias; outro da cor amarelada dos filhos das extremas da Ásia; o terceiro, negro, com imensas camândulas de ouro em volta do pescoço, braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por um mastro, um diamante que coruscava.

O pastor ajoelhou-se e, medroso, espera ouvir palavras severas, quando um dos homens tranqüilizadoramente perguntou:

- Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O rústico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, imaginando-se vítima de uma zombaria. Lembrou-se, porém, dos anjos e de todos os prodígios da noite messiânica, respondeu vagamente:

- Perto daqui nasceu – e os céus festejaram o seu natal – um menino, filho de pobres, vindos de terras longínquas. Ainda lá está no mesmo tugúrio, ao colo da mãe, que é uma linda moça, sob a guarda de um ancião venerável. É bem perto daqui, na caverna do outeiro sobre a qual paira e brilha a estrela alada que apareceu no céu.

Levantaram-se os três homens – o pastor saiu da tenda e, estendendo o braço na direção do outeiro, disse:

- É ali, sob a estrela.

- Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silêncio, contemplando adorativamente a estrela que resplandecia.

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Capítulo XXVII: Adoração dos magos


Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direção à caverna.

A grande estrela ainda luzia no céu.

Os magos seguiram à frente nos dromedários e, em torno deles, nitiam , caracolavam os ginetes dos cavaleiros com que os seus telizes dourados, os seus caparações de púrpura.

Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e, respeitosamente, com humildade de servos, deixando no limiar os papuzes marchetados, os magos penetraram zumbridos , como se fossem os rastos, levando nas mãos, devotamente, as páreas significativas.

Recebeu-os o patriarca e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao colo, os três homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo os turbantes e, inclinando a cabeça, ficaram um momento em veneração silenciosa.

O primeiro falou oferecendo a mirra.

- Homem, filho de Deus, a árvore do deserto deu do seu trono a resina que te ofereço; o seu perfuma é uma força que se opões à destruição da carne: eterniza o corpo como a virtude eterniza o espírito.

O segundo inclinou-se com um escrínio cheio de ouro:

- Rei, das minas, onde fervilham os veios rutilantes, deram a poeira que te ofereço: ouro, símbolo do poder, chama fria da terra. Tudo ele vence: a miséria e a própria virtude. Desoprime e escraviza, redime e perverte, é o bem e é o mal. Nas mãos mumificas é luz que aclara e salva; nas mãos cruéis é chama que consome.

O negro falou por último com uma patena de incenso:

- A árvore instila a lágrima que recende, lágrima que, ao lume, se converte em fumo e evola, demandando o céu, como homenagem de terra.

Como lágrima, é uma concentração; como aroma, é uma oblata. É o incenso com que se glorificam os deuses. É a oferenda das terras negras ao Deus que redime.

Gente, que afluíra à caverna, pastores e seareiros, mesteirais, velhos, mulheres e crianças das arribanas próximas entraram e, diante da palha humilde, toda a grandeza e toda a humildade confraternizaram e também o sol, como enviado do céu

, adorando o infante da misericórdia que baixara para cumprir as profecias trazendo aos homens a religião do amor.

E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava, contemplava, adorava o pequenino filho.

O sol cercou-se de esplendor e a Virgem, de pé no meio da turba, com Jesus ao colo, era o puríssimo altar sobre o qual se mostrava às gentes o divino perdão.